sábado, 18 de dezembro de 2010

Its Night

Its Night

Duas tequilas e cinco caipirinhas
Esta ficando quente a cada minuto
Você não acha?
Eu quero dançar
Vamos dançar?

Eu sussurro em seu ouvido.
Sinta a minha mão na sua cintura
Colando o seu corpo com o meu
Sinta a minha mão na sua nuca
E a minha língua em seu pescoço
Só para provocar
Deixe eu morder a pontinha da sua orelha?

Encurralado na parede
Beije-me
Sinta o calor do momento
Sinta a minha mão no seu peito
Sinta, ela descendo conforme a musica toca
Sinta os meus dedos que circulam a sua cintura

Vamos dançar?
Venha girar comigo hoje a noite?
Você quer ter uma noite inesquecível?
Quer sentir muito prazer?
Então venha
Sem medo de brincar

Deixe eu tirar a sua camisa
Sente-se
Hoje a noite é sua
Deixe me sentir o quão quente esta o seu corpo
Venha garoto
Sem medo de brincar

Deixe que o calor tome conta do seu corpo
Relaxe e sinta o calor do momento
Mais uma tequila
Que bundinha macia
Tome mais algumas caipirinhas
Solte-se, divirta-se
A noite é sua
E eu serei seu

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

We will return...

Chuva antes das sete
Tempo bom antes das onze.

Sentado na janela aberta
Vendo a noite junto com a minha vida passar
Revendo momentos felizes
Em quanto às folhas secas das árvores caem no chão

Foi tudo tão rápido
Que eu nem sei como deu tempo para eu te amar

Agora eu tenho que escolher
E aceitar ser o seu amigo
Só para manter você perto de mim
Em quanto eu vejo os seus lábios encostar-se aos de outra pessoa

Nos meus poemas
É possível ver o seu nome nas entrelinhas
E logo vão perceber que estou indo
E logo iram dizer
Lá se foi mais um.

Viver e morrer sem o meu amor
Vivenciando sozinho o dia dos apaixonados
O Outono parece que não vai acabar...

[Rain before seven
Good time before eleven.

Sitting in the open window
Watching the night with my life go
Reviewing happy moments
In regard to leaves of trees fall down

It all happened so fast
I do not know how long it took for me to love you

Now I haven to choose
And accept to be your friend
Just to keep you near me
While I see your lips to lean on someone else's

In my poems
You can see his name in between the lines
And soon they will realize that I am going
And soon will say
There went another.

To live and die without my love
Living alone on the lovers'
Autumn seems that will not end...]

domingo, 17 de outubro de 2010

Amor, Saudades!

Nunca se esquece quem se ama
Só o olhar, basta
O aparecer, o cheiro dele no ar
Deseja aquela boca,
Aquele corpo.

Amar não é tão fácil
Devemos sofrer
Cair e se erguer,
Mas nunca para de tentar, sempre,
Mas sempre amando
Mesmo que o tempo diga não
E por mais que você ache melhor esquece-lo
Isso não é melhor
Isso não vai fazer os seus sentimentos por ele acabarem
Se a vida palpitar
Ouça o seu coração e o orgulho que se foda
O importante é que você ama e vai sempre amar

Não é o tempo,
Nem as águas que lavarão as suas lágrimas,
Nem mesmo o dinheiro,
O ouro do mundo,
Que ira fazer isso mudar,
Não vão ser as palavras,
Nem as outras pessoas
Que irão fazer isso mudar
Isso é bom
Uma mistura
De todos os sentimentos bons e ruins
resultando numa coisa só,
Amor.

Presente

Amo
Pois eu temo a solidão,
Mas eu temo
Tudo aquilo que é temporário

Amar
Você vai ser o meu castigo,
Mas eu anseio a chegada dos seus beijos

Amei
Pois a minha matéria é mortal,
Mas cairei
Quando ouvir de você
Não te amo.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Viva

Não se torture
Pois a vida ira fazer isso com você.
Quando o amor bater na sua cara
Quando você perceber que não consegue mais viver
Sem o amor daquele cara
Aquém você chutou da sua vida

Quando você estiver gritando de dor no peito
Lembre de mim
Lembre que eu parei o meu tempo por você
Que você julgou o meu amor como falso
Que eu fui compreensivo com você
Ninguém mais vai te amar como eu...

Os seus olhos não conseguem enxergar a vida como tem que ser
Do seu orgulho, se fez uma parede na sua frente
Definhando o seu ser
Destruindo o seu coração
Melando o seu rosto com as suas tão salgadas lágrimas
Cansando e sujando a sola dos seus sapatos

Mas você tem coragem de admitir que esta errado?
Você nunca vai falar que errou
O seu orgulho não deixa.
O seu orgulho não fez nada valer a pena
Ele só se tornou a sua ignorância
E você não percebeu
Porque não quis

Eu quero ouvir você dizendo que sou a sua vida
O seu amor
Ouvi que é muito forte o que sente por mim
Que você não consegue viver sem mim

Volte a ter quatorze anos
E fique naquele namoro de criança
Pois não a nada mais puro e inocente que isso
Isso mesmo
Quero ver se você consegue viver só no passado
Só de passado

E não me fale mais palavras bonitas.



sábado, 2 de outubro de 2010

Ouvindo os Sentimentos

Quantas vezes você quis conversar comigo?
Quantas vezes você preferiu ouvir só os outros?

Orgulho para quem não sabe usar é ignorância!

Eu só queria proteger você
Eu só queria dizer ...

Porque tem que ser tão complicado?
Que chama é essa que não quer apagar?

As folhas secas de Outono
Caíram todas
E logo a primavera vai estar ai
E eu vou estar aqui sem você

Por que você não quis conversar?
Por que você não quis me ouvir?
Por que você fez isso comigo?

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Príncipe Mentiroso (Prince liar)

Você disse adeus
Falou em não me amar mais
Mas, nas minhas memórias
Ainda ficam a ressoar
As palavras belas que você disse pra mim.

Acho que fui uma pedra
Sobre aquele que você diz amar.

Carinha de bebê...

Será que poderemos nos amar?
O nosso amor veio a falecer?
Não poderemos mais conviver?
E você, me amou mesmo?

A criança brincou
Se divertiu muito
Mas, agora o brinquedo quebrou

Lindo.
Você deixou o nosso amor imperecível.

Fui a pedra nos seus sentimentos
Reis e rainhas
E o reino em ruínas
Príncipes brincam de amar.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Vagabundo Amor

Vagabundo Amor

Na fria calçada
Eu vejo a sua imagem refletida numa poça de água
E nas folhas secas de Outono
Eu vejo a nossa história sendo escrita
Nos seus beijos
Eu não sinto mais o frio que cortava a minha pele

Mas agora eu percebo
Como seria se o tempo para-se agora
Eu e você, juntos aqui, agora...

Eu sei que te amo
Mas agora sei que você tem que crescer
A fruta precisa amadurecer

A minha historia
Eu sei que sou eu quem cria
Você agora faz parte da minha biografia

Deixe os cachorros latirem
Eu prefiro me roçar em você como os gatos.

Sei que você não esta aqui
Mas sei que te amo
A minha voz você não vai mais ouvir
Mas os meus ouvidos não vão enjoar da sua.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Amor Para Os Tolos

Amor Para os Tolos

Digo que amo
Pois sou um mortal tolo
Igual a todos
Vivo vivendo no mundo vazio
Praticamente sozinho

Sigo colocando os meus sonhos na minha frente
Ando deixando você pra trás

Vou viver sem o seu amor
Que no fundo eu desejo tanto
Vou sentir falta dos seus beijos
Mas prefiro sofrer sem você
Pelo menos assim os meus sentimentos não virarão brinquedos

As ruínas das suas lembranças
Não vão se reerguer
Preste antenção

Eu vou sempre amar você
Esse vai ser o meu karma
Mas isso nunca vai significar que você é o único

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Auto Esboço

Eu sou como os meus esboços.

Linda flor
que não desabrocha
Um anjo
perdendo as assas
Cai...

Penhasco sem fim
Aquele livro que nunca li
Mas já sei qual vai ser o fim

Alguém podia fazer o mundo parar de girar
ou eu podia parar de chorar
Os meus pés
Fincados no chão
Mãos calejadas pela dor
A fúria no céu vai me atingir

Eu vou pensar nas palavras
E no passado que teima em não passsar
Vou sentar

Querida dor
Case-se com o querido amor
E tenham varias loucuras

segunda-feira, 16 de agosto de 2010



By: Rosana
[http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=5070464836179551320]

sábado, 14 de agosto de 2010

Amor Bailarina

Amor Bailarina

El amor no es un jugueto
Tira el dinero en mi etapa
Y ver...

Elige tu futuro

Usted puede cometer errores y la culpa
Usted ha hecho sangrar mis ojos
Pero su capacidad para dominar
No funciona en mí

Voy a bailar para que usted vea
Soy mas de lo que

Me das fuego
Presté atención
Disculpe niño
Pero voy a hacer llorar

Las piedras se desvanecerá
Las hojas verdes de los árbores
Dirán que estoy renovada
En mi armadura que no obtendrá más

Lances sus monedas de oro
Y veo que usted loco

Tradução:

Dançarina do Amor

O amor não é brinquedo
Jogue o seu dinheiro no meu palco
E veja...

Escolha o seu futuro

Você pode errar e culpar
Você fez os meus olhos sangrar
Mas a sua capacidade de dominar
Não funciona em mim

Eu vou dançar pra você ver
Que eu sou mais que você

Você me deu fogo
Me deu atenção
Desculpe me criança
Mas vou fazer você chorar

Jogue as suas moedas deouro
E veja eu enlouquecer você

Engel zerstört

Sonhos de amar
Uma lâmpada se apagou no corredor
Encontro me no escuro
Você me faz sentir bem
Eu ainda tenho a minha alegria de viver

Sonhos – pontes de desejos
O caminho do amor é turbulento
As pedras não saem tão fácil

Trajado de pierrô
Meu mau amor
Sofrer não é chorar
E sim lutar

Desejos – sonhos alcançáveis
Amor resulta no amor
Colombina ama e nega
Somos jogadores

Caro amante
Aqui em vida digo que te amo
Em morte digo te protejo

Entre o céu e o inferno
Esta você
Aquele que eu amei em vida

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Noite Fria, Colo Quente

Noite Fria, Colo Quente

Os seus beijos

Lembram uma noite de inverno

Num entrelace de duas pessoas apaixonadas

Eu vejo você


Os seus beijos

São como noites de invernos

Deitado no chão da sala

Com duas taças e uma garrafa de vinho


Os seus beijos são

Prazerosos, como num quarto de motel.

Deliciosos, como saborear uma barra de chocolate.

Carinhosos, como o nosso amor.


Os seus beijos dão

A sensação de tudo o que eu mais gosto

Ou de tudo o que é bom.







quarta-feira, 14 de julho de 2010

A Linda Bailarina, A Lua e a Flor

A Linda Bailarina, A Lua e a Flor.
A linda Bailarina
Insinuava-se para a lua.
Num doce gesto e num suave balançar de cabelos
A linda bailarina
Assim como veio ao mundo
E com um olhar firme e penetrante
Ela encarava a lua
Num gesto esnobe da lua
A linda bailarina cola-se de joelhos no chão
Com os seus cabelos negros
Sobre os seus peitos despidos
E os olhos fechados
Com a sua boca doce e carnuda
Ela manda um beijo para a lua
A linda bailarina
Anseia a chegada do seu beijo
Ela se pega no seu próprio pensamento

“Será que chegou?
Será que ela gostou?”

Uma linda bailarina desiludida
Pela paranóia de um pensamento de amor não correspondido

“A lua não me ama
Mas eu a amo tanto”.

A lua refletida no lago, diz:
“Eu te amo sim, linda bailarina.
Aprova do meu amor não são as palavras que ressoam no ar
O meu silêncio também diz
Eu te amo”.

A linda bailarina
De joelhos no chão em frente ao lago
E as suas lágrimas
De tanta felicidade
Ilumina a sua pele branca, linda e macia.
Em um gesto de amor eterno
Um mergulho no lago
E numa linda flor
A linda bailarina se transformou.


(Eu dedico especialmente para as minha amigas Zana e Clau, eu amo vocês, garotas)

Dyh Fernandes

Andorinha - Ilusionista do Amor

"Andorinha – Ilusionista do Amor"
Sentado nas pedras
Sonhando...
Amor pecador – Ilusionista do amor
Uma andorinha que voa
Voa, voa, voa, vão...

Eu peguei o amor do chão
E cuidei, cuidei, cuidei...
Mas é chegada a hora de voar

O amor – O doce causador do caos
Aprisionado na gaiola de ouro
Quero voar – Sonha garoto

Voa, voa pequena andorinha.
Olhe, cuidado, pois as suas penas iram cair.
O mundo inteiro é grande
E nele haverá uma andorinha em especial
Pra mim.

sábado, 3 de julho de 2010

Playgraound do amor

Playgraound do amor
Vamos brincar
Vamos rir
Correr e saltar.

La la la la la...
A sua cabeça é a minha roda gigante
O seu coração é o meu pula-pula
Você vai chorar, vai?
Vou rir

Isso é só uma brincadeira
Supere, seja forte

Palavras de consolo
Guarde-as no seu cú!
Não brinque
Todo ato tem a sua conseqüência
Meninos homens não choram


Lamurias I

Lamurias I
Andando sozinho
Cansado, nada aparece no horizonte.
Tem areia nos meus olhos
E calos nos meus pés descalços

Anseio pelo dia em que sairei desse deserto
Não quero mais sentir frio
Não quero morrer no fim

Um moribundo cansado
A areia branca
O vento frio, cortante.
O sol quente
Um anjo
Com as asas queimadas

O que é bom?
Morrer ou viver?

A fachada
É a ponte para o meu sucesso e fracasso

Creio que beber e fumar
Não seja a solução
Gritar talvez seja
Talvez alguém me ouça
Será que as pedras?
Talvez as pedras ouçam

O céu escuro
Oh coração amargurado

Batidas de um ladrão em fuga
Choro de uma puta sofria
Lamuria daquele que pode ter tudo


terça-feira, 18 de maio de 2010

Certo ou Errado Amar?

Certo ou Errado Amar?
Você teve coragem
Chegou botando banca
Contando e encantando
Botou-me na sua vida

Besta ou inteligente?
Homem ou menino?
Só sei que você foi corajoso
Domando aquele que ninguém tinha domado

Parando o tempo
Parando o meu tempo

Primeiro você fez tudo rodar
Me deixou tonto, zonzo
Caído na calçada

Eu não te dei o direito de chegar assim
Nem intimidade eu dei pra você
Mas você foi atrevido
Me testou
E provou que me ama
Será que fui louco de aceitar?

Se fui, não importa
Sou um louco nato
De beber e de me entorpecer

Eu não vou encher a cara
E nem ao menos me drogar
Não preciso disso pra dizer que amo

Eu amo
E assumo isso
Sem nenhum pecado no peito
Eu amo
Amo um garoto, homem e menino
Um ser do mesmo sexo
E não vejo nada de errado nisso

Grito para o mundo
Ou pra quem quiser ouvir
Amo um menino
Pois sou um menino também
Assumo isso para todos

Taquem as pedras em minha direção
Me desviarei de todas?
Ou me colocarei na frente delas?



Uma Semana

Uma Semana
Todo amor começa numa maravilha
Todos falam isso
Ouvi isso de todos
Foda-se.

Já faz uma semana que falei que te amo
Faz uma semana que comecei a ti namorar
Fez uma semana que descobri a felicidade
Tem uma semana que você entrou na minha vida

Mas pode se passar um mês
Até mesmo um ano ou mais
O meu amor por te só vai crescer

Brigas e desacordos
Existem e não tem como fugir
Eles estão ai
E mostram que eu posso amar você bem mais



terça-feira, 11 de maio de 2010

Sentimento (?)


Sentimento (?)
Ah, se os olhos falassem.
E as bocas parassem de se mexer
Eles diriam
O que o seus ouvidos querem ouvir

A noite grita
A noite dos amantes
Pétalas de rosas jogadas na estrada por onde você passa

Abraçados
Vendo o sol que lá longe nasce
Vivos num mundo pequeno
Quão grande será esse amor?
Viver por você?
Os bilhetes que irei escrever
Dirão ao passado que um dia eu amei

Vou ao seu encontro
Sonho com os seus olhos
Viajo nas nuvens
Perdido num mar de pensamentos

A noite continua a gritar
“Eu amo o sol”
O sol ao nascer diz
“Eu amo a lua”

Anjos se põem a bailar
Numa doce musica inocente.



segunda-feira, 10 de maio de 2010

Envie de son baiser

Envie de son baiser (Saudade do seu Beijo)
Se eu for morrer de saudades
Antes de isso acontecer
Eu quero sentir você

Não consigo esquecer
Aquele beijo doce
Que me fez adormece em seu colo

Sentir de novo os seus braços
Envolta da minha cintura
O seu cheiro
A sua doce pele
O seu corpo encostado no meu

Se for assim
Que eu quero sentir o meu menino perto de mim
Vem, vem dividir os seus sonhos comigo.
Quero me tornar parte da sua vida

Amar não é cair no desespero
Amando caindo de dor no peito
Sem saber ao certo qual a causa ou o causador

Não sou de chorar
Mas também nem quero
Na sua frente vou fingir ser forte

Se for para morrer
Quero sentir o seu beijo
Esse é o meu último desejo
Ver você




segunda-feira, 26 de abril de 2010

A Criança do Campo

A Criança do Campo
As garças estão cantando
O meu coração...
Uma rocha fincada no chão.
Levante-me com as suas mãos?

“Levante, oh pobre coração de criança
Já esta na hora de se reerguer
Sair, correr pela frente”.
Os ventos estão mudando de direção

Você queria viajar
Queria ver o céu
Os pássaros a voar
Aquelas lindas rosas a desabrochar
Você viu as chamas?
A cinza fumaça no céu?
Que destruiu o sorriso de uma criança

Plante os seus sonhos
Transforme-os em desejos
Construa-os na sua frente.




domingo, 14 de março de 2010

Criança Medrosa
Aquele corpo
O seu sorriso
Na minha mente
As suas palavras
Os seus trejeitos
Presos na minha cabeça

Amo-te por que gosto de ti amar
Amo-te por que sou um humano também
Amo-te por que ti desejo
Amo-te, mas tenho medo de amar

Sou uma criança medrosa
Você pode achar tolice
Mas o que posso fazer
Se é da natureza humana
Não querer sofrer

Meu bem amado
Meu sonho
Vai virar papel queimado

Sou um anjo devasso
Na hora do sexo não nego fogo
Mas na hora de amar
Meto a minha cara na parede

Os outros dirão:
“Eu ti amo”
Como se o amor fosse julgado por palavras doces
Eu quero tocar o seu coração com os meus carinhos
E não com as minhas palavras

Quero ti amar
Você deitado no meu colo
E eu ti cobrindo com o meu amor incomum

Eu tranzo com vários
Mas o único que amo é você
Eu beijo todos
Mas o seu beijo é o único que não esqueço

Amo-te
Com o medo de amar
Vou trazar, beijar qualquer um
Mas desejando, querendo dormir com você
Eu o amo
Demonstrando com carinhos e atenção

Sou uma criança medrosa
Pois eu ti amo
Assim que o inverno chegar
Vou-me por á chora


Anjos da Noite
Já é meia noite
Os anjos estão em silêncio
Sentados no teto da minha casa

A noite diz:
“Sou não nego o que sou,
Você se julga maior,
“Mas é menor que as minhas estrelas”.

A lua esta escondida num vem de nuvens.
Pela janela eu vejo
Belas plumas brancas a bailar no ar
Pela janela eu vejo o tempo passar
Vejo que nadar contra a maré
É não sentir o vento bater
Vejo que você não vai sumir.

Correndo num campo aberto
Olhos aos céus
Mãos a voar,
Não quero que chova agora.

Sou visto por vários
Mas poucos me notam.
Quero voar junto com os meus anjos
Sentir a liberdade bater na minha face
Quero andar na noite
Ver o que um anjo vê
Quero ser aquele que vai poder te proteger
Quero voar junto com os meus anjos




quinta-feira, 4 de março de 2010

Anjo Vadio
Senta ai
E pode deixar
Que eu sei o que fazer.

Você é um reles humano
A sua raça já nasce com o pecado
Não adianta disfarçar
Eu sei que você não agüenta a pressão
Não resista, não precisa

Eu sou um anjo
Que vai te mostra o que é pecar de verdade

Senta ai
Que eu vou te enlouquecer
Seu pequeno pecador
Seu pequeno mentiroso.

Não resista
Não precisa

segunda-feira, 1 de março de 2010

Sexo com Amor
Quero estar com você!
Passar essa noite aos seus braços
Realizar o meu sonho.

As nuvens do dia se escondem no oriente
Enquanto as da noite
Tentam esconder a lua de mim
Querem que eu ti esqueça

Mas digo
Que dos meus sonhos você não sai.
Vou voar...
Quero cair na sua cama
Quero ouvir você perguntar
Se eu estou bem.

Não quero passar esta noite com as estrelas
Quero passar preso, preso nos seus braços.

Noite fria
Quero sentir o calor do seu corpo
A sua ofegante respiração
Sobre meu pescoço
Quero estar nu, na sua cama
Vou me entregar sem medo
Sem sujeira, sem nenhum receio

Preso aos seus braços
Fazendo amor
Beijando o meu senhor
Fazendo amor
Sem nenhum pudor

Quero ser aquele que ti abraça
E diz que ti ama
De verdade.

Quero ti beijar
Quero ti amar na cama
Quero, ti quero


Noites de Iguarias
Se eu quiser ver as palavras que do meu coração saem
Eu me olhava no espelho
E aproveitava para ver no que eu me desgracei
Por causa das pessoas que eu acha serem o que são.

Um bom livro é feito de várias páginas
Uma diferente das outras
Bons sonhos, não são iguais, nem parecidos
Noites de diversão não existiam

Foi tudo o mesmo
Foi tudo caindo
Aquele anjo.
Vai voltar a voar
Alegre, feliz pelas nuvens cinza
A onde os raios não vão atingi-lo.

Agora ouçam as minhas palavras
Que não mudam as pessoas
Mas mudam as suas cabeças
E não serão palavras do meu coração
Serão as palavras que da minha boca saíram
E farei questão
De que elas voem para seus ouvidos.

Nem é um copo de Whisky que vai me fazer ser verdadeiro
Ele vai ser o consolo do ódio
O muro em que vou escorar-me.
E não vou chorar
Vou deixar que as nuvens façam isso por mim

Vejam os meus passos
Que vão à frente
E que vocês não vão poder acompanhar
Estou na frente agora
Não mais atrás.


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Puro
Eu olhava para a sua pele
Sedutoramente quente
Sua imagem nua, incompleta, na mente
Fico louco ao tocar seus seios
Ao passar a minha mão sobre a sua pele
Estendendo-as até as suas coxas
Numa rápida passagem sobre suas nadegas

Num leve e doce gole de vinho
Nossos lábios se tocam
E junto com os olhares, que falam demais,
As línguas dançam junto com os lábios
Tocam-se, como se tivessem se despedindo
Tocam-se, como se tivessem sonhando
Tocam-se, pelo puro prazer
De sentir o calor de um corpo ardente.

Num leve roçar de beijos a amasso
Sinto mais um corpo no meu quarto
Sinto um par de mãos á me acariciarem
Elas seguram a minha nuca
Meus ombros e cintura.
Elas caminham sobre a minha pele
Ao fazer o reconhecimento da área
Sinto os beijos, de um lábio doce sobre a minha pele
Queimada, pelo prazer.

Ao me virar, me deparo com uma boca doce e quente
De um beijo calmo e doce para um forte e agressivo.
Duas bocas apaixonantes
Quero sentir seus peitos definidos
Sua barriga tanquinho
Suas coxas grosas e peludas.

A minha língua esta viajando por dois corpos maravilhosos
Nessa noite, e em várias outras
Eu quero experimentar essa sensação
De ir ao céu, inferno e paraíso

Três corpos desnudos
Num quarto, numa noite quente
Derrame essa taça de vinho sobre o meu corpo.
Deixe-me encostar os meus lábios sobre seus seios
Quero sentir o prazer que esse homem pode oferecer
Saber o que essa mulher sabe fazer

Nessa noite e em várias outras
Três corpos desnudos
Coxa com coxa
Boca com boca
E você mostrando o que sabe fazer
Nessa noite em várias noites
Sua coxa, lisa e macia
Seu peito definido e sua barriga tanquinho
Seus seios e sua pequena cintura
E as suas coxas grosas e peludas
Nessa noite. Em várias noites
Quero sentir o calor desses três corpos pelando em prazer.




Dyh Fernandes

Criar seu atalho

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010



Erótica, romance(repete)
Meu nome é Dita
Serei sua amante esta noite
Quero te por em um transe

Se eu te pegar por trás
Me enfiar em sua mente
Quando você menos esperar
Você vai tentar rejeitar?
Se eu estiver no comando e te tratar como criança
Você vai enlouquecer?
Deixe minha boca ir onde ela quiser

Desista, faça o que eu disser
Desista e faça as coisas do meu jeito
Eu vou te dar amor, "bater" em você como um caminhão
Eu vou te dar amor, te ensinar como...

Quero te por em um transe, por todos os lados
Erótico, erótico, coloque suas mãos no meu corpo
Erótico, erótico

Quando você colocar sua mão no fogo
Nunca mais será o mesmo
Existe uma certa satisfação
Na dor
Posso ver você entender
Posso te dizer que você é o mesmo
Se você está com medo, vamos supera-lo
Eu só machuco aqueles que amo

Desista, faça o que eu disser
Desista e faça as coisas do meu jeito
Eu vou te dar amor, "bater" em você como um caminhão
Eu vou te dar amor, te ensinar como...

Quero te por em um transe, por todos os lados
Erótico, erótico, coloque suas mãos no meu corpo
Erótico, erótico

Erótica, romance
Eu quero te por em um transe
Erótica, romance
Coloque suas mãos no meu corpo

Eu acho que você não sabe o que é dor
Acho que você nunca sentiu isso
Eu posso te dar tanto prazer
Eu virei a você quando você disser
Eu quero que você me queira
Não vou te machucar
Não vou te machucar, só feche os olhos

Erótico, erótico
Coloque suas mãos no meu corpo
Em todo o meu corpo, em todo o meu corpo

Erótica (desista, desista, desista) romance
Quero te por em um transe
Erótica (desista, desista, desista) romance
Eu gosto de fazer um outro tipo de
Erótica (desista, desista, desista) romance
Quero te por em um transe
Erótica, romance
Coloque suas mãos no meu corpo

Só o que te machuca pode te fazer sentir melhor
Só o que te causa dor pode faze-la desaparecer

Erótica

domingo, 10 de janeiro de 2010

O Vampiro Lestat (Anne Rice) I part.




Lestat não é apenas um vampiro que impiedosamente crava as presas no pescoço de qualquer mortal. Ele é um vampiro sofisticado, que soube cultivar o savoir-vivre ao longo dos tempos. Nesse livro, segundo volume das crônicas vampirescas, Lestat narra suas incríveis experiências na busca incessante do êxtase e do significado de sua sombria imortalidade.
O vampiro Lestat é o segundo livro das crônicas vampirescas de Anne Rice. No primeiro volume, o best-seller Entrevista com o vampiro, Lestat é retratado como vilão pelo conturbado vampiro Louis. Neste romance, narrado em primeira pessoa, Lestat dá a sua versão dos fatos relatados na célebre entrevista, e conta sua fascinante história, desde que era um simples mortal no interior da França pré-revolucionária.
Para escapar da rotina da vida no campo, o jovem Lestat de Lioncourt, seduzido pela fulgurante Paris do século XVIII, abandona sua família e segue com uma trupe de atores para trabalhar no teatro. Em Paris, seu talento chama a atenção de Magnus, um vampiro secular que está decidido a dar fim à própria existência, e para isso transforma Lestat em vampiro, legando a ele sua fortuna e a missão de encontrar as origens de sua espécie.
Em sua busca, Lestat desvela a fantástica mitologia vampiresca que remonta ao Antigo Egito e, aos poucos, toma conhecimento de quem é quem na galeria de imortais que habitam os subterrâneos do mundo. Suas aventuras através dos tempos desembocam no século XX, quando o vampiro se torna um ídolo do rock, com uma verdadeira legião de fãs e clipes na MTV. Além de se integrar ao mundo dos vivos, com sua música Lestat pretende acordar vampiros ancestrais para tentar esclarecer os enigmas de sua misteriosa forma de existência.
Com essa extravagância, no entanto, Lestat acaba quebrando o código de silêncio dos vampiros e provocando a ira de criaturas ainda mais poderosas do que ele. Assim, perseguido pelos imortais e pelos mortais que percebem sua natureza, Lestat percorre o mundo, experimentando os pesares, mas também todos os prazeres que a condição de vampiro pode lhe proporcionar.


Anne Rice

O VAMPIRO LESTAT


Segundo volume das crônicas vampirescas


Tradução de REINALDO GUARANY

Este livro é dedicado com amor a Stan Rice,
Karen O'Brien e
Allen Daviau



Centro da cidade, sábado à noite, no século XX
1984

Sou o vampiro Lestat. Sou imortal. Mais ou menos. A luz do sol, o calor constante de um fogo intenso — essas coisas poderiam destruir-me. Mas, por outro lado, talvez não.
Tenho um metro e oitenta de altura, o que causava forte impressão nos idos de 1780 quando eu era um jovem mortal. Agora, não é nada de mais. Tenho cabelos louros e cheios que quase chegam aos ombros, mais para ondulados, que parecem brancos sob luz fluorescente. Meus olhos são de cor cinza, mas absorvem facilmente as cores azul ou violeta das superfícies a seu redor. E tenho um nariz bem pequeno e estreito, uma boca bem desenhada, só que um pouco grande demais para meu rosto. Pode parecer muito cruel ou extremamente generosa a minha boca. Mas sempre parece sensual. Emoções e propósitos estão sempre refletidos em toda minha expressão. Tenho um rosto que está sempre animado.
Minha natureza de vampiro revela-se na pele muito branca e reflexiva ao extremo, que precisa de pó-de-arroz para câmeras de qualquer tipo.
E se estou com grande necessidade de sangue, pareço um perfeito horror — pele murcha, veias que parecem cordas sobre os contornos de meus ossos. Mas não deixo isso acontecer agora. E a única indicação consistente de que não sou humano são minhas unhas. É a mesma coisa com todos os vampiros. Nossas unhas parecem vidro. E algumas pessoas notam isso quando não notam alguma outra coisa.
Neste exato momento sou o que a América chama de superestrela do rock. Meu primeiro álbum vendeu quatro milhões de cópias. Estou indo para San Francisco para a primeira apresentação de uma turnê de concertos por todo o país, que levará minha banda de costa a costa. A MTV, o canal de televisão a cabo que transmite música de rock, vem exibindo meus videoclipes noite e dia há duas semanas. Também estão sendo exibidos na Inglaterra, no programa Top of the Pops, na Europa Continental e provavelmente em certas regiões da Ásia e do Japão. Fitas de vídeo de toda a série de clipes estão sendo vendidas no mundo inteiro.
Também sou o autor de uma autobiografia que foi publicada na semana passada.
No que diz respeito ao meu inglês — a língua que uso em minha autobiografia —, comecei a aprendê-lo com os tripulantes da barca que descia o Mississipi até Nova Orleans, há cerca de duzentos anos. Depois disso, aprendi mais com os escritores de língua inglesa — li quase todos, de Shakespeare, Mark Twain, a H. Rider Haggard, enquanto as décadas passavam. Recebi a infusão final das histórias de detetive da revista Black Mask, do começo do século XX. As aventuras de Sam Spade, de Dashiell Hammett, na Black Mask, foram as últimas histórias que li antes de, literal e figuradamente, levar uma vida subterrânea.
Isto foi em Nova Orleans, em 1929.
Quando escrevo, me perco num vocabulário que me era natural no século XVIII, frases elaboradas pelos autores que li. Mas, apesar do sotaque francês, na verdade meu discurso é do barqueiro com o detetive Sam Spade. Assim, espero que sejam tolerantes comigo quando meu estilo parecer inconsistente. Quando, às vezes, ele estilhaçar a atmosfera de uma cena do século XVIII.
Reapareci no século XX, no ano passado.
Foram duas coisas que me despertaram.
Primeira — as informações que vinha recebendo de vozes amplificadas, que começaram sua cacofonia no ar por volta da época em que me recolhi para dormir.
Refiro-me aqui, é claro, às vozes dos rádios, das vitrolas e, mais tarde, dos aparelhos de tevê. Eu ouvia os rádios dos carros que passavam pelas ruas do velho Garden District, próximo ao local onde jazia. Ouvia o som das vitrolas e tevês das casas em torno da minha.
Pois bem, quando um vampiro leva uma vida subterrânea, como chamamos — quando pára de beber sangue e apenas fica deitado na terra — em pouco tempo torna-se fraco demais para ressuscitar e segue-se um estado de sonho.
Nesse estado, eu absorvia as vozes de maneira lenta, cercando-as com minhas próprias imagens que criava, como um mortal faz ao dormir. Mas, em algum momento dos últimos cinqüenta e cinco anos, comecei a me “lembrar” do que estava ouvindo, a acompanhar os programas de entretenimento, a ouvir os noticiários, as letras e os ritmos das canções populares.
E, de maneira muito gradual, comecei a compreender a dimensão das mudanças que o mundo havia sofrido. Comecei a prestar atenção em certas informações específicas sobre guerras ou intervenções, certas novas maneiras de falar.
Então, desenvolveu-se em mim uma consciência de mim mesmo. Percebi que não estava mais sonhando. Estava pensando naquilo que ouvia. Estava bem acordado. Jazia deitado na terra e ansiava por sangue vivificante. Comecei a acreditar que talvez todas as velhas feridas que havia sofrido estivessem curadas agora. Talvez minha força tivesse voltado. Talvez minha força tivesse, na verdade, aumentado como teria ocorrido com o tempo se eu não houvesse sido ferido. Eu desejava descobrir.
Comecei a pensar incessantemente em beber sangue humano.
A segunda coisa que me trouxe de volta — a decisiva, de fato — foi a súbita presença perto de mim de uma banda de jovens cantores de rock que se autodenominavam Noite de Satã.
Eles mudaram-se para uma casa na rua Seis — a menos de um quarteirão de onde eu estava dormindo calmamente sob minha própria casa na Prytania, próximo ao cemitério Lafayette — e começaram a ensaiar sua música de rock no sótão em algum momento de 1984.
Eu podia ouvir o lamento de suas guitarras elétricas, seu canto frenético. Era tão bom quanto as músicas que eu ouvia no rádio e nos aparelhos de som estereofônico e mais melodiosas do que a maioria. Apesar da batida da bateria, havia um romantismo na música. O piano elétrico soava como um cravo.
Eu captava imagens dos pensamentos dos músicos que me diziam como era a aparência deles, o que viam quando olhavam um para o outro e para os espelhos. Eram esguios, fortes e todos jovens mortais adoráveis — enganadoramente andróginos e até um pouco selvagens em suas roupas e movimentos — dois machos e uma fêmea.
Quando estavam tocando, abafavam a maioria das outras vozes amplificadas ao meu redor. Mas isto era ótimo.
Eu queria levantar-me e me juntar à banda de rock chamada Noite de Satã. Queria cantar e dançar.
Mas não posso dizer se, a princípio, havia alguma grande reflexão por trás de meu desejo. Foi mais um impulso dominante, forte o bastante para me fazer erguer da terra.
Estava encantado com o mundo da música de rock — o modo como os cantores podiam gritar sobre o bem e o mal, se proclamar anjos ou demônios, enquanto os mortais se levantavam para aplaudir. Às vezes, pareciam a pura personificação da loucura. E, no entanto, era de tecnologia fascinante a complexidade de sua apresentação. Era selvagem e cerebral, de uma maneira que não creio que o mundo tivesse algum dia visto em épocas passadas.
Claro, era metafórico o delírio. Nenhum deles acreditava em anjos ou demônios, por melhor que assumissem seus papéis. E os atores da velha comédia italiana tinham sido igualmente chocantes, inventivos, obscuros.
No entanto, eram inteiramente novos os extremos a que chegavam, a brutalidade e a provocação — e a maneira como eram aceitos pelo mundo, dos mais ricos aos mais pobres.
Havia também algo de vampiresco na música de rock. Ela devia soar sobrenatural mesmo para aqueles que não acreditam no sobrenatural. Refiro-me ao modo como a eletricidade podia sustentar uma única nota para sempre; ao modo como harmonias podiam ser sobrepostas a outras até você sentir-se dissolvendo-se no som. De tão terrivelmente eloqüente que era essa música. O mundo não tinha visto nada semelhante antes.
Contudo, eu desejava aproximar-me dela. Queria tocá-la. Talvez tornar famosa a pequena e desconhecida banda Noite de Satã. Eu estava pronto para aparecer.
Demorei uma semana para levantar, mais ou menos. Alimentei-me com o sangue fresco de pequenos animais que vivem debaixo da terra, quando podia pegá-los. Depois, comecei a cavar em direção à superfície, onde podia me valer dos ratos. A partir dali não foi muito difícil pegar felinos e, por fim, a inevitável vítima humana, embora tivesse que esperar um longo tempo pelo tipo particular que desejava — um homem que houvesse matado outros mortais e não demonstrasse remorsos.
Um deles chegou num dado momento, caminhando bem junto à cerca, um jovem macho com barba grisalha que havia matado um outro num lugar remoto do outro lado do mundo. Era um verdadeiro assassino. E, ah, aquele primeiro gosto de luta e sangue humanos!
Roubar roupas nas casas vizinhas, pegar um pouco do ouro e das jóias que eu havia escondido no cemitério Lafayette, isso não foi problema.
Claro que ficava assustado de vez em quando. O cheiro dos produtos químicos e de gasolina me dava náuseas. O ruído dos aparelhos de ar-condicionado e o ronco dos aviões a jato no alto feriam meus ouvidos.
Mas, depois da terceira noite na superfície, eu estava rugindo por Nova Orleans numa enorme motocicleta Harley-Davidson preta, fazendo um bocado de barulho. Estava procurando mais assassinos para me alimentar. Usava magníficas roupas de couro preto que havia tirado de minhas vítimas, e tinha no bolso um pequeno walkman Sony estéreo, que abastecia minha cabeça com a Arte da Fuga, de Bach, através de minúsculos fones de ouvido, enquanto eu disparava pelas ruas.
Eu era o vampiro Lestat outra vez. Estava de novo em ação. Nova Orleans era mais uma vez o meu campo de caça.
Quanto à minha força, era três vezes maior do que antes. Eu podia pular da rua até o alto de um prédio de quatro andares. Podia arrancar grades de ferro de janelas. Podia partir ao meio uma moeda de cobre. Podia ouvir vozes e pensamentos humanos, quando queria, a quarteirões de distância.
No final da primeira semana, consegui uma bonita advogada num arranha-céu de vidro e aço, no centro da cidade, que me ajudou a obter uma certidão de nascimento legal, um cartão do seguro social e uma carteira de motorista. Uma boa parcela de minha velha riqueza estava a caminho de Nova Orleans, procedente de contas numeradas nos imortais Banco de Londres e Banco Rothschild.
Mas, mais importante, eu estava nadando em descobertas. Sabia que tudo que as vozes amplificadas tinham me dito sobre o século XX era verdade.
Enquanto perambulava pelas ruas de Nova Orleans em 1984, pude observar o seguinte:
O sombrio e melancólico mundo industrial no qual eu adormecera havia desaparecido enfim, e o velho puritanismo e conformismo burguês haviam perdido sua influência na mentalidade americana.
As pessoas eram, de novo, aventurosas e sensuais da maneira como haviam sido nos velhos tempos, antes das grandes revoluções da classe média no final do século XVIII. Elas até se pareciam como naqueles tempos.
Os homens não usavam mais o uniforme de Sam Spade, de camisa, gravata, terno cinza e chapéu cinza. Mais uma vez, se trajavam com veludo e seda, com cores brilhantes, se quisessem. Não precisavam mais cortar o cabelo como soldados romanos; usavam no comprimento que desejassem.
E as mulheres — ah, as mulheres eram maravilhosas, despidas no calor da primavera como se estivessem no Egito dos faraós, com saias muito curtas e vestidos que pareciam túnicas, ou usando calças de homem e camisas coladas na pele de seus corpos curvilíneos, se quisessem. Pintavam-se e se adornavam com ouro e prata, mesmo para ir até a mercearia. Ou saíam de cara limpa e sem enfeites — não tinha importância. Ondulavam os cabelos como Maria Antonieta, ou cortavam curto ou deixavam que fossem soprados pelo vento, livremente.
Pela primeira vez na história, talvez, elas eram tão fortes e interessantes quanto os homens.
E eram essas as pessoas comuns da América. Não apenas os ricos, que sempre possuíram uma certa androginia, uma certa joie de vivre que, no passado, os revolucionários da classe média chamavam de decadência.
A velha sensualidade aristocrática pertencia agora a todos. Estava ligada às promessas da revolução da classe média, e todas as pessoas tinham direito ao amor, ao luxo e às coisas agradáveis.
As lojas de departamentos tornaram-se locais de um encanto quase oriental — mercadorias expostas entre macios tapetes coloridos, músicas misteriosas, luz âmbar. Nas drogarias, abertas vinte e quatro horas, frascos de xampu violeta e verde brilhavam como pedras preciosas nas cintilantes prateleiras de vidro. Garçonetes iam para o trabalho dirigindo luzidios automóveis com estofamento de couro. Trabalhadores das docas iam para casa à noite para nadar nas piscinas térmicas de seus quintais. Faxineiras e bombeiros usavam, no fim do dia, roupas manufaturadas de corte requintado.
De fato, a pobreza e a sujeira, que eram comuns nas grandes cidades do mundo desde tempos imemoriais, haviam sido removidas quase por completo.
Não se viam imigrantes caindo mortos de fome pelos becos. Não havia barracos onde dormiam de oito a dez pessoas no mesmo quarto. Ninguém jogava lixo nas sarjetas. O número de mendigos, aleijados, órfãos, doentes sem cura havia diminuído tanto a ponto de não constituir, em absoluto, presença nas ruas imaculadas.
Até mesmo os bêbados e loucos que dormiam nos bancos das praças e nas estações de ônibus tinham o que comer com regularidade, e até mesmo rádios para ouvir e roupas limpas.
Mas isto era apenas a superfície. O que me deixou estarrecido foram as mudanças mais profundas que impulsionavam essa impressionante corrente.
Por exemplo, algo totalmente mágico acontecera com o tempo.
O velho não estava mais sendo substituído, de forma rotineira, pelo novo. Pelo contrário, o inglês falado à minha volta era o mesmo do século XIX. Até mesmo a velha gíria (“barra limpa”, “se deu mal” ou “é isso aí”) ainda era “atual”. No entanto, novas e fascinantes frases, como “fizeram sua cabeça”, “Freud explica” e “não me ligo nessa” estavam nos lábios de todo mundo.
No mundo das artes e do entretenimento todos os séculos anteriores estavam sendo “reciclados”. Músicos executavam Mozart tão bem quanto o jazz e o rock; as pessoas iam ver Shakespeare numa noite e, na outra, um novo filme francês.
Em megalojas iluminadas por luz fluorescente podiam-se comprar fitas com madrigais medievais e tocá-las no som do carro, enquanto se rodava a cento e quarenta quilômetros por hora nas auto-estradas. Nas livrarias, a poesia renascentista era vendida lado a lado com os romances de Dickens ou Ernest Hemingway. Os manuais sobre sexo ficavam nas mesmas mesas com O livro dos mortos egípcio.
Às vezes, a riqueza e limpeza de tudo a meu redor tornavam-se uma espécie de alucinação. Eu pensava estar enlouquecendo.
Pelas vitrines das lojas, eu olhava estupefato para computadores e telefones, de forma e cor tão puras quanto as mais exóticas conchas feitas pela natureza. Gigantescas limusines prateadas navegavam pelas estreitas ruas do bairro francês, como indestrutíveis monstros marinhos. Cintilantes torres de escritórios trespassavam o céu noturno, como obeliscos egípcios acima dos alquebrados prédios de tijolos da velha rua do Canal. Incontáveis programas de tevê jorravam seu fluxo incessante de imagens em cada quarto refrigerado de hotel.
Mas não se tratava de uma sucessão de alucinações. Este século herdara a terra em todos os sentidos.
E uma parte importante deste milagre imprevisto era a curiosa inocência daquelas pessoas bem no meio de toda essa liberdade e riqueza. O deus cristão estava tão morto quanto estivera no século XVIII. E nenhuma nova religião mitológica surgira para substituir a antiga.
Pelo contrário, as pessoas mais simples desta época se orientavam por uma vigorosa moralidade secular tão forte quanto qualquer moralidade religiosa que eu já conhecera. Os intelectuais carregavam as bandeiras. Mas pessoas inteiramente comuns em toda a América se preocupavam apaixonadamente com a “paz”, os “pobres” e “o planeta”, como se estivessem possuídas por um zelo místico.
Tencionavam acabar com a fome neste século. Erradicariam as doenças a qualquer preço. Questionavam ferozmente a pena de morte e o aborto. E combatiam as ameaças da “poluição ambiental” e da “guerra de holocausto”, com tanta violência quanto em épocas passadas combateram a bruxaria e a heresia.
Quanto à sexualidade, já não era mais uma questão de superstição e medo. Ela estava sendo despojada dos últimos traços de religiosidade. Era por isso que as pessoas andavam meio nuas. Era por isso que se beijavam e se abraçavam nas ruas. Agora conversavam sobre ética, responsabilidade e beleza do corpo. A procriação e as doenças venéreas estavam sob controle.
Ah, o século XX. Ah, o giro da grande roda.
Superara os sonhos mais desvairados este futuro. Transformara em tolos os profetas sinistros de épocas passadas.
Eu pensava muito nessa inocente moralidade secular, nesse otimismo. Neste mundo brilhantemente iluminado onde o valor da vida humana era maior do que havia sido antes.
Na penumbra âmbar de um amplo quarto de hotel, eu acompanhava na tela diante de mim um filme de guerra muito bem realizado, intitulado Apocalypse Now. Era uma sinfonia de som e cores que cantava a antiqüíssima batalha do mundo ocidental contra as forças do mal. “Você deve tornar-se amigo do horror e do terror moral”, diz o comandante no jardim selvagem do Camboja, a quem o homem ocidental responde como sempre respondeu: “Não.”
Não. O horror e o terror moral jamais podem ser absolvidos. Não têm nenhum valor real. O puro mal não tem lugar.
E isto significa, creio, que eu não tenho lugar.
A não ser, talvez, na arte que repudia o mal — nas histórias em quadrinhos de vampiros, nos romances de terror, nos velhos contos góticos — ou nas ensurdecedoras canções de estrelas do rock que representam no palco as batalhas contra o mal que cada mortal trava consigo mesmo.
Era o bastante para fazer um monstro do Velho Mundo voltar para debaixo da terra, essa irrelevância atordoante do poderoso desígnio das coisas, suficiente para fazê-lo deitar-se e chorar. Ou suficiente para fazê-lo tornar-se um cantor de rock, quando se pensa no assunto...
Mas onde estavam os outros monstros do Velho Mundo? Eu me perguntava. Como outros vampiros existiam num mundo em que cada morte era registrada em gigantescos computadores eletrônicos, e os corpos eram levados para criptas refrigeradas? Provavelmente escondendo-se nas sombras qual insetos repugnantes, como sempre fizeram, não importa quanta sabedoria havia no que diziam ou quantos seguidores conseguissem conquistar.
Bem, quando eu erguesse minha voz com a pequena banda chamada Noite de Satã, em pouco tempo traria todos para a luz.
Eu prosseguia com minha educação. Falava com mortais em pontos de ônibus, postos de gasolina e em bares elegantes. Lia livros. Enfeitava-me com as vistosas peles das lojas da moda. Usava camisas brancas de gola rolê e jaquetas tipo safári cáqui franzidas, ou extravagantes blazers de veludo cinza com lenços de cashmere no pescoço. Usava pó-de-arroz no rosto de modo que pudesse “passar” sob as luzes químicas dos supermercados abertos a noite inteira, das espeluncas que vendiam hambúrgueres, dos locais públicos de diversão chamados de boates.
Eu estava aprendendo. Estava apaixonado.
E o único problema que tinha era o fato de serem escassos os assassinos para me alimentar. Nesse mundo brilhante de inocência e abundância, de bondade e alegria e estômagos cheios, quase haviam desaparecido os ladrões degoladores do passado e seus perigosos antros na zona portuária.
E, assim, tive que trabalhar para viver. Mas eu sempre fora um caçador. Gostava dos salões de sinuca sombrios e enfumaçados com uma única lâmpada brilhando sobre o feltro verde, enquanto ex-prisioneiros tatuados se reuniam em volta, tanto quanto gostava das cintilantes boates revestidas de cetim, dos grandes hotéis de concreto. E o tempo todo estava aprendendo mais sobre meus assassinos — os traficantes de drogas, os cafetões, os criminosos que se juntavam às gangues de motoqueiros.
E, mais do que nunca, eu estava decidido a não beber sangue inocente.
Enfim era hora de visitar meus antigos vizinhos, a banda de rock chamada Noite de Satã.
Às seis e meia de uma noite quente e abafada de sábado, toquei a campainha da porta do estúdio de música do sótão. Todos os lindos e jovens mortais estavam por lá, com suas coloridas camisas de seda e jeans bem apertados, fumando cigarros de haxixe e se queixando da má-sorte para conseguir apresentações no sul do país.
Pareciam anjos bíblicos, com seus cabelos longos e desgrenhados e movimentos felinos; suas jóias eram no estilo egípcio. Até para ensaiar, pintavam o rosto e os olhos.
Fiquei cheio de excitação e amor só de olhar para eles, Alex e Larry e a suculenta pequena Biscoito Doce.
E, num extraordinário momento em que o mundo pareceu ficar parado sob meus pés, eu lhes disse o que eu era. Nada de novo para eles, a palavra “vampiro”. Na galáxia em que brilhavam, milhares de outros cantores haviam usado os caninos artificiais e a capa preta.
E, no entanto, me senti tão estranho ao falar isto em voz alta para mortais, a verdade proibida. Jamais em duzentos anos eu dissera isto para alguém que não houvesse sido marcado para se tornar um de nós. Nem mesmo para minhas vítimas confidenciei isto antes que seus olhos se fechassem.
E agora eu o dizia, clara e distintamente, para aquelas belas e jovens criaturas. Eu lhes disse que queria cantar com eles, que, se confiassem em mim, todos seríamos ricos e famosos. Que, numa sobrenatural e implacável onda de ambição, eu os tiraria daqueles quartos e os levaria para o grande mundo.
Seus olhos estavam embaçados quando olharam para mim. E o pequeno aposento de estuque e adobe do século XX vibrou com suas gargalhadas de prazer.
Eu era paciente. Por que não haveria de ser? Sabia que era um demônio que podia imitar quase todo som ou movimento humanos. Mas como poderia esperar que eles compreendessem? Fui até o piano elétrico e comecei a tocar e a cantar.
Comecei imitando as canções de rock e depois velhas melodias e letras vieram à minha mente — canções francesas enterradas no fundo de minha alma, mas jamais esquecidas — e as envolvi em ritmos brutais, vendo diante de mim um pequeno teatro parisiense com diminuta platéia, de séculos atrás. Uma perigosa paixão brotou em mim. Ameaçou meu equilíbrio. Perigoso que isto acontecesse tão cedo. No entanto, continuei cantando, martelando as teclas lisas e brancas do piano elétrico, e alguma coisa se abriu em minha alma. Não importava que aquelas ternas criaturas mortais reunidas à minha volta jamais soubessem.
Era suficiente que estivessem jubilosos, que adorassem a música estranha e desconjuntada, que estivessem gritando, que vissem prosperidade em seu futuro, o ímpeto que lhes faltara antes. Ligaram os gravadores e começamos a cantar e tocar juntos, a improvisar, como eles diziam. O estúdio estava inundado com o cheiro de seu sangue e nossas canções ensurdecedoras.
Mas então sobreveio um choque que eu jamais havia previsto em meus sonhos mais estranhos — algo tão extraordinário quanto havia sido minha pequena revelação àquelas criaturas. De fato, foi tão avassalador que poderia ter-me impelido para fora de seu mundo e de volta para debaixo da terra.
Não estou dizendo que teria ido de novo para o sono profundo. Mas eu poderia ter-me afastado do Noite de Satã e ficado alguns anos vagando sem destino, atordoado e tentando recuperar a razão.
Os rapazes — Alex, o jovem baterista suave e delicado, e Larry, seu irmão mais alto, de cabelos louros — reconheceram meu nome quando lhes disse que era Lestat.
Não apenas o reconheceram, como o relacionaram a uma série de informações a meu respeito que haviam lido em um livro.
De fato, acharam maravilhoso o fato de eu não estar fingindo ser um vampiro qualquer. Ou o conde Drácula. Todo mundo estava cheio do conde Drácula. Acharam maravilhoso eu estar querendo ser o vampiro Lestat.
— Querendo ser o vampiro Lestat? — perguntei.
Eles riram do modo como carreguei no sotaque francês.
Olhei para eles durante um longo momento, tentando sondar seus pensamentos. Claro que eu não esperava que acreditassem que eu fosse um vampiro de verdade. Mas terem lido sobre um vampiro, personagem de ficção, com um nome tão incomum quanto o meu. Como explicar isto?
Mas eu estava perdendo minha autoconfiança. E quando perco a confiança, meus poderes se esgotam. O pequeno quarto parecia estar ficando menor. E havia algo de repelente e ameaçador nos instrumentos, nas antenas, nos fios.
— Mostrem-me o livro — eu disse.
Trouxeram do outro quarto um pequeno “romance” em papel inferior, caindo aos pedaços. A encadernação se soltara, a capa estava rasgada e as folhas estavam presas por um elástico.
Tive uma espécie de calafrio sobrenatural quando vi a capa. Entrevista com o vampiro. Algo relacionado a um jovem mortal que se comunicava com um morto-vivo.
Com a permissão deles, fui para o outro aposento, estiquei-me na cama deles e comecei a ler. Quando cheguei na metade, levei o livro comigo e saí da casa. Fiquei parado imóvel debaixo da luz de um poste na rua com o livro, até terminá-lo. Depois coloquei-o com cuidado no bolso interno do casaco.
Não voltei a me encontrar com a banda durante várias noites.
Durante grande parte desse tempo, fiquei perambulando de novo, fazendo estardalhaço pela noite em minha moto Harley-Davidson, com as Variações Goldberg, de Bach, tocando a todo volume. E me perguntava: Lestat, o que você quer fazer agora?
E, no resto do tempo, estudava com ânimo redobrado. Lia enciclopédias e livros da historiado rock, as biografias de seus astros. Ouvia os álbuns e refletia em silêncio vendo videoteipes dos concertos.
E quando a noite estava tranqüila e serena, ouvia as vozes de Entrevista com o vampiro cantando para mim, como se viessem do túmulo. Li o livro várias e várias vezes. E então, num momento de profunda indignação, rasguei-o em pedaços.
Por fim tomei uma decisão.
Encontrei-me com minha jovem advogada, Christine, em seu escritório escuro num arranha-céu, iluminado apenas pelas luzes da cidade. Ela parecia encantadora contra as janelas de vidro, os prédios sombrios mais adiante formando um terreno deserto e primitivo no qual ardiam milhares de tochas.
— Já não basta mais que minha pequena banda de rock seja bem-sucedida — eu lhe disse. — Precisamos criar uma fama que leve meu nome e minha voz às partes mais remotas do mundo.
De forma tranqüila e inteligente, como os advogados estão acostumados a fazer, ela me aconselhou a não arriscar minha fortuna. No entanto, à medida que reafirmava minha determinação maníaca, pude sentir que a estava seduzindo, que dissolvia pouco a pouco sua noção de bom senso.
— Os melhores diretores franceses de vídeos de rock — eu disse. — Você deve encontrá-los em Nova York e Los Angeles. Tem bastante dinheiro para isso. E aqui, com certeza, você pode arranjar um estúdio em que faremos nosso trabalho. Os jovens produtores de discos que mixarão o som depois... também deve contratar o melhor. Não importa o quanto vamos gastar nessa aventura. O importante é que seja orquestrada, que façamos nosso trabalho em segredo até o momento da revelação, quando nossos álbuns e nossos filmes serão divulgados com o livro que tenciono escrever.
No final, sua cabeça estava nadando com sonhos de riqueza e poder. Sua caneta disparava enquanto ela tomava notas.
E o que eu sonhava enquanto falava com ela? Sonhava com uma rebelião sem precedentes, com um grande e espantoso desafio a todos os da minha espécie no mundo inteiro.
— Esses vídeos de rock — eu disse. — Você deve encontrar diretores que compreendam minha visão. Os filmes devem formar uma seqüência. Precisam contar a história que está no livro que quero criar. E, as canções, muitas delas já escrevi. Você deve conseguir os melhores instrumentos... sintetizadores, os mais sofisticados sistemas de som, guitarras elétricas, violinos. Podemos tratar de outros detalhes mais tarde. A confecção das roupas de vampiro, o método de apresentação nas estações de televisão, a administração de nossa primeira aparição pública em San Francisco... tudo isso veremos em momento oportuno. O que é importante agora é você dar os telefonemas, conseguir as informações de que precisa para começar.
Só voltei a rever o Noite de Satã depois que os primeiros contratos foram feitos e assinados. Datas foram marcadas, estúdios alugados, acordos firmados.
Depois, Christine veio comigo e compramos uma grande limusine para meus jovens e queridos roqueiros, Larry, Alex e Biscoito Doce. Tínhamos emocionantes somas em dinheiro, tínhamos papéis para assinar.
Sob os sonolentos carvalhos da tranqüila rua de Garden District, eu servi o champanhe em cintilantes taças de cristal para eles:
— A O Vampiro Lestat — todos cantamos ao luar. Seria o novo nome da banda e do livro que eu escreveria. Biscoito Doce jogou seus braços pequenos e suculentos em volta de mim. Beijamo-nos ternamente em meio às risadas e ao cheiro forte de vinho. Ah, o cheiro de sangue inocente!
E, quando eles foram embora naquele imenso carro forrado de veludo, caminhei sozinho pela noite refrescante em direção à St. Charles Avenue, e pensei no perigo que eles tinham pela frente, meus pobres amigos mortais.
Não partiria de mim, naturalmente. Mas, depois que terminasse o longo período de segredo, eles estariam inocentes e ignorantes sob as luzes da ribalta internacional, com seu sinistro e temerário astro. Bem, eu os cercaria de guarda-costas e fãs para cada propósito concebível. Eu os protegeria, da melhor maneira possível, dos outros imortais. E se os imortais fossem como costumavam ser nos velhos tempos, jamais se arriscariam a travar uma luta vulgar contra uma força humana como essa.
Enquanto eu subia a movimentada avenida, cobri meus olhos com óculos escuros espelhados. Peguei o velho e frágil bonde St. Charles para o centro da cidade.
E, através da multidão que se movimentava no começo da noite, caminhei até a elegante livraria de dois andares chamada Ville Books, e lá fiquei olhando para uma pequena edição em brochura de Entrevista com o vampiro na estante.
Fiquei imaginando quantos de nossa espécie saberiam do livro. No momento, pouco importava se os mortais o consideravam uma obra de ficção. E quanto aos outros vampiros? Porque se havia uma lei que os vampiros têm como sagrada é a de jamais contar aos mortais sobre nós.
Jamais revele nossos “segredos” aos humanos, a menos que você tencione legar-lhes o tenebroso dom de nossos poderes. Jamais cite o nome de outros imortais. Jamais revele onde se escondem.
Meu amado Louis, o narrador de Entrevista com o vampiro, havia feito tudo isso. Fora muito além de minha pequena revelação aos cantores de rock. Contara para centenas de milhares de leitores. Só faltou desenhar um mapa para eles e colocar um X em cada local de Nova Orleans onde eu me deitava, embora não estivesse claro o que ele realmente sabia sobre isto e quais eram suas intenções.
De qualquer modo, pelo que havia feito, outros o perseguiriam até encontrá-lo, com certeza. E há maneiras bem simples de se destruir vampiros, sobretudo hoje. Se ainda fosse vivo, seria um proscrito e viveria sob constante ameaça pelos de nossa espécie, coisa que nenhum mortal jamais poderia fazer.
Mais uma razão para fazer com que o livro e a banda chamados O Vampiro Lestat atingissem a fama o mais rápido possível. Eu tinha que encontrar Louis. Precisava conversar com ele. De fato, após ler seu relato das coisas, eu sentia suas dores, sofria por suas ilusões românticas, e até por sua desonestidade. Ansiava também por encontrar sua malícia cavalheiresca, sua presença física e o tom enganadoramente suave de sua voz.
Claro que o odiava pelas mentiras que contara sobre mim. Mas o amor era muito maior que o ódio. Ele havia compartilhado comigo os anos sombrios e românticos do século XIX, fora meu companheiro como nenhum outro mortal já havia sido.
E eu ansiava por escrever minha história para ele, não como uma resposta a sua maliciosa Entrevista com o vampiro, mas sim para contar todas as coisas que vi e aprendi antes de encontrá-lo, a história que não pude contar-lhe antes.
Velhas regras já não me importavam mais, tampouco.
Eu queria romper cada uma delas. E desejava que minha banda e meu livro atraíssem não apenas Louis, mas também todos os outros demônios que eu já conhecera e amara. Desejava encontrar aqueles que perdi, despertar aqueles que dormiam como eu dormira.
Os noviços e os antigos, os belos e os perversos, os loucos e os impiedosos — todos viriam atrás de mim quando vissem aqueles videoclipes e ouvissem os discos, quando vissem o livro nas vitrines das livrarias, e saberiam exatamente onde me encontrar. Eu seria Lestat, a superestrela do rock. Venham a San Francisco para minha primeira apresentação ao vivo. Eu estarei lá.
Mas havia uma outra razão para toda aquela aventura — uma razão ainda mais perigosa, deliciosa e louca.
E eu sabia que Louis entenderia. Ela deveria estar por trás de sua entrevista, de suas confissões. Eu queria que os mortais soubessem de nós. Queria proclamar ao mundo da mesma maneira como havia falado para Alex, Larry e Biscoito Doce, e para minha doce advogada, Christine.
Pouco importava se não acreditassem. Não importava que recusassem que fosse arte. O fato é que, após dois séculos de ocultação, eu me tornava visível para os mortais. Dizia meu nome em voz alta. Revelava minha natureza. Eu estava presente!
Mas, de novo, eu estava indo mais longe que Louis. Sua história, com todas as suas peculiaridades, passara por ficção. No mundo dos mortais, isto era tão seguro quanto os quadros do velho Teatro dos Vampiros em Paris, onde os demônios fingiam ser atores que fingiam ser demônios num palco remoto e iluminado a gás.
Eu ficaria sob as luzes brilhantes das câmeras, estenderia a mão e tocaria com meus dedos gelados milhares de mãos quentes e ávidas. Se fosse possível, lhes daria um susto brutal, as seduziria e as conduziria à verdade, se pudesse.
E suponhamos — apenas suponhamos — que quando os cadáveres começassem a ressurgir em números cada vez maiores, que quando aqueles mais próximos de mim começassem a dar atenção às suas inevitáveis suspeitas — apenas suponhamos que a arte deixe de ser arte e se torne realidade!
Quero dizer é que se os mortais realmente acreditassem, compreendessem de fato que este mundo ainda abrigava o demônio do Velho Mundo, o vampiro — oh, que grande e gloriosa guerra poderíamos ter então!
Seríamos conhecidos, seríamos caçados e combatidos nestes cintilantes desertos urbanos como nenhum monstro mítico jamais foi combatido pelo homem antes.
Como eu poderia não adorar isto, essa mera fantasia? Não valeria correr por ela o maior dos perigos, sofrer a maior e mais horrível das derrotas? Mesmo no momento da destruição, eu estaria tão vivo como nunca estive.
Mas, para dizer a verdade, eu não pensava que se fosse chegar a esse ponto — quero dizer, que os mortais passassem a acreditar em nós. Os mortais nunca me causaram medo.
Seria uma outra guerra que iria acontecer, aquela em que todos nós combateríamos juntos, ou todos viriam combater-me.
Esta era a verdadeira razão para O Vampiro Lestat. Era o tipo de jogo que eu estava fazendo.
Mas essa outra encantadora possibilidade de revelação e desgraça reais... Bem, isto acrescentava uma boa dose de tempero a tudo!
Saindo pelo deserto melancólico da rua do Canal, voltei subindo as escadas para meus aposentos no antigo hotel do bairro francês. Era calmo e bastante conveniente para mim, descortinando o Vieux Carré sob suas janelas, as pequenas e estreitas ruas de casas no estilo espanhol que eu havia conhecido tanto tempo atrás.
Vi na gigantesca tela do aparelho de tevê a fita do belo filme de Visconti, Morte em Veneza. Um ator disse em um determinado momento que o mal era uma necessidade. Era o alimento dos gênios.
Eu não acreditava nisso. Mas gostaria que fosse verdade. Então, eu poderia ser apenas Lestat, o monstro, não poderia? E sempre fui tão bom sendo monstro! Ah, bem...
Coloquei um disquete novo no computador portátil e comecei a escrever a história de minha vida.

A EDUCAÇÃO INICIAL
E
AVENTURAS DO VAMPIRO LESTAT


PARTE I

A REAPARIÇÃO DE LELIO


1

No inverno em que completei meus vinte e um anos, saí sozinho a cavalo para matar uma alcatéia.
Isto aconteceu nas terras de meu pai, em Auvergne, na França, nas últimas três décadas antes da Revolução Francesa.
Foi o pior inverno de que posso me lembrar, os lobos estavam roubando as ovelhas de nossos camponeses e até invadiam à noite as ruas da aldeia.
Foram anos amargos para mim. Meu pai era o marquês, e eu era o sétimo filho e o mais novo dos três que sobreviveram até a maioridade. Eu não tinha nenhum direito ao título, nem às terras, e nenhuma perspectiva. Mesmo numa família rica teria sido assim para o filho mais novo, mas nossa riqueza se esgotara muito tempo antes. Augustin, meu irmão mais velho, o herdeiro legítimo de tudo que possuíamos, gastara o pequeno dote de sua mulher assim que se casaram.
O castelo de meu pai, suas terras e a aldeia próxima eram todo o meu universo. E eu nascera com um temperamento irrequieto — o sonhador, o rebelde, o inconformado. Eu não ficava ao pé da fogueira para falar de velhas batalhas e dos tempos do Rei Sol. A história não tinha nenhum sentido para mim.
Mas, nesse mundo sombrio e antiquado, eu me tornara um caçador. Trazia o faisão, o cervo e a truta dos arroios da montanha — o que fosse necessário e pudesse ser pego — para alimentar a família. A caça se tornara minha vida nessa época — e uma vida que eu não compartilhava com mais ninguém — e foi muito bom que eu a tivesse escolhido, porque aqueles foram anos em que, de fato, poderíamos ter morrido de fome.
Essa era uma ocupação nobre, claro, caçar nas terras dos ancestrais, e só nós tínhamos o direito de fazê-lo. O mais rico dos burgueses não poderia levantar suas armas em minhas florestas. Mas ele não precisava levantar suas armas. Tinha dinheiro.
Duas vezes em minha vida tentei escapar dessa vida, só consegui voltar com minhas asas quebradas. Mas falarei sobre isso mais tarde.
Neste exato momento estou pensando na neve sobre todas aquelas montanhas e nos lobos que estavam assustando os aldeões e roubando minhas ovelhas. E me lembrando do velho ditado francês daquele tempo, que dizia não haver no mundo um lugar mais distante de Paris do que a província de Auvergne.
Entenda-se que como eu era o senhor e o único que podia montar num cavalo e disparar uma arma, era natural que os aldeões viessem a mim para se queixar dos lobos e esperar que eu os caçasse. Era meu dever.
Eu não tinha o menor medo dos lobos, tampouco. Nunca em minha vida tinha visto ou ouvido falar de um lobo atacando um homem. E, se pudesse, eu os envenenaria, mas a carne era um antigo raro demais para ser assim desperdiçado.
Assim, no alvorecer de uma manhã muito fria de janeiro, eu me armei para matar os lobos um por um. Tinha três pistolas e uma excelente espingarda de pederneira, que levei comigo, junto com meus mosquetões e a espada de meu pai. Mas pouco antes de deixar o castelo, acrescentei a esse pequeno arsenal uma ou duas armas antigas com as quais nunca me preocupei antes.
Nosso castelo era cheio de velhas armaduras. Meus ancestrais haviam combatido em inúmeras guerras nobres desde os tempos das Cruzadas de São Luís. E, penduradas na parede acima de todo esse refugo barulhento, havia um bom número de lanças, achas, manguais e maças.
Foi uma maça bem grande — isto é, um porrete com pontas — que levei comigo naquela manhã, e também um mangual de bom tamanho: uma bola de ferro presa a uma corrente que poderia ser arremessada com imensa força contra um atacante.
Pois bem, lembrem-se de que estávamos no século XVIII, no tempo em que os parisienses de peruca branca andavam na pontinha dos pés com sapatos de cetim e salto alto, cheiravam rapé e esfregavam no nariz lenços de bolso bordados.
E lá estava eu saindo para caçar com botas de couro cru e casaco de pele de gamo, com aquelas armas antigas presas na sela e meus dois maiores mastins ao meu lado com suas coleiras providas de pontas de ferro.
Essa era minha vida. Que também poderia ter sido vivida na Idade Média. E eu conhecia bem os elegantes viajantes que passavam pela aldeia para sentir isto com intensidade. Os nobres da capital chamavam a nós, os senhores do campo, de “pega-lebres”. Claro que se podia escarnecer deles, chamando-os de lacaios do rei e da rainha. Nosso castelo resistira por mil anos e nem mesmo o grande cardeal Richelieu em sua guerra contra nossa gente conseguiu derrubar nossas antigas torres. Mas, como eu disse antes, eu não dava muita atenção à história.
Eu estava infeliz e cheio de raiva enquanto subia a montanha.
Queria uma boa luta com os lobos. Segundo os aldeões, havia cinco deles na alcatéia, e eu tinha minhas armas e dois cães com mandíbulas tão fortes que poderiam partir a espinha de um lobo num instante.
Bem, subi durante uma hora pelas encostas. Depois cheguei num pequeno vale que conhecia tão bem que nenhuma tempestade de neve poderia encobri-lo. E quando comecei a atravessar o amplo campo vazio na direção da árida floresta, ouvi o primeiro uivo.
Em poucos segundos, ouvi um outro uivo, depois outro e agora o coro tinha tanta harmonia que eu não poderia precisar o número de lobos na alcatéia, só que eles tinham me visto e sinalizavam uns para os outros para se agruparem, o que era justamente o que eu esperava que fizessem.
Não creio ter sentido o menor medo então. Mas senti alguma coisa que fez com que se eriçassem os pêlos de meus braços. O campo, em toda sua vastidão, parecia deserto. Preparei minhas armas. Ordenei que meus cães parassem de rosnar e me seguissem, e veio a mim a vaga idéia de que seria melhor sair do campo aberto e ir correndo para a floresta.
Meus cães deram seu forte latido de alarme. Olhei por sobre meu ombro e vi os lobos centenas de metros atrás de mim, correndo como um raio sobre a neve, direto em minha direção. Eram três gigantescos lobos cinzentos, que avançavam em linha.
Pus-me a correr para a floresta.
Parecia que eu faria isso com facilidade antes que os três me alcançassem, mas os lobos são animais de extrema esperteza e, enquanto eu cavalgava a galope para as árvores, vi o resto da alcatéia, cerca de cinco animais adultos, aparecendo à minha frente, à esquerda. Era uma emboscada, e eu jamais poderia chegar à floresta a tempo. E a alcatéia era de oito lobos, não de cinco como os aldeões me contaram.
Mesmo assim não tive juízo bastante para ter medo. Não ponderei sobre o fato óbvio de que aqueles animais estavam famintos, do contrário jamais se aproximariam da aldeia. Havia desaparecido por completo a reserva natural que dedicavam aos homens.
Preparei-me para a batalha. Prendi o mangual em meu cinturão e fiz pontaria com a espingarda. Derrubei um macho grande a alguns metros de mim e tive tempo para recarregar, enquanto meus cães e a alcatéia se atracavam.
Eles não podiam pegar meus cães pelo pescoço por causa das coleiras com pontas. E, nessa primeira escaramuça, meus cães abateram, de imediato, um dos lobos com suas poderosas mandíbulas. Disparei e derrubei um segundo.
Mas a alcatéia havia cercado os cães. Enquanto eu disparava mais uma vez e outra, recarregando o mais rápido que podia e tentando mirar sem atingir os cães, vi o cão menor tombar ao solo com as patas traseiras quebradas. O sangue jorrava na neve; o segundo cão ficou longe da alcatéia enquanto esta tentava devorar o animal moribundo; mas, em dois minutos, a alcatéia dilacerou a barriga do segundo cão e matou-o.
Pois bem, como eu disse, eles eram feras poderosas, os mastins. Eu mesmo os criara e treinara. E cada qual pesava mais de noventa quilos. Sempre cacei com eles e, apesar de falar deles agora como cães, na época eu só os conhecia pelos nomes e, quando os vi morrer, soube pela primeira vez o que havia empreendido e quais poderiam ser as conseqüências.
Mas tudo isso aconteceu em minutos.
Quatro lobos jaziam mortos. Um outro estava mortalmente ferido. Mas sobravam três, um dos quais interrompera seu banquete selvagem com os cães para fixar seus olhos oblíquos em mim.
Disparei a espingarda e errei; disparei o mosquetão e meu cavalo empinou quando o lobo disparou em minha direção.
Como que puxados por cordas, os outros lobos viraram-se, deixando a caça recém-abatida. E, puxando as rédeas com força, fiz meu cavalo correr o quanto quis, direto para a proteção da floresta.
Não olhei para trás nem mesmo quando ouvi o rosnar e as presas estalando. Mas depois senti dentes arranharem meu tornozelo. Saquei o outro mosquetão, virei-me para a esquerda e disparei. Pareceu que o lobo levantou-se nas patas traseiras, mas saiu de minha vista rápido demais e minha égua empinou de novo. Quase caí. Senti suas pernas traseiras cederem debaixo de mim.
Estávamos quase na floresta e saltei da montaria antes que o animal caísse. Estava com outra arma carregada. Girando e firmando-a com ambas as mãos, fiz pontaria certeira no lobo que me acossara e arranquei o alto de seu crânio.
Agora eram dois animais. A égua estava emitindo um relincho surdo e ruidoso que se transformou em um guincho estridente, o pior som que eu já havia escutado de uma coisa viva. Os dois lobos a tinham em seu poder.
Saí em disparada pela neve, sentindo a aspereza do solo rochoso debaixo de mim, e cheguei até as árvores. Se pudesse recarregar, conseguiria abatê-los dali. Mas não havia uma única árvore com galhos baixos o bastante para que eu pudesse segurar.
Saltei tentando segurar o tronco, mas meus pés deslizaram pela casca gelada e eu caí para trás enquanto os lobos se aproximavam. Não havia tempo para carregar a única arma que me restava. Teria de lutar com o mangual e a espada, porque a maça ficara perdida para trás.
Creio que, enquanto me punha de pé, senti que provavelmente iria morrer. Mas nunca me ocorreu desistir. Eu estava enlouquecido, fora de mim. Quase rosnando, encarei os animais e olhei dentro dos olhos do mais próximo de mim.
Abri as pernas para me firmar melhor. Com o mangual na mão esquerda, puxei a espada com a direita. Os lobos pararam. O primeiro, após olhar para trás, baixou a cabeça e deu várias passadas para o lado. O outro ficou esperando como que por algum sinal invisível. O primeiro tornou a olhar para mim, de um jeito sinistramente calmo, e depois mergulhou para a frente.
Comecei a girar o mangual de modo que a bola com pontas girasse em círculos. Podia ouvir minha própria respiração em rosnados, e sei que estava de joelhos dobrados como se fosse saltar para a frente, enquanto mirava o mangual na mandíbula do animal, procurando acertá-lo com toda a minha força e só conseguindo apenas roçá-lo.
O lobo desviou-se com rapidez enquanto o segundo corria em volta de mim em círculos, dançando em minha direção para depois recuar de novo. Ambos davam investidas perto o suficiente para fazer com que eu girasse o mangual e desse golpes com a espada, depois tornavam a se afastar correndo.
Não sei quanto tempo isso durou, mas compreendi a estratégia. Eles tencionavam cansar-me e tinham força para fazê-lo. Tornara-se um jogo para eles.
Eu estava girando, investindo, lutando e quase caía de joelhos. É provável que isso não tenha durado mais que meia hora. Mas não há como se medir um tempo desse.
E, como minhas pernas não agüentavam mais, fiz uma última tentativa arriscada e desesperada. Fiquei imóvel como um tronco, com as armas ao meu lado. E, dessa vez, eles chegaram para o golpe final, da maneira como eu esperava que fizessem.
No último segundo, girei o mangual, senti a bola rebentar o osso, vi a cabeça contrair-se para o alto à direita e, com a espada de lâmina larga, cortei o pescoço do lobo.
O outro lobo estava ao meu lado. Eu senti seus dentes rasgarem meu culote. Num segundo, ele dilaceraria minha perna. Mas golpeei o lado de sua cabeça, causando um ferimento profundo em seu olho. A bola do mangual caiu sobre ele, fazendo com que me soltasse. E, dando um pulo para trás, mais uma vez tive espaço suficiente para a espada e enfiei-a direto no peito do animal até o punho antes de tirá-la de novo.
Era o fim.
A alcatéia estava morta. Eu estava vivo.
E o único som no vale deserto coberto de neve era o da minha própria respiração e o guincho estrondoso de minha égua agonizante, que jazia a alguns metros de mim.
Não sei ao certo se estava conseguindo raciocinar. Não saberia dizer se as coisas que passaram por minha cabeça eram pensamentos. Queria cair na neve, mas mesmo assim estava me afastando dos lobos mortos em direção ao animal que agonizava.
Quando me aproximei, a égua ergueu o pescoço, esforçando-se para levantar-se nas patas dianteiras, e de novo deu um daqueles guinchos terríveis e agudos. O barulho ressoou pelas montanhas. Parecia alcançar o céu. E eu fiquei parado, olhando para ela, olhando fixo para seu corpo escuro e destruído contra a brancura da neve, para seus quadris inertes e as patas dianteiras que se debatiam, as narinas erguidas para o céu, as orelhas esticadas para trás, enquanto os enormes olhos inocentes rolavam nas órbitas quando o grito estrondoso saiu de sua boca. Parecia um inseto meio esmagado no assoalho, mas não era um inseto. Era minha égua que se debatia e sofria. Ela tentou levantar-se de novo.
Tirei a espingarda da sela. Carreguei-a. E enquanto ela sacudia a cabeça, tentando em vão erguer-se mais uma vez com aquele guincho estridente, eu alvejei-a no coração.
Agora ela parecia estar bem. Jazia imóvel e morta, o sangue jorrava dela e o vale estava em silêncio. Eu estava tremendo. Ouvi um som sufocado saindo de dentro de mim, e vi o vômito espalhar-se na neve antes de perceber que era meu. Meu corpo cheirava a lobo e sangue. E quase caí quando tentei andar.
Mas, sem me deter sequer por um momento, caminhei por entre os lobos mortos e fui até aquele que quase me matou, o último, joguei-o sobre os ombros e comecei o trajeto para casa.
É provável que tenha levado duas horas.
Mais uma vez, não sei. Mas o que quer que eu tenha aprendido ou sentido quando lutava contra aqueles lobos permaneceu em minha mente mesmo enquanto eu caminhava. Cada vez que eu tropeçava e caía, algo em mim se endurecia, tornava-se pior.
No momento em que alcancei os portões do castelo, cheguei a pensar que não era Lestat. Era alguma outra pessoa totalmente diferente que entrava cambaleando no grande salão, com aquele lobo nos ombros, o calor da carcaça já bem reduzido agora, sentindo que o súbito brilho do fogo na lareira irritava meus olhos. Eu estava mais do que esgotado.
E embora tenha começado a falar quando vi meus irmãos levantarem-se da mesa e minha mãe dar uma palmadinha em meu pai, que já era cego então e queria saber o que estava acontecendo, não sei o que disse. Sei que minha voz estava muito apática e que eu tinha consciência da simplicidade com que descrevi o que acontecera.
— E aí... e aí... — mais ou menos assim.
Mas meu irmão Augustin me fez voltar a mim de repente. Veio em minha direção, com a luz da lareira por trás dele, e de maneira bem distinta rompeu a monotonia baixa de minhas palavras com suas próprias:
— Seu pequeno bastardo — ele disse com frieza. — Você não matou oito lobos! Seu rosto estava com uma horrível expressão de asco.
Mas o notável foi isso: quase no mesmo momento em que pronunciou essas palavras, compreendeu por alguma razão que havia cometido um erro.
Talvez fosse a expressão de meu rosto. Talvez fosse o murmúrio de indignação de minha mãe ou o fato de meu outro irmão ficar em silêncio absoluto. É provável que tenha sido meu rosto. O que quer que tenha sido, foi quase instantâneo e a expressão mais curiosa de embaraço tomou conta dele.
Ele começou a balbuciar algo sobre como era incrível, que eu quase havia sido morto e que os criados deviam, de imediato, esquentar um pouco de sopa para mim e todo esse tipo de coisa, mas não adiantava mais. O que acontecera naquele único momento era irreparável e a próxima coisa de que me lembro é de estar deitado sozinho em meu quarto. Não tinha os cães na cama no inverno como sempre porque os cães estavam mortos, e embora a lareira não estivesse acesa, enfiei-me, sujo e ensangüentado, debaixo das cobertas da cama e caí em sono profundo.
Permaneci em meu quarto durante dias.
Eu sabia que os aldeões haviam subido a montanha, encontrado os lobos e os levado ao castelo, porque Augustin veio me contar essas coisas, sem que eu tivesse perguntado.
Talvez tenha se passado uma semana. Quando pude suportar a idéia deter outros cães perto de mim, desci ao meu canil e peguei dois filhotes, animais já grandes, que me fizeram companhia. A noite, eu dormia entre eles.
Os criados entravam e saíam. Mas ninguém me incomodava.
E, então, minha mãe entrou em meu quarto, silenciosa e quase furtivamente.




2

Era noite. Eu estava sentado na cama, com um dos cães deitado ao meu lado e o outro esticado sob meus joelhos. O fogo crepitava na lareira. E lá estava minha mãe que enfim chegava, como, suponho, eu já deveria ter imaginado.
Sabia que era ela por seu jeito peculiar de se mover nas sombras, e se fosse qualquer outra pessoa que se aproximasse de mim, eu teria gritado “vá embora”, mas para ela não disse coisa alguma.
Sentia por ela um grande e inabalável amor, acho que por nenhuma outra pessoa sentia o mesmo. E uma das coisas que sempre fez com que granjeasse minha estima era o fato de ela jamais dizer nada de comum.
“Feche a porta”, “tome sua sopa”, “fique quieto”, frases assim jamais saíram dos seus lábios. Ela lia o tempo todo; na verdade, era a única em nossa família que recebeu alguma educação e, quando falava, era realmente para dizer algo. Por isso sua presença não me incomodava agora.
Pelo contrário, ela despertava minha curiosidade. O que ela diria, e se isso faria alguma diferença para mim. Eu não desejara que ela viesse, nem sequer pensava nela e não desviei os olhos do fogo para olhar para ela.
Mas havia uma poderosa compreensão entre nós. Quando tentei fugir daquela casa e fui levado de volta, foi ela quem me mostrou a saída do sofrimento que se seguiu. Ela fizera milagres por mim, embora ninguém em volta de nós jamais houvesse notado.
Sua primeira intervenção ocorreu quando eu estava com doze anos e o velho pároco da aldeia, que me havia ensinado a decorar alguns poemas e a ler um ou dois hinos em latim, quis enviar-me à escola de um mosteiro nas vizinhanças.
Meu pai disse não, que eu poderia aprender tudo de que precisava em minha própria casa. Mas foi minha mãe quem, deixando seus livros de lado, teve uma violenta discussão com ele. Eu iria, ela disse, se eu quisesse. E vendeu uma de suas jóias para comprar meus livros e roupas. Todas as suas jóias ela havia herdado de uma avó italiana, cada uma tinha sua história e foi difícil para ela se desfazer delas. Mas fez isso sem pestanejar.
Meu pai ficou furioso e lembrou-a de que se aquilo houvesse acontecido antes de ele ficar cego, com certeza sua vontade prevaleceria. Meus irmãos asseguraram-lhe que o filho mais novo dele não ficaria fora por muito tempo. Eu iria para casa correndo assim que me obrigassem a fazer algo que não desejasse.
Bem, não voltei correndo para casa. Adorei a escola do mosteiro.
Eu adorei a capela e os hinos, a biblioteca com seus milhares de livros velhos, os sinos que marcavam a passagem do dia, os rituais sempre repetidos. Adorei a limpeza do lugar, o espantoso fato irresistível de todas as coisas serem conservadas em bom estado, de o trabalho jamais ter fim na grande casa e nos jardins.
Quando me corrigiam, o que não ocorria com freqüência, sentia uma intensa felicidade pois, pela primeira vez em minha vida, alguém estava tentando me transformar numa boa pessoa, em alguém que conseguisse aprender as coisas.
Um mês depois, declarei minha vocação. Eu desejava entrar na Ordem. Queria passar minha vida naqueles claustros imaculados; na biblioteca, escrevendo em pergaminhos e aprendendo a ler os livros antigos. Queria ser encerrado para sempre com pessoas que acreditavam que eu poderia ser bom, se eu assim o quisesse.
Gostavam de mim ali. O que era bastante inusitado. Eu não tornava ali ninguém infeliz ou zangado.
O padre superior escreveu imediatamente para pedir a permissão de meu pai. E, para ser franco, pensei que meu pai ficaria contente em se livrar de mim.
Mas, três dias depois, meus irmãos chegaram para me levar para casa com eles. Chorei e supliquei para ficar, mas não havia nada que o padre superior pudesse fazer.
E, assim que chegamos ao castelo, meus irmãos tiraram meus livros e me trancaram no quarto. Não compreendia por que estavam tão irritados. Havia a insinuação de que, por alguma razão, eu me comportara como um idiota. Não conseguia parar de chorar. Ficava andando em círculos, quebrando tudo e chutando a porta.
Então, meu irmão Augustin veio falar comigo. No início, fez rodeios, mas o que ficou claro no final foi que nenhum membro de uma grande família francesa seria um pobre padre professor. Como podia eu ter me equivocado a respeito de tudo? Fora enviado lá para aprender a ler e a escrever. Por que eu sempre tinha que cair nos extremos? Por que me comportava habitualmente como uma criatura selvagem?
Quanto a me tornar um padre com perspectivas reais dentro da Igreja, bem, eu era o filho mais novo daquela família, ora, não era? Devia pensar em minhas obrigações para com minhas sobrinhas e sobrinhos.
Traduzindo: não temos dinheiro para lançá-lo numa verdadeira carreira eclesiástica, para torná-lo um bispo ou cardeal como convém à nossa categoria, de modo que você tem de viver sua vida aqui como um iletrado e um simplório. Desça até o salão e jogue xadrez com seu pai.
Depois de ter entendido tudo, chorei bem na mesa de jantar e murmurei palavras que ninguém entendeu sobre aquela casa ser um “caos” e por isso fui mandado de volta a meu quarto.
Então, minha mãe veio falar comigo.
Ela disse:
— Você não sabe o que é caos. Por que usa palavras assim?
— Eu sei — eu disse e comecei a descrever para ela a sujeira e decadência que havia ali por toda parte, e a falar como era o mosteiro, limpo e arrumado, um lugar no qual, se você se empenhasse, poderia realizar alguma coisa.
Ela não discutiu. E jovem como eu era, sabia que ela estava se entusiasmando com a qualidade incomum daquilo que eu lhe estava dizendo.
Na manhã seguinte, ela me levou para um passeio.
Viajamos horas para chegar no impressionante castelo feudal de um nobre vizinho, e lá chegando ela e o cavalheiro me levaram ao canil, onde ela me disse para escolher meus favoritos numa nova ninhada de filhotes de mastim.
Nunca antes eu havia visto nada tão meigo e cativante quanto aqueles pequenos filhotes de mastim. E os grandes cães pareciam leões sonolentos enquanto nos observavam. Simplesmente magnífico.
Eu estava nervoso demais para escolher. Levei comigo o macho e a fêmea que o nobre me aconselhou a pegar, carregando-os durante todo o trajeto para casa numa cesta em meu colo.
E, um mês depois, minha mãe também comprou para mim meu primeiro mosquetão de pederneira e meu primeiro bom cavalo de marcha.
Ela nunca disse por que havia feito tudo aquilo. Mas eu entendi à minha maneira por que ela me dera. Eu criei aqueles cães, treinei-os e com eles formei um grande canil.
Tornei-me um verdadeiro caçador com aqueles cães e, com a idade de dezesseis anos, eu vivia pelos campos.
Mas, em casa, eu era mais do que nunca um aborrecimento. Ninguém queria, de fato, me ouvir falar em restaurar as vinhas ou em replantar os campos abandonados, ou em fazer com que os arrendatários parassem de nos roubar.
Eu não podia influir em nada. O silencioso fluxo e refluxo da vida de rotina me parecia fatal.
Eu ia à igreja em todos os dias de festa só para quebrar a monotonia da vida. E quando havia feira na aldeia, eu estava sempre presente, ávido pelos pequenos espetáculos que só via naquelas ocasiões, qualquer coisa para quebrar a rotina.
Podiam ser os mesmos velhos malabaristas, palhaços e acrobatas de anos passados, mas não tinha importância. Era alguma coisa mais que a mudança das estações e a conversa fiada sobre glórias passadas.
Mas, naquele ano, em que eu estava com dezesseis anos, chegou uma trupe de atores italianos com uma carroça pintada em cuja traseira montaram o palco mais elaborado que eu já havia visto. Encenaram a velha comédia italiana com Pantaleão e Polichinelo, e os jovens amantes Lelio e Isabella, o velho médico e todas as velhas tramas.
Eu assistia a tudo enlevado. Nunca havia visto nada como aquilo, com aquele talento, vivacidade e vitalidade. Eu adorava mesmo quando as falas eram tão rápidas que não se podiam acompanhar.
Quando a trupe terminou e recolheu o que pôde da multidão, vagabundeei com eles pela estalagem e ofereci a todos o vinho que não tinha dinheiro para pagar, só para poder conversar com eles.
Sentia um amor indizível por aqueles homens e mulheres. Eles me explicaram que cada ator tinha seu papel por toda a vida, e que não decoravam as falas, pois improvisavam tudo no palco. Você sabia o seu nome, conhecia o personagem, interpretava-o e o fazia agir e falar como pensava que ele devia fazer. Aí estava a genialidade.
Era a chamada de commedia dell'arte.
Eu estava encantado. Apaixonei-me pela jovem que interpretava Isabella. Entrei na carroça com os atores e examinei todos os trajes e o cenário pintado, e quando estávamos bebendo de novo na taberna, eles me deixaram interpretar Lelio, o jovem amante de Isabella, depois aplaudiram e disseram que eu tinha o dom. Eu podia improvisar assim como eles.
A princípio, pensei que não passasse de bajulação, mas de uma maneira muito real não me importava se fosse bajulação ou não.
Na manhã seguinte, quando a carroça partiu da aldeia, eu estava nela. Estava escondido na traseira com algumas moedas que conseguira economizar e toda minha roupa embrulhada num cobertor. Eu ia ser ator.
Pois bem, seguindo a velha comédia italiana, Lelio devia ser muito bonito; ele é o amante, como já expliquei, e não usa máscara. Se tem boas maneiras, dignidade, pose aristocrática, tanto melhor, pois isto faz parte do papel.
Bem, a trupe pensava que eu havia sido abençoado em todas essas coisas. Eles me orientaram logo para a próxima apresentação que fariam. E, no dia anterior à nossa encenação do espetáculo, circulei pela cidade — um lugar muito maior e mais interessante do que nossa aldeia, com certeza — anunciando a peça juntam ente com os demais.
Estava no paraíso. Mas nem a viagem, nem os preparativos, nem a camaradagem com meus colegas atores chegaram perto do êxtase que senti quando enfim pisei naquele pequeno palco de madeira.
Eu ia em busca de Isabella cheio de paixão. Descobri o dom de dizer versos e ditos espirituosos que jamais suspeitara ter na vida. Podia ouvir minha voz ressoando nos muros de pedra à minha volta. Podia ouvir as risadas da multidão vindo a mim. Quase tiveram que me arrancar do palco para me fazer parar, mas todo mundo sabia que havia sido um grande sucesso.
Naquela noite, a atriz que representava minha enamorada concedeu-me seus favores mais especiais e íntimos. Dormi em seus braços e a última coisa que me lembro ouvir ela dizer foi que, quando fôssemos a Paris, encenaríamos na feira de St.-Germain e depois deixaríamos a trupe e ficaríamos em Paris, trabalhando no bulevar de Temple, até entrarmos na própria Comédie Française e nos apresentarmos para Maria Antonieta e o rei Luís.
Quando acordei na manhã seguinte, ela havia ido embora junto com todos os atores, e meus irmãos estavam lá.
Eu nunca soube se meus amigos foram subornados para me abandonar, ou se apenas fugiram de susto. Mais provável que seja o último. Seja como for, fui levado de volta para casa mais uma vez.
Claro que minha família ficou totalmente horrorizada com o que eu fizera. Querer ser monge quando se tem doze anos é desculpável. Mas o teatro tinha o sinal do diabo. Até mesmo o grande Molière não havia recebido enterro cristão. E eu fugira com uma trupe de italianos vagabundos e esfarrapados, pintara o rosto de branco e me apresentara com eles numa praça de cidade por dinheiro.
Fui severamente surrado e, quando amaldiçoei todo mundo, fui surrado de novo.
A pior punição, entretanto, foi ver a expressão no rosto de minha mãe. Eu nem sequer lhe dissera que estava indo embora. E a magoara, coisa que nunca antes acontecera.
Mas ela jamais fez algum comentário sobre o assunto.
Aproximou-se de mim, me ouviu chorar. Vi lágrimas em seus olhos. E ela colocou a mão em meu ombro, o que para ela era um gesto bastante incomum.
Não lhe contei como foram aqueles breves dias. Mas acho que ela sabia. Alguma coisa mágica se perdera por completo.
Ela me fez sentar ao seu lado na mesa. Foi condescendente para comigo, na verdade conversou comigo de uma forma que lhe era perfeitamente estranha, até dominar e dissolver o rancor da família.
No final, como havia feito no passado, vendeu outra de suas jóias e comprou a excelente espingarda de caça que levei comigo quando fui matar os lobos.
Era uma arma cara e de excelente qualidade e, apesar de minha desgraça, estava muito ansioso para experimentá-la. E ela acrescentou a este outro presente uma luzidia égua de pêlo castanho com força e velocidade que eu nunca vira num animal antes. Mas essas coisas eram pequenas comparadas com o enorme consolo que minha mãe me proporcionara.
No entanto, a amargura que eu sentia não abrandou.
Jamais esqueci aqueles momentos em que fui Lelio. Tornei-me um pouco mais impiedoso devido ao acontecido e nunca, nunca mais fui à feira da aldeia de novo. Passei a achar que jamais fugiria dali e, de maneira bastante estranha, à medida que meu desespero se aprofundava, aumentava minha utilidade.
Eu sozinho infundia o temor a Deus nos criados e arrendatários, na época em que estava com dezoito anos. Eu sozinho providenciava a comida para nós. E, por alguma estranha razão, isso me dava satisfação. Não sei por quê, mas eu gostava de sentar à mesa e pensar que todos ali estavam comendo o que eu providenciara.
Assim, esses momentos me aproximaram de minha mãe. Esses momentos fizeram brotar um amor recíproco que passava despercebido e que talvez não fosse igualado na vida daqueles que viviam ao nosso redor.
E agora ela vinha para perto de mim naquele estranho momento em que, por razões que eu mesmo não compreendia, não poderia suportar a companhia de qualquer outra pessoa.
Com meus olhos no fogo, mal a vi subir e afundar-se no colchão de palha ao meu lado.
Silêncio. Apenas o crepitar do fogo, e a respiração profunda dos cães que dormiam ao meu lado.
Olhei de soslaio para ela e fiquei um tanto quanto chocado.
Ela estivera doente todo o inverno com uma tosse insistente e agora parecia mal de verdade e, pela primeira vez, sua beleza que sempre foi importante para mim mostrava-se vulnerável.
Seu rosto era anguloso e as maçãs perfeitas, muito salientes e bem espaçadas, mas delicadas. A linha do queixo era forte, porém de apurada feminilidade. E tinha olhos muito claros, de cor azul-cobalto, orlados com densos cílios cinzentos.
Se havia alguma imperfeição nela seria talvez porque suas feições eram pequenas demais, travessas demais, fazendo-a parecer uma garotinha. Seus olhos tornavam-se ainda menores quando se zangava, e, embora sua boca fosse doce, com freqüência parecia severa. Não virava para baixo, não se contorcia de maneira alguma, parecia uma pequena rosa cor-de-rosa em seu rosto. Mas suas faces eram muito lisas e o rosto estreito e, quando parecia muito séria, a boca, sem sofrer nenhuma mudança, parecia cruel por alguma razão.
Agora estava ligeiramente abatida. Mas ainda me parecia linda. Ainda era bonita. Eu gostava de ficar olhando para ela. Seus cabelos eram cheios e louros, e isso eu herdei dela.
Na verdade, eu me pareço com ela, pelo menos superficialmente. Mas minhas feições são maiores, mais rudes, e minha boca é mais móvel e pode ser muito cruel às vezes. E pode-se perceber o meu estado de espírito em minha expressão, a capacidade de rir de maneira maliciosa e quase histérica que sempre tive não importava o quão infeliz estivesse. Ela não ria com freqüência. Podia parecer de uma frieza profunda. No entanto, sempre teve uma doçura de menininha.
Bem, olhei para ela sentada em minha cama — cheguei inclusive a encará-la, imagino — e, de imediato, ela começou a falar comigo.
— Sei como é — ela me disse. — Você os odeia. Pelo que suportou e pelo que eles não sabem. Eles não têm imaginação para saber o que lhe aconteceu lá na montanha.
Eu senti um prazer indiferente com essas palavras. Transmiti-lhe, em silêncio, o reconhecimento de que ela me entendera perfeitamente.
— Foi a mesma coisa na primeira vez em que dei à luz — ela disse. — Padeci em agonia extrema durante doze horas, e me sentia tomada pela dor, sabendo que o único alívio para o meu sofrimento seria parir ou morrer. Quando acabou, eu estava com seu irmão Augustin em meus braços, mas não queria nenhuma outra pessoa perto de mim. E não foi porque os culpava. Foi apenas porque eu havia sofrido daquela maneira, hora após hora, indo e voltando até o círculo do inferno. Eles não conheciam o círculo do inferno. E me senti calma, por completo. Nesse acontecimento comum, nesse ato simples de dar à luz, compreendi o sentido da solidão absoluta.
— Sim, é isso — eu respondi. Estava um pouco perturbado.
Ela não disse nada. Eu teria ficado surpreso se dissesse. Na verdade, depois de dizer o que viera dizer, ela não iria conversar. Colocou a mão em minha testa — o que lhe era incomum — e quando reparou que eu estava usando as mesmas roupas de caça sujas de sangue após todo aquele tempo, também percebi como aquilo tudo era doentio.
Ela ficou calada durante algum tempo.
E enquanto eu estava sentado ali, olhando para a lareira, quis dizer-lhe milhões de coisas, sobretudo o quanto a amava.
Mas fui cauteloso. Minha mãe costumava me interromper quando eu falava com ela e, mesclado com o meu amor, nutria por ela um forte ressentimento.
Durante toda a minha vida, eu a vira ler seus livros italianos e escrevinhar cartas a pessoas em Nápoles, onde crescera; no entanto, ela não tinha nenhuma paciência para ensinar nem mesmo o alfabeto a mim ou aos meus irmãos. E nada mudara depois que voltei do mosteiro. Eu estava com vinte anos e não conseguia ler ou escrever mais do que algumas orações e meu nome. Eu odiava ver os seus livros; odiava a concentração que lhes dedicava.
E, de um modo vago, eu odiava o fato de que apenas o meu sofrimento extremo conseguia arrancar dela o mais leve zelo ou interesse.
No entanto, ela fora minha salvadora. E não havia ninguém mais além dela. E eu estava cansado de ficar sozinho, talvez, tão cansado como um jovem pode ficar.
Ela estava ali agora, fora dos limites de sua biblioteca, e era atenciosa para comigo.
Finalmente me convenci de que não se levantaria para ir embora e comecei a falar com ela.
— Mãe — eu disse em voz baixa —, tem outra coisa. Antes disso acontecer, houve vezes em que senti coisas terríveis. — Não houve nenhuma mudança em sua expressão. — Quero dizer que às vezes sonhava que podia matar todos eles — eu disse. — Mato meus irmãos e meu pai em sonhos. Vou de quarto em quarto abatendo-os, como fiz com os lobos. Sinto em mim o desejo de matar...
— Eu também sinto, meu filho — ela disse. — Eu também. — E seu rosto iluminou-se com o mais estranho sorriso enquanto olhava para mim.
Inclinei-me para a frente e olhei-a com mais atenção. Baixei o tom de voz.
— Eu me vejo gritando quando isto acontece — prossegui. — Vejo meu rosto transfigurado e ouço uivos saindo de mim. Minha boca forma um O perfeito, e uivos e gritos saem de mim.
Ela inclinou a cabeça com o mesmo olhar compreensivo, como se uma luz cintilasse por trás de seus olhos.
— E na montanha, mãe, quando estava lutando com os lobos... foi um pouco assim.
— Só um pouco? — ela perguntou. Assenti com um aceno de cabeça.
— Quando matei os lobos, me senti como se fosse uma pessoa diferente. E agora não sei quem está aqui com você... seu filho Lestat ou aquele outro homem, o matador.
Ela ficou em silêncio durante um longo tempo.
— Não — disse enfim. — Foi você quem matou os lobos. Você é o caçador, o guerreiro. Você é mais forte do que todos aqui, esta é a sua tragédia.
Sacudi a cabeça. Era verdade, mas não importava. Não valia de nada para uma infelicidade como aquela. Mas de que adiantava dizer isso?
Ela desviou o olhar por um momento, depois voltou a me olhar.
— Mas você é muitas coisas — disse. — Não apenas uma coisa. Você é o matador e o homem. E não ceda ao matador que há em você apenas porque os odeia. Não tem que carregar o fardo do crime ou da loucura para ficar livre deste lugar. Com certeza deve haver outras maneiras.
Estas duas últimas frases me impressionaram profundamente. Ela tocara no âmago. E suas implicações me deixaram confuso.
Sempre achei que não poderia ser um bom ser humano se lutasse contra eles. Ser bom significava ser derrotado por eles. A menos, é claro, que eu descobrisse uma definição mais interessante de bondade.
Ficamos em silêncio durante alguns momentos. E aquela pareceu uma intimidade incomum mesmo para nós. Ela estava olhando o fogo, coçando os cabelos densos que estavam enrolados num círculo atrás da cabeça.
— Você sabe o que imagino — ela disse, olhando de novo para mim. -Não tanto o assassinato deles quanto um abandono que os despreze por completo. Imagino-me bebendo vinho até ficar tão bêbada que tire minhas roupas e me banhe nua nos riachos da montanha.
Quase dei uma risada. Mas a idéia era de uma graça sublime. Olhei para ela, sem saber ao certo por um momento se a estava ouvindo corretamente. Mas ela havia dito essas palavras e não terminara.
— E depois me imagino indo para a aldeia — continuou ela —, entrando na estalagem e levando para a cama todos os homens que encontrasse... homens rudes, grandes, velhos, jovens. Apenas ficaria deitada, recebendo um após o outro e sentindo um certo triunfo magnífico, uma espécie de liberação absoluta, sem pensar no que aconteceria com seu pai ou seus irmãos, se estariam vivos ou mortos. Naquele momento, eu seria apenas eu mesma. Não pertenceria a ninguém.
Eu estava chocado e atônito demais para dizer alguma coisa. Mas também era terrivelmente, terrivelmente divertido. Quando pensei em meu pai, meus irmãos e nos arrogantes comerciantes da aldeia e na maneira como reagiriam a tal coisa, achei a idéia quase hilariante.
Se não ri alto, provavelmente foi porque a imagem de minha mãe nua me fez pensar que não devia. Mas não consegui ficar quieto de todo. Ri um pouco e ela sacudiu a cabeça, meio sorrindo. Levantou as sobrancelhas como se dissesse “nós nos entendemos”.
No final, caí na risada. Socava o joelho com meu punho e batia com a cabeça na madeira da cama atrás de mim. E ela também quase riu. Talvez à sua maneira silenciosa estivesse rindo.
Momento curioso. A rude sensação de vê-la como um ser humano desapareceu quase por encanto. Nós nos entendíamos, e todo meu ressentimento em relação a ela já não importava mais.
Ela tirou o grampo dos cabelos e deixou-os cair sobre os ombros.
Depois disso, ficamos em silêncio por talvez uma hora. Sem risos ou conversas, apenas o fogo ardendo e ela perto de mim.
Ela se virara de modo a poder ver o fogo. Seu perfil, a delicadeza de seu nariz e lábios, era bonito de se ver. Depois, olhou de volta para mim e disse com a mesma voz firme e desprovida dos excessos da emoção:
— Jamais sairei daqui. Estou morrendo.
Fiquei aturdido. O pequeno choque de antes não foi nada comparado a este.
— Viverei até o final desta primavera — continuou — e é possível que o verão também. Mas não sobreviverei a outro inverno. Eu sei. A dor nos meus pulmões está cada vez pior.
Soltei um abafado grito de angústia. Acho que me inclinei para a frente e disse:
— Mãe!
— Não diga mais nada — ela respondeu.
Acho que ela odiava ser chamada de mãe, mas não consegui evitar.
— Eu só queria falar isto para uma outra alma — ela disse. — Ouvir em voz alta. Estou absolutamente horrorizada com isto. Tenho medo.
Eu quis pegar suas mãos, mas sabia que ela jamais o permitiria. Ela não gostava de ser tocada. Jamais abraçava alguém. E, assim, foi com nossos olhares que nos abraçamos. Meus olhos se encheram de lágrimas enquanto olhava para ela.
Ela afagou minha mão.
— Não pense muito nisso — ela disse. — Eu não penso. Só de vez em quando. Mas você precisa estar preparado para seguir vivendo sem mim, quando o momento chegar. Pode ser mais difícil para você do que imagina.
Tentei dizer alguma coisa mas não consegui.
Ela me deixou da mesma maneira que havia chegado, em silêncio.
E, embora em nenhum momento houvesse dito coisa alguma sobre minhas roupas, minha barba ou minha aparência deplorável, mandou os criados trazerem roupas limpas, a navalha e água quente. E, em silêncio, deixei que cuidassem de mim.

3

Comecei a me sentir mais forte. Parei de pensar no que havia acontecido com os lobos e pensava nela.
Pensava nas palavras “absolutamente horrorizada” e não sabia o que devia entender por isso, só que elas soavam exatas e verdadeiras. Eu me sentiria dessa maneira se estivesse morrendo devagar. Teria sido melhor morrer nas montanhas com os lobos.
Mas havia algo além disso. Ela sempre havia sido infeliz em silêncio. Odiava a inércia e a desesperança de nossa vida ali, tanto quanto eu odiava. E agora, após oito filhos, três vivos e cinco mortos, estava morrendo. Era o fim para ela.
Tomei a decisão de me levantar se isto a fizesse sentir-se melhor, mas quando tentei não consegui. A idéia de que ela estava morrendo me era insuportável. Andava de um lado para o outro em meu quarto, comia a comida que me levavam, mas ainda não conseguia sair para encontrá-la.
Mas, por volta do fim do mês, chegaram visitas querendo me ver.
Minha mãe entrou e disse que eu precisava receber os mercadores da aldeia, que desejavam me agradecer por ter morto os lobos.
— Ah, que vão para o inferno — respondi.
— Não, você deve descer — ela disse. — Eles trouxeram presentes para você. Ora, cumpra seu dever.
Odiei tudo isso.
Quando cheguei ao salão, deparei-me com os ricos comerciantes, todos homens que eu conhecia bem e todos vestidos para a ocasião.
Mas entre eles havia um jovem que não reconheci de imediato.
Tinha talvez a minha idade, era bem alto e, quando nossos olhos se encontraram, lembrei-me de quem era. Nicolas de Lenfent, filho mais velho do mercador de tecidos, que fora enviado para estudar em Paris.
Agora era uma pessoa de grande beleza.
Vestido com esplêndido casaco de brocado rosa e dourado, usava sapatos com saltos dourados e colarinho com camadas de renda italiana. Só seus cabelos estavam como costumavam ser, escuros e muito ondulados, o que lhe dava uma aparência infantil por alguma razão, embora estivessem presos atrás com uma elegante fita de seda.
Tudo isso, moda parisiense — do tipo que passava o mais rápido que pudesse pela estalagem da aldeia durante alguma viagem.
E lá estava eu para encontrá-lo, com minhas velhas botas de couro e um casaco surrado, com rendas amareladas que haviam sido remendadas mais de dezessete vezes.
Nós nos cumprimentamos, já que ele era evidentemente o porta-voz da aldeia, e então ele retirou do modesto embrulho que carregava uma enorme capa de veludo vermelho, forrada de pele. Coisa magnífica. Quando ele olhou para mim, era inegável que seus olhos brilhavam. Dava para se pensar que ele estava olhando para um soberano.
— Monsieur, suplicamos que aceite isto — disse com muita sinceridade. — As peles mais finas dos lobos foram usadas para forrá-lo, e achamos que lhe ficaria bem no inverno esta capa forrada de pele, quando sair para caçar.
— E essas também, monsieur — disse seu pai mostrando um par de botas de camurça preta, finamente costuradas e forradas de pele. — Para a caça, monsieur — ele disse.
Fiquei um pouco conquistado. Eles demonstravam profunda gentileza, aqueles homens que possuíam uma riqueza com a qual eu apenas podia sonhar me prestavam respeito como a um aristocrata.
Peguei a capa e as botas. Agradeci de maneira tão efusiva como jamais havia agradecido a alguém por alguma coisa.
E ouvi meu irmão Augustin dizer atrás de mim:
— Agora é que ele vai ficar realmente impossível!
Senti meu rosto corar. Era ultrajante ele dizer aquilo na presença daqueles homens, mas quando olhei de soslaio para Nicolas, vi a expressão mais afetuosa em seu rosto.
— Também sou impossível, monsieur — ele sussurrou quando lhe dei o beijo de despedida. — Algum dia vai deixar-me vir para conversarmos e me contar como matou todos aqueles lobos? Só os impossíveis podem fazer o impossível.
Nenhum dos mercadores jamais me falara daquela maneira. Por um momento, voltamos a ser garotos. E dei uma risada alta. Seu pai ficou desconcertado. Meu irmão parou de cochichar, mas Nicolas de Lenfent continuou sorrindo com serenidade parisiense.
Assim que eles partiram, levei a capa de veludo vermelho e as botas de camurça para o quarto de minha mãe.
Ela estava lendo como sempre, enquanto escovava os cabelos bem devagar. À fraca luz que entrava pela janela, vi o grisalho de seus cabelos pela primeira vez. Contei o que Nicolas de Lenfent havia dito.
— Por que ele é impossível? — perguntei. — Ele disse isso com emoção, como se significasse alguma coisa.
Ela deu uma risada.
— E realmente significa — ela disse. — Ele está em desgraça. — Ela parou de olhar o livro por um momento e olhou para mim. — Você sabe que a vida inteira ele foi educado para ser uma pequena imitação de aristocrata. Bem, durante seu primeiro período letivo estudando Direito em Paris, ele se apaixonou loucamente pelo violino, que coisa! Parece que ouviu um virtuose italiano, um daqueles gênios de Pádua, tão magnífico que diziam que tinha vendido a alma para o diabo. Bem, Nicolas largou tudo de imediato para tomar lições com Wolfgang Mozart. Vendeu seus livros. Não fazia mais nada a não ser tocar e tocar, até que fracassou nos exames. Ele quer ser músico. Pode imaginar?
— E seu pai ficou possesso.
— Exato. Até quebrou o instrumento, e você sabe o quanto significa uma peça valiosa para um bom mercador.
Eu sorri.
— Quer dizer que Nicolas não tem nenhum violino agora?
— Ele tem um. Ele logo escapou para Clermont e vendeu seu relógio para comprar outro. Está bem, ele é realmente impossível e o pior de tudo é que toca muito bem.
— Você já o ouviu?
Ela conhecia a boa música. Havia crescido com ela em Nápoles. Tudo que eu ouvira fora o coro da igreja, e os músicos nas feiras.
— Eu o ouvi no domingo quando fui à missa — ela disse. — Estava tocando no quarto do andar superior em cima da loja. Todos puderam ouvi-lo e a seu pai que ameaçava quebrar-lhe as mãos.
Soltei um pequeno arquejo diante daquela crueldade. Estava poderosamente fascinado. Penso que já o amava por fazer o que queria daquele jeito.
— Claro que ele jamais será um grande músico — ela prosseguiu.
— Por que não?
— Passou da idade. Não se pode começar a estudar violino quando se tem vinte anos. Mas que sei eu? Ele toca de maneira mágica, a seu modo. E talvez possa vender a alma para o diabo.
Eu ri um tanto quanto constrangido. A coisa soava trágica.
— Mas por que você não vai até a cidade e faz amizade com ele? — ela perguntou.
— Por que diabo eu deveria fazer isso? — perguntei.
— Lestat, francamente. Seus irmãos vão odiar isso. E o velho mercador vai ficar fora de si de alegria. Seu filho e o filho do marquês.
— Não são razões boas o bastante.
— Ele esteve em Paris — ela disse. Observou-me por um longo momento. Depois voltou a seu livro, escovando os cabelos de vez em quando, de forma preguiçosa.
Observei-a ler, odiando isso. Queria perguntar-lhe como estava, se a tosse estava muito ruim naquele dia. Mas não consegui tocar no assunto.
— Vá até lá e converse com ele, Lestat — ela disse sem olhar de novo para mim.


4

Levei uma semana para decidir que iria procurar Nicolas de Lenfent.
Vesti a capa de veludo vermelho forrada de pele, calcei as botas de camurça também forradas de pele e desci a sinuosa rua principal da aldeia em direção à estalagem. A loja de propriedade do pai de Nicolas ficava do outro lado da estalagem, mas não vi nem ouvi Nicolas.
Eu não tinha mais que o dinheiro suficiente para um copo de vinho e não sabia ao certo como proceder, até que o proprietário apareceu, cumprimentou-me e pôs diante de mim uma garrafa de sua melhor safra.
Claro que aquelas pessoas sempre me trataram como o filho do senhor. Mas pude ver que as coisas haviam mudado por conta dos lobos e, de modo bastante estranho, isto me fez sentir ainda mais solitário do que de costume.
Mas, assim que servi o primeiro copo, Nicolas apareceu, um enorme esplendor de cor no vão da porta aberta.
Não estava tão bem-vestido quanto antes, graças a Deus, mas tudo nele exalava riqueza. Seda, veludo e couro novo em folha.
Estava corado como se houvesse corrido, os cabelos estavam desgrenhados e soprados pelo vento, os olhos estavam cheios de excitação. Fez uma reverência a mim, esperou que o convidasse a sentar-se e depois me perguntou:
— Monsieur, como foi matar aqueles lobos? — e, dobrando os braços sobre a mesa, encarou-me.
— Por que você não me conta como foi em Paris, monsieur? — eu disse e, no mesmo instante, percebi que soara rude e zombeteira. — Desculpe-me — eu disse de imediato. — Eu realmente gostaria de saber. Você freqüentou a universidade? Estudou mesmo com Mozart? O que as pessoas fazem em Paris? Sobre o que conversam? O que pensam?
Ele deu uma risada suave diante da rápida sucessão de perguntas. Eu também tive que rir. Fiz sinal pedindo outro copo e empurrei a garrafa na direção dele.
— Diga-me — eu disse — você foi aos teatros em Paris? Viu a Comédie Française?
— Muitas vezes — ele respondeu de maneira um pouco sumária. — Mas, ouça, a diligência chegará a qualquer momento. Aqui vai ficar barulhento demais. Conceda-me a honra de lhe oferecer a ceia num quarto particular do andar de cima. Eu gostaria de fazê-lo...
E antes que eu pudesse fazer um protesto cavalheiresco, ele já estava providenciando tudo. Subimos para uma pequena câmara, simples porém confortável.
Eu quase nunca entrara em pequenos quartos de madeira e adorei aquele no mesmo instante. A mesa estava posta para a ceia que viria mais tarde, a lareira aquecia de fato o lugar, ao contrário das chamas crepitantes de nosso castelo, e o vidro grosso da janela estava limpo o bastante para se ver o azul do céu de inverno acima das montanhas cobertas de neve.
— Muito bem, vou contar-lhe tudo que queira saber sobre Paris — ele disse em um tom agradável, esperando que eu me sentasse primeiro. — Sim, eu freqüentei a universidade. — Deu um sorriso de escárnio como se tudo aquilo tivesse sido desprezível. — E estudei de fato com Mozart que teria me dito que eu era um caso perdido se não precisasse de alunos. Pois bem, por onde quer que eu comece? Pelo fedor da cidade ou por seu barulho infernal? As multidões famintas que nos cercam em todas as partes? Os ladrões em cada beco, prontos para cortar nossa garganta?
Rejeitei tudo aquilo com um aceno. O sorriso dele era muito diferente de seu tom de voz, seus modos eram francos e atraentes.
— Um teatro parisiense realmente grande... — eu disse. — Descreva-o para mim... como é ele?
Creio que ficamos nesse quarto durante quatro horas inteiras e tudo que fizemos foi beber e conversar.
Ele desenhou as plantas dos teatros sobre o tampo da mesa com o dedo molhado, descreveu as peças que assistira, os atores famosos, as pequenas casas dos bulevares. Em pouco tempo, estava descrevendo tudo de Paris e não se mostrava mais cínico, com minha curiosidade inflamando-o enquanto ele falava da Île de la Cité, do Quartier Latin, da Sorbonne e do Louvre.
Passamos para coisas mais abstratas, a maneira como os jornais noticiavam os acontecimentos, como seus colegas estudantes se reuniam nos cafés para discutir. Ele me contou que as pessoas estavam insatisfeitas e desgostosas com a monarquia. Que queriam uma mudança no governo e que não ficariam caladas por muito tempo. Falou-me dos filósofos, Diderot, Voltaire, Rousseau.
Eu não pude compreender tudo que ele disse. Mas com um discurso rápido, às vezes sarcástico, ele me deu um quadro maravilhosamente completo do que estava acontecendo.
Claro que não me surpreendeu ouvir que as pessoas cultas não acreditavam em Deus, que estavam muitíssimo mais interessadas na ciência, que a aristocracia era malvista, assim como a Igreja. Aquela era a época da razão, não da superstição, e quanto mais ele falava mais eu entendia.
Ele me deu uma visão geral da Encyclopédie, a grande compilação do conhecimento supervisionada por Diderot. E depois foram os salões que ele havia freqüentado, os bares, as noitadas com atrizes. Descreveu os bailes públicos no Palais Royal, onde Maria Antonieta aparecia ao lado de gente comum.
— Vou dizer-lhe uma coisa — ele disse no final —, tudo isso soa muitíssimo melhor aqui neste quarto do que é na realidade.
— Não acredito — eu disse com delicadeza. Não queria que ele parasse de falar. Queria que me contasse cada vez mais coisas.
— Estamos numa era secular, monsieur — ele disse enchendo nossos copos com uma nova garrafa de vinho. — Muito perigosa.
— Por que perigosa? — eu sussurrei. — O fim da superstição? O que poderia ser melhor do que isso?
— Falando como um verdadeiro homem do século XVIII, monsieur — ele disse com uma ligeira melancolia no sorriso. — Mas ninguém dá mais valor a coisa alguma. A moda é tudo. Até o ateísmo é uma moda.
Eu sempre tive uma mente secular, mas não por alguma razão filosófica. Ninguém em minha família acreditava muito em Deus ou havia acreditado um dia. Claro que diziam que acreditavam e nós íamos à missa. Mas isso era uma obrigação. A verdadeira crença havia desaparecido em nossa família muito tempo atrás, tal como talvez houvesse desaparecido nas famílias de milhares de aristocratas. Nem mesmo no mosteiro eu acreditava em Deus. Acreditava nos monges à minha volta.
Tentei explicar isso em linguagem simples que não ofendesse a Nicolas, posto que era diferente para sua família.
Até seu miserável pai que vivia para ganhar dinheiro (a quem eu admirava secretamente) era de uma religiosidade fervorosa.
— Mas podem os homens viver sem essas crenças? — Nicolas perguntou em tom quase tristonho. — Podem as crianças enfrentar o mundo sem elas?
Eu estava começando a compreender por que ele era tão sarcástico e cínico. Havia perdido a velha fé há pouco tempo. Estava amargurado com isso.
Mas não importava a dureza de seu sarcasmo, uma grande energia brotava dele, uma paixão irreprimível. E isto me atraiu para ele. Acho que eu o amava. Mais outros dois copos de vinho e eu seria capaz de dizer algo absolutamente ridículo como isso.
— Eu sempre vivi sem crença alguma — eu disse.
— É. Eu sei — ele respondeu. — Você se lembra da história das bruxas? Quando você chorou por causa das bruxas?
— Chorei pelas bruxas?
Por um momento, olhei para ele desconcertado. Mas isso despertara algo doloroso, algo humilhante. Muitas de minhas lembranças tinham essa qualidade. E agora eu tinha que me lembrar de ter chorado pelas bruxas.
— Não me lembro — eu disse.
— Nós éramos garotos pequenos. E o padre estava ensinando nossas orações. E nos levou ao local onde nos velhos tempos queimavam as bruxas, as velhas estacas e o solo enegrecido.
— Ah, aquele lugar — eu me arrepiei. — Aquele lugar horrível, horrível.
— Você começou a gritar e a chorar. Mandaram alguém ir buscar a própria marquesa porque sua ama não conseguia acalmá-lo.
— Eu era uma criança pavorosa — eu disse, tentando mostrar indiferença. Claro que me lembrava agora — os gritos, eu sendo carregado para casa, pesadelos com as fogueiras. Alguém molhando minha testa e dizendo: “Lestat, acorde.”
Mas não pensei nesse pequeno incidente durante anos. Era no próprio lugar que pensava sempre que me aproximava dele — o bosque cerrado de estacas enegrecidas, as imagens de homens, mulheres e crianças sendo queimados vivos.
Nicolas estava examinando-me.
— Quando sua mãe chegou para pegá-lo, disse que tudo aquilo era ignorância e crueldade. Ficou muito furiosa com o padre por nos ter contado essas velhas histórias.
Concordei com um aceno de cabeça.
O horror final de ouvir que todos haviam morrido por nada, aquelas pessoas de nossa própria aldeia esquecidas muito tempo atrás, que eram inocentes. “Vítimas da superstição”, minha mãe disse. “Não existem bruxas de verdade.” Não é de admirar que eu tenha gritado e chorado.
— Mas minha mãe — Nicolas disse — contou uma história diferente, disse que as bruxas tinham um pacto com o diabo, que arruinavam as colheitas e que, disfarçadas de lobos, matavam ovelhas e crianças...
— E o mundo não seria melhor se ninguém mais fosse queimado em nome de Deus? — perguntei. — Se não houvesse mais fé em Deus que levasse os homens a fazer isso uns contra os outros? Qual é o perigo de um mundo secular onde horrores como esse não mais aconteçam?
Ele inclinou-se para a frente com as sobrancelhas um pouco franzidas e um ar cheio de malícia.
— Os lobos não feriram você na montanha, feriram? — ele perguntou de brincadeira. — Você não se tornou um lobisomem, monsieur, sem que nós saibamos? — Ele bateu na borda forrada da capa de veludo que eu ainda levava nos ombros. — Lembre-se de que o bom padre disse que queimaram um bom número de lobisomens naqueles tempos. Eles costumavam ser uma ameaça. Dei uma risada.
— Se eu me tornar um lobo — respondi —, uma coisa posso lhe dizer. Não vou ficar andando por aí para matar as crianças. Irei embora deste inferno miserável de aldeia, onde ainda aterrorizam as crianças pequenas com histórias de bruxas sendo queimadas. Vou pegar a estrada para Paris e só vou parar quando vir suas muralhas.
— E descobrirá que Paris é um inferno miserável — ele disse. — Onde quebram os ossos de ladrões na roda diante da plebe na Place de Greve.
— Não — eu disse. — Verei uma esplêndida cidade onde grandes idéias nascem na mente do povo, idéias que se espalham para iluminar os recantos mais sombrios do mundo.
— Ah, você é um sonhador! — ele disse, mas estava encantado. Quando sorria, ficava mais que bonito.
— E conhecerei pessoas como você — prossegui —, pessoas que têm idéias na cabeça e um discurso ferino. Sentaremos nos cafés, beberemos juntos, discutiremos ardorosamente e conversaremos pelo resto da vida em divina animação.
Ele estendeu a mão, pôs o braço em torno de minha nuca e me beijou. Quase derrubamos a mesa de tão alegremente bêbados que estávamos.
— Meu senhor, o matador de lobos — ele sussurrou.
Quando chegou a terceira garrafa de vinho, comecei a falar de minha vida como nunca antes havia feito — sobre como era cavalgar até as montanhas todos os dias, indo tão longe que não pudesse ver mais as torres da casa de meu pai, cavalgar além das terras cultivadas até o lugar onde a floresta parecia quase mal-assombrada.
As palavras começaram a jorrar de mim como haviam jorrado dele, e em pouco tempo estávamos falando das milhares de coisas que sentíamos em nossos corações, coisas íntimas e secretas, e as palavras pareciam ser tão essenciais como eram naquelas raras ocasiões com minha mãe. E enquanto descrevíamos nossos anseios e insatisfações, dizíamos um para o outro, com grande exuberância, coisas como “sim, sim”, “exato”, “sei muito bem o que você quer dizer” e “sim, claro, você achou que não podia suportar isso” etc.
Uma outra garrafa e um novo fogo. E supliquei a Nicolas que tocasse seu violino para mim. No mesmo instante, ele correu em casa para pegá-lo.
Agora era o final da tarde. O sol declinava pela janela e a lareira estava muito quente. Nós estávamos muito bêbados. Nunca chegamos a pedir a ceia. E acho que eu estava mais feliz do que jamais estivera em minha vida. Deitei-me no encaroçado colchão de palha da pequena cama, com as mãos sob a cabeça, observando-o enquanto retirava o instrumento de sua caixa.
Ele colocou o violino no ombro e começou a dedilhá-lo e a girar as cravelhas.
Depois ergueu o arco e passou-o com força nas cordas para fazer sair a primeira nota.
Eu me sentei, recuei até a parede de painel e encarei-o porque não podia acreditar no som que estava ouvindo.
Ele atacou a música com vigor. Arrancava as notas do violino e cada nota era translúcida e vibrante. Seus olhos estavam fechados, a boca um pouco contorcida, o lábio inferior caído para o lado, e o que tocou meu coração quase tanto quanto a própria música foi a maneira como ele parecia curvar-se para a música com todo seu corpo, como se sua alma auscultasse o instrumento.
Eu nunca conheci uma música como aquela, com sua crueza, intensidade, as rápidas torrentes de notas brilhantes que saíam das cordas enquanto ele se movia para a frente e para trás. Era Mozart que estava tocando, e tinha toda a alegria, a velocidade e a pura beleza de tudo que Mozart escrevia.
Quando terminou, eu estava olhando fixo para ele e percebi que estava segurando minha cabeça.
— Monsieur, qual é o problema? — ele disse meio desamparado e eu me levantei, joguei meus braços em volta dele, beijei-o em ambas as faces e beijei o violino.
— Pare de me chamar de monsieur. Me chame pelo meu nome.
Deitei na cama, enterrei o rosto em meu braço e comecei a chorar, e depois que comecei não pude mais parar.
Ele sentou-se ao meu lado, abraçando-me e perguntando por que eu estava chorando. Embora não pudesse contar para ele, pude ver que ele estava acabrunhado com o fato de sua música ter produzido aquele efeito. Agora não havia nele nenhum sarcasmo ou amargura.
Creio que me levou para casa naquela noite.
E, na manhã seguinte, eu estava parado na tortuosa rua calçada de pedras diante da loja de seu pai, atirando seixos em sua janela.
Quando ele colocou a cabeça do lado de fora, eu disse:
— Não quer descer para continuarmos nossa conversa?




5

A partir de então, quando eu não estava caçando, minha vida passou a ser Nicolas e “nossa conversa”.
A primavera se aproximava, as montanhas estavam salpicadas de verde, o pomar de maçãs começava a voltar à vida. E Nicolas e eu estávamos sempre juntos.
Fazíamos grandes caminhadas subindo as encostas rochosas, consumíamos nosso pão e vinho na grama sob o sol, caminhávamos para o sul até as ruínas de um velho mosteiro. Ficávamos à toa em meus aposentos e às vezes subíamos até as ameias. E, quando estávamos bêbados e barulhentos demais para sermos tolerados pelos outros, voltávamos para nosso quarto na estalagem.
E, à medida que as semanas se passavam, nos revelávamos mais e mais um para o outro. Nicolas me contou sobre sua infância na escola, os pequenos desapontamentos da adolescência, aqueles a quem conhecera e amara.
E eu comecei a contar-lhe as coisas dolorosas — e finalmente a velha desgraça da fuga com os atores italianos.
Cheguei nesse ponto uma noite em que estávamos de novo na estalagem, bêbados como sempre. De fato, estávamos naquele momento da embriaguez que nós dois passamos a chamar de o Momento Dourado, quando tudo fazia sentido. Sempre tentávamos prolongar esse momento e depois, de maneira inevitável, um de nós confessaria: “Não consigo acompanhar mais, acho que o Momento Dourado passou.”
Nessa noite, olhando pela janela para a lua sobre as montanhas, eu disse que nos Momentos Dourados até que não era tão terrível assim não estarmos em Paris, não estarmos na Ópera ou na Comédie, esperando a cortina subir.
— Você e os teatros de Paris — ele me disse. — Não importa sobre o que estamos conversando, você sempre volta aos teatros e atores...
Seus olhos castanhos estavam muito abertos e confiantes. E, mesmo bêbado como estava, parecia bem-vestido com sua sobrecasaca de veludo vermelho feita em Paris.
— Atores e atrizes são mágicos — eu disse. — Fazem as coisas acontecer no palco, inventam, criam.
— Espere até você ver o suor escorrendo em seus rostos pintados sob o brilho da ribalta — ele respondeu.
— Ah, lá vem você de novo — eu disse. — E logo você que desistiu de tudo para tocar violino.
De repente, ele ficou terrivelmente sério, olhando para o lado como se estivesse cansado de suas próprias lutas pessoais.
— Isso eu fiz mesmo — ele confessou.
Naquela altura, toda a aldeia sabia que ele e seu pai estavam em guerra. Nicki não voltaria para a escola em Paris.
— Você cria vida quando representa — eu disse. — Cria algo a partir do nada. Faz acontecer algo de bom. E, para mim, isso é abençoado.
— Eu faço música e isso me deixa feliz — ele disse. — O que há de abençoado ou de bom nisso?
Fiz um gesto de desprezo como sempre fazia agora diante do seu cinismo.
— Durante todos esses anos vivi entre aqueles que não criam coisa alguma e não mudam nada — eu disse. — Atores e músicos... para mim, eles são santos.
— Santos? — ele perguntou. — Santidade? Bondade? Lestat, sua linguagem me desconcerta.
Eu sorri e balancei a cabeça.
— Você não compreende. Estou falando do caráter dos seres humanos e não do que eles acreditam. Estou falando daqueles que não aceitam uma vida imbecil, só porque nasceram para ela. Refiro-me àqueles que tentam ser algo melhor. Aqueles que trabalham, se sacrificam, fazem coisas...
Ele ficou comovido com isso e eu um tanto quanto surpreso por tê-lo dito. No entanto, senti que o havia magoado de alguma forma.
— Há algo de abençoado nisso — eu disse. — De santidade. E com Deus ou sem Deus, há virtude nisso. Sei disso da maneira como sei que as montanhas estão lá fora, que as estrelas brilham.
Ele me olhou com tristeza. E ainda parecia magoado. Mas, por enquanto, eu não pensava nele.
Estava pensando na conversa que tivera com minha mãe e na minha idéia de que não poderia ser bom desafiar minha família. Mas se eu acreditasse no que estava dizendo...
Ele perguntou como se pudesse ler minha mente:
— Mas você acredita realmente nessas coisas?
— Talvez sim. Talvez não — eu disse. Não podia suportar vê-lo tão triste assim.
E creio que mais por conta disso do que por qualquer outra coisa, eu lhe contei toda a história de como havia fugido com os atores. Contei o que nunca dissera a ninguém, nem mesmo a minha mãe, sobre aqueles poucos dias e a felicidade que me proporcionaram.
— Pois bem, como não poderia ter sido bom — perguntei — dar e receber tal felicidade? Nós demos vida àquela cidade quando encenamos nossa peça. Mágica, eu lhe digo. Poderia curar os doentes, poderia.
Ele sacudiu a cabeça. E eu sabia que havia coisas que ele desejava dizer, que, por respeito a mim, deixava em silêncio.
— Você não compreende, não? — perguntei.
— Lestat, o pecado sempre parece bom — ele disse com ar grave. — Não entende isso? Por que você acha que a Igreja sempre condenou os atores? Foi de Dionísio, o deus do vinho, que o teatro surgiu. Pode-se ler isso em Aristóteles. E Dionísio era um deus que levava os homens à devassidão. Foi bom para você estar naquele palco porque era lascivo e devasso... o antiqüíssimo culto do deus das vinhas... e você estava achando divertido desafiar seu pai...
— Não, Nicki. Não, mil vezes não.
— Lestat, somos cúmplices no pecado — ele disse sorrindo enfim. — Sempre fomos. Nós dois nos comportamos mal, ambos fomos extremamente indecorosos. É isto que nos une.
Agora foi a minha vez de parecer triste e magoado. E o Momento Dourado desaparecera sem prorrogação — a menos que acontecesse algo de novo.
— Vamos — eu disse de repente. — Pegue seu violino e vamos para algum lugar do bosque onde a música não acorde ninguém. Veremos se há alguma virtude nisso.
— Você é louco! — ele disse, mas agarrou a garrafa fechada pelo gargalo e no mesmo instante se dirigiu à porta.
Eu estava bem atrás dele.
Quando saiu de sua casa com o violino, disse:
— Vamos ao lugar das bruxas! Olhe, é lua crescente. A noite está clara. Faremos a dança do diabo e tocaremos para os espíritos das bruxas.
Dei uma risada. Eu tinha que estar bêbado para concordar com aquilo.
— Vamos reconsagrar o local — eu insisti — com a boa e pura música. Havia muitos e muitos anos que eu não ia ao lugar das bruxas.
A lua estava clara o bastante, como ele havia dito, para se ver as estacas carbonizadas em seu círculo assustador e o solo onde nunca mais nada brotara, mesmo cem anos após as fogueiras. As árvores novas da floresta mantinham-se à distância. De modo que o vento varria a clareira, e acima dela, pendurada na encosta rochosa, a aldeia flutuava nas trevas.
Um ligeiro calafrio passou por mim, mas foi a mera lembrança da angústia que eu sentira em criança ao ouvir aquelas palavras horríveis “queimadas vivas”, imaginando o sofrimento.
A renda branca de Nicki brilhava à pálida luz do luar, e ele começou a tocar uma música cigana e a dançar em círculos enquanto tocava.
Sentei-me num toco de árvore largo e carbonizado e bebia direto na garrafa. E veio aquele sentimento de dor, como sempre acontecia quando ouvia a música. Que pecado havia ali, pensei, a não ser o de sobreviver naquele lugar horrível? E em pouco tempo, eu chorava silenciosa e discretamente.
Embora parecesse que a música não houvesse parado, Nicki estava consolando-me. Estávamos sentados lado a lado e ele me disse que o mundo era cheio de iniqüidades, que éramos prisioneiros, ele e eu, daquela região remota e medonha da França e que algum dia iríamos fugir dali. E eu pensei em minha mãe no castelo, lá em cima na montanha, e a tristeza me entorpeceu até ficar insuportável, e Nicki começou a tocar de novo, dizendo-me para dançar e esquecer tudo.
Sim, é isso que ela pode fazer com você, eu quis dizer. É isso pecado? Como pode ser o mal? Fui atrás dele enquanto ele dançava em círculos. As notas pareciam estar voando para fora do violino, como se fossem feitas de ouro. Eu quase podia vê-las brilhando. Agora, eu dançava e dançava em volta dele enquanto ele se movia para a frente e para trás executando uma música mais profunda e exaltada. Abri as abas da capa forrada de pele e joguei a cabeça para trás a fim de olhar a lua. A música elevava-se em volta de mim como fumaça e não havia mais o lugar das bruxas. Havia apenas o céu acima arqueando-se sobre as montanhas.
Nos dias que se seguiram, tudo isso serviu para nos aproximar ainda mais.
Mas algumas noites depois aconteceu algo totalmente extraordinário.
Era tarde. Estávamos na estalagem de novo e Nicolas, que andava de um lado para o outro no quarto e gesticulava dramaticamente, colocou em palavras o que estivera em nossas mentes o tempo todo.
Que devíamos fugir para Paris, mesmo se estivéssemos sem um centavo, que era melhor do que permanecer ali. Mesmo se vivêssemos como mendigos em Paris! Tinha que ser melhor.
Claro que ambos vínhamos desenvolvendo isso.
— Bem, mendigos nas ruas podia ser, Nicki — eu disse. — Porque serei condenado no inferno antes de bancar o primo pobre do campo pedindo esmola nas casas da nobreza.
— Você acha que quero que você faça isso? — ele perguntou. — Estou falando de fugir, Lestat — disse. — Apesar deles, de todos eles.
Será que eu queria continuar daquele jeito? Que nossos pais nos amaldiçoassem. Afinal de contas, nossa vida não tinha sentido ali.
Claro que ambos sabíamos que essa fuga conjunta seria mil vezes mais grave do que aquela que eu havia empreendido antes. Já não éramos mais garotos, éramos homens. Nossos pais nos amaldiçoariam, e isto era algo que nenhum de nós poderia tratar com desdém.
E também tínhamos idade suficiente para saber o que a pobreza significava.
— O que vou fazer em Paris quando estivermos com fome? — perguntei. — Caçar ratos para o jantar?
— Tocarei meu violino em troca de moedas no bulevar du Temple, se for preciso, e você pode ir aos teatros! — Agora, ele estava realmente me desafiando, estava dizendo: “É só conversa fiada sua, Lestat? Com sua aparência, você sabe, em pouco tempo estaria no palco no bulevar du Temple.”
Adorei essa mudança na “nossa conversa”! Adorei vê-lo acreditar que poderíamos fazer isso. Todo seu cinismo desaparecera, muito embora ele empregasse a palavra “apesar” em cada dez palavras que falasse. De repente, parecia possível fazer tudo aquilo.
E aquela noção da falta de sentido de nossas vidas ali começou a nos inflamar.
Insisti na idéia de que a música e a representação eram boas porque afastavam o caos. Caos era a falta de sentido da vida cotidiana e, se morrêssemos agora, nossas vidas não teriam sido outra coisa que sem sentido. De fato, ocorreu-me que a morte próxima de minha mãe era sem sentido e confidenciei a Nicolas o que ela dissera. “Estou absolutamente horrorizada. Estou com medo.”
Bem, se tinha havido um Momento Dourado naquele quarto, já havia desaparecido agora. E uma coisa diferente começou a acontecer.
Devia ser chamado de Momento Sombrio, mas ainda era solene e cheio de uma luz lúgubre. Estávamos falando rapidamente, amaldiçoando aquela falta de sentido e, quando enfim Nicolas sentou-se e enfiou a cabeça nas mãos, eu tomei alguns entusiásticos goles de vinho e comecei a andar de um lado para o outro a gesticular, como ele fizera antes.
Percebi enquanto falava em voz alta que, mesmo quando morrêssemos, era provável que não descobríssemos a resposta de por que estivemos vivos. Mesmo o ateu confesso provavelmente pensa que na morte obterá alguma resposta. Quero dizer, Deus estará lá ou não haverá coisa alguma.
— Mas é apenas isso — eu disse —, nós não fazemos nenhuma descoberta na hora da morte! Apenas paramos! Passamos para a não-existência sem jamais saber de coisa alguma.
Eu via o universo, tinha uma visão do sol, dos planetas, das estrelas, da noite negra continuando para sempre. E comecei a rir.
— Você percebe isso? Jamais saberemos por que diabos tudo isso aconteceu, nem mesmo quando acaba! — berrei para Nicolas que estava recostado na cama, sacudindo a cabeça e bebendo o vinho de um garrafão. — Nós vamos morrer e nem vamos saber. Jamais saberemos, e toda essa falta de sentido vai continuar para sempre. E já não seremos mais testemunhas disso. Nem sequer temos o pequeno poder de dar sentido a isso em nossas mentes. Nós apenas vamos desaparecer, mortos, mortos, mortos, sem nem ao menos saber.
Mas eu havia parado de rir. Fiquei parado e compreendi perfeitamente o que estava dizendo!
Não havia nenhum Dia do Juízo Final, nenhuma explicação derradeira, nenhum momento luminoso no qual todos os erros terríveis fossem corrigidos, todos os horrores redimidos.
As bruxas queimadas nas estacas jamais seriam vingadas.
Ninguém jamais nos esclareceria coisa alguma.
Não, eu não compreendia isso naquele momento. Eu via! E comecei a emitir um único som: “oh!”, e disse de novo “oh!”, depois disse cada vez mais alto e mais alto e mais alto, e deixei a garrafa de vinho cair no chão. Levei as mãos à cabeça e fiquei dizendo isso, e podia ver minha boca aberta naquele círculo perfeito que descrevera para minha mãe e fiquei dizendo: “oh, oh, oh!”
Eu disse como um grande soluço que não podia parar. E Nicolas me segurou e começou a me sacudir, dizendo:
— Lestat, pare!
Eu não conseguia parar. Corri até a janela, levantei o trinco, empurrei para fora a pequena vidraça pesada e olhei para as estrelas. Não pude suportar vê-las. Não pude suportar ver o puro vazio, o silêncio, a ausência absoluta de alguma resposta, e comecei a uivar enquanto Nicolas me afastava do peitoril da janela e fechava o vidro.
— Você vai ficar bem — ele disse várias e várias vezes.
Alguém estava batendo na porta. Era o dono da estalagem, perguntando porque tínhamos que nos comportar daquela maneira.
— Você se sentirá melhor pela manhã — Nicolas ficou insistindo. — Apenas precisa dormir.
Tínhamos acordado todo mundo. Eu não conseguia acalmar-me. Continuei emitindo o mesmo som várias vezes. E saí correndo da estalagem, com Nicolas atrás de mim, desci a rua da aldeia e subi em direção ao castelo, com Nicolas tentando alcançar-me, atravessei os portões e subi para meu quarto.
— Durma, é disso que você precisa — ele ficou dizendo para mim, de maneira desesperada. Eu estava deitado apoiado na parede, com as mãos nos ouvidos, e aquele som continuava saindo: “oh, oh, oh.”
— De manhã — ele disse — estará melhor.
Bem, não estava melhor de manhã.
E não estava melhor ao anoitecer; na verdade, ficou pior com a chegada da escuridão.
Eu andava e andava e gesticulava como um ser humano normal, mas estava torturado. Estava tremendo. Meus dentes batiam. Eu não conseguia parar. Eu olhava horrorizado para tudo ao meu redor. A escuridão me aterrorizava. A visão das velhas armaduras no salão me aterrorizava. Eu olhava para a maça e o mangual que havia levado para perseguir os lobos. Olhava para os rostos de meus irmãos. Olhava para tudo, vendo a mesma coisa por trás de cada configuração de cores, luz e sombras: a morte. Só que não era a morte como eu pensava nela antes; era a morte da maneira como a via agora. Morte real, morte total, inevitável, irreversível, que não esclarecia coisa alguma.
E, nesse insuportável estado de agitação, comecei a fazer algo que nunca antes havia feito. Voltei-me para aqueles em meu redor e questionei-os sem parar.
— Mas você acredita em Deus? — perguntei a meu irmão Augustin. — Como pode viver se não acredita?
— Mas acredita realmente em alguma coisa? — perguntei a meu pai cego. — Se você soubesse que iria morrer neste exato minuto, esperaria encontrar Deus ou as trevas? Diga-me.
— Você está louco, sempre foi louco! — ele gritou. — Saia desta casa! Você vai nos deixar loucos.
Ele levantou-se, o que era difícil para ele, por ser aleijado e cego, tentou jogar sua taça em mim e errou, claro.
Eu não conseguia olhar para minha mãe. Não conseguia ficar perto dela. Não queria fazê-la sofrer com minhas perguntas. Desci para a estalagem. Não suportava pensar no lugar das bruxas. Não teria caminhado até aquele canto da aldeia por coisa alguma! Colocava as mãos em meus ouvidos e fechava os olhos. “Vão embora”, eu dizia quando pensava naqueles que haviam morrido daquele jeito, sem jamais, jamais compreenderem nada.
No segundo dia, não estava melhor.
E não estava nem um pouco melhor no final daquela semana.
Eu comia, bebia, dormia, mas todo momento acordado era puro pânico e pura dor. Fui ao padre da aldeia e perguntei se ele realmente acreditava que o Corpo de Cristo estava presente no altar quando da Consagração. E, após ouvir suas respostas gaguejadas e ver o medo em seus olhos, fui embora mais desesperado do que antes.
— Mas como você vive, como continua respirando, andando e fazendo coisas quando sabe que não existe nenhuma explicação? — eu estava delirando no final. E então Nicolas disse que talvez a música me fizesse sentir melhor. Ele tocaria o violino.
Fiquei com medo da intensidade disso. Mas fomos ao pomar e, à luz do sol, Nicolas tocou cada canção que sabia. Fiquei sentado ali, com os braços cruzados e os joelhos encolhidos, os dentes batendo embora estivéssemos bem no sol quente, e o sol brilhava no pequeno violino lustrado. Eu observava Nicolas balançando-se com a música diante de mim, enquanto os rudes sons puros dilatavam-se magicamente para encher o pomar e o vale, embora não fosse mágica, e no final Nicolas pôs os braços em volta de mim e nós apenas ficamos ali em silêncio. Então ele disse de maneira muito suave:
— Lestat, creia-me, isso vai passar.
— Toque de novo — eu disse. — A música é inocente.
Nicolas sorriu e concordou com um aceno de cabeça. Mimar o louco.
E eu sabia que não iria passar e nada por enquanto poderia fazer-me esquecer, mas o que sentia era uma gratidão inexprimível pela música, que naquele horror pudesse haver algo tão belo quanto ela.
Você não podia compreender coisa alguma, nem mudar nada. Mas poderia fazer uma música como aquela. E senti a mesma gratidão quando vi as crianças da aldeia dançando, quando vi seus braços levantados e os joelhos dobrados, com os corpos girando ao ritmo das músicas que cantavam. Comecei a chorar ao observá-las.
Perambulei até a igreja e, de joelhos, encostei-me na parede e olhei para as estátuas antigas, sentindo a mesma gratidão ao olhar para os dedos finamente cinzelados, os narizes, as orelhas, a expressão em seus rostos e as dobras das roupas, e não pude impedir-me de chorar.
Pelo menos tínhamos aquelas coisas belas, eu disse. Aquela bênção.
Mas nada que fosse natural me parecia belo agora. A mera visão de uma enorme árvore solitária na campina me fazia tremer e chorar. Que o pomar se enchesse de música.
E deixem-me contar-lhes um pequeno segredo. Nunca passou, realmente.


6

O que teria provocado aquilo? Foi a conversa e a bebida no fim de noite, ou teria a ver com minha mãe e o fato de ela ter dito que iria morrer? Teriam os lobos alguma coisa a ver com isso? Seria um feitiço lançado na imaginação pelo lugar das bruxas? Não sei. Chegou como uma coisa que veio de fora e se instalou em mim. Num minuto era uma idéia, no outro era real. Creio que se pode atrair esse tipo de coisa, mas não se pode fazê-la vir.
Claro que abrandou. Mas nunca mais o céu foi da mesma tonalidade de azul de novo. Quero dizer que depois o mundo pareceu diferente para sempre, e mesmo nos momentos de apurada felicidade, havia as trevas à espreita, a sensação de nossa fragilidade e desesperança.
Talvez fosse um pressentimento. Mas não creio. Era mais do que isso e, para ser franco, não acredito em pressentimentos.
Mas, voltando aos fatos, durante todo esse infortúnio, me mantive afastado de minha mãe. Não iria dizer para ela aquelas coisas monstruosas sobre a morte e o caos. Mas ela ouvia todo mundo dizer que eu havia perdido a razão.
E finalmente, na noite do primeiro domingo da Quaresma, ela me procurou.
Eu estava sozinho no quarto e todos da casa haviam descido à aldeia ao crepúsculo para ver a grande fogueira, como era o costume se fazer naquela noite todos os anos.
Eu sempre odiei esta celebração. Tinha algo de horripilante — o crepitar das chamas, as danças e os cantos, os camponeses percorrendo depois as plantações com suas tochas ao som de suas estranhas canções.
Tivemos um padre durante pouco tempo que chamava a cerimônia de pagã. Mas livraram-se dele com bastante rapidez. Os lavradores de nossas montanhas seguiam os velhos rituais. Era para fazer as árvores produzirem e as colheitas crescerem, tudo isso. E, nessa ocasião, mais do que em qualquer outra, achei que estava vendo a espécie de homens e mulheres capazes de queimar bruxas.
Em minha disposição de ânimo atual, aquilo gerava pânico. Sentei-me junto a minha pequena fogueira, tentando resistir ao impulso de ir até a janela e olhar para o enorme fogo que me atraía com tanta força quanto me assustava.
Minha mãe entrou, fechou a porta atrás de si e disse que precisava conversar comigo. Seus modos eram pura ternura.
— O que aconteceu com você foi por causa de minha morte? — ela perguntou. -Diga-me se foi. E coloque suas mãos nas minhas.
Até me beijou. Estava frágil em seu penhoar desbotado, os cabelos desfeitos. Eu não podia suportar ver os traços grisalhos neles. Ela parecia estar definhando.
Mas contei-lhe a verdade. Disse que não sabia e depois expliquei um pouco do que acontecera na estalagem. Tentei não transmitir o horror da coisa, a estranha lógica de tudo. Tentei não tornar a coisa tão absoluta.
Ela ouviu e depois disse:
— Você é um lutador, meu filho. Nunca aceita. Você não aceitará nem mesmo quando for o destino de toda a humanidade.
— Não posso! — eu disse com tristeza.
— Eu o amo por isso — ela disse. — É bem típico seu ter percebido isso num minúsculo quarto de estalagem, tarde da noite, quando estava bebendo vinho. E é inteiramente típico de você enfurecer-se da maneira como se enfureceu contra tudo.
Comecei a chorar de novo embora soubesse que ela não estava condenando-me. Então ela pegou um lenço, abriu-o e mostrou várias moedas de ouro.
— Você vai superar isso — ela disse. — Por enquanto, para você a morte pode estragar a vida. Mas a vida é mais importante do que a morte. Você vai perceber isso logo. Agora ouça o que tenho a dizer. Mandei chamar o médico aqui e a velha da aldeia que sabe mais sobre cura do que ele. Ambos concordam comigo que não viverei muito tempo.
— Pare, mãe — eu disse consciente de que estava sendo muito egoísta, mas sem conseguir conter-me. — E dessa vez não haverá presentes. Guarde o dinheiro.
— Sente-se — ela disse.
Apontou para o banco próximo à lareira. Fiz o que ela mandou, relutante. Ela sentou-se ao meu lado.
— Eu sei — ela disse — que você e Nicolas estão pensando em fugir.
— Não irei, mãe...
— Vai esperar a minha morte?
Não respondi. Não posso descrever o que sentia. Eu ainda estava sofrendo, trêmulo, e tínhamos que conversar sobre o fato de que aquela mulher que ainda respirava com vida iria parar de viver e respirar e começaria a apodrecer e se decompor, que sua alma giraria para um abismo, que tudo que ela havia sofrido na vida, inclusive o fim desta, seria reduzido a nada, em absoluto. Seu rosto pequeno parecia uma pintura em um véu.
E da aldeia distante chegava o fraco som do povo que cantava.
— Lestat, quero que você vá a Paris — ela disse. — Quero que pegue este dinheiro que é tudo que me sobrou de minha família. Quero saber que você está em Paris, Lestat; quando chegar minha hora, quero morrer sabendo que você está em Paris.
Fiquei assustado. Lembrei-me de sua expressão abatida anos atrás, quando me trouxeram de volta da trupe italiana. Fiquei olhando para ela durante um longo tempo. Ela falava quase zangada, tentando me persuadir.
— Estou aterrorizada com a morte — ela disse com voz quase ríspida. — E juro que ficarei louca se não souber que está em Paris e está livre, quando ela enfim chegar.
Indaguei-a com meus olhos. Eu estava perguntando-lhe com meus olhos: “Você está realmente falando sério?”
— Sem dúvida que o mantive aqui tanto quanto seu pai — ela disse. — Não por orgulho, mas sim por egoísmo. E agora vou reparar isto. Verei você partir. E não me importa o que fará quando chegar em Paris, se você canta enquanto Nicolas toca violino, ou se dá saltos mortais no palco da feira de St.-Germain. Mas vá e faça o que tem de fazer da melhor maneira possível.
Tentei tomá-la em meus braços. A princípio, ela ficou dura, mas depois senti que relaxava, e ela se entregou de modo tão completo a mim naquele momento que creio que compreendi por que havia sido sempre tão contida. Ela chorou, coisa que eu jamais a vira fazer. E eu amei aquele momento com toda sua dor. Fiquei envergonhado por isso, mas não deixei que ela se afastasse. Abracei-a com força e talvez a tenha beijado por todas as vezes que não me deixou fazer isso. Naquele momento, parecíamos duas partes de uma só coisa.
E então ela ficou calma. Pareceu serenar e, lenta porém firmemente, foi soltando-se de mim e afastando-me.
Falou durante um longo tempo. Disse coisas que então não compreendi, que quando me via saindo a cavalo para caçar sentia um prazer maravilhoso, que sentia esse mesmo prazer quando eu irritava a todos e bombardeava meu pai e meus irmãos com perguntas de por que tínhamos de viver da maneira que vivíamos. Falou de uma maneira quase sobrenatural sobre eu ser uma parte secreta de sua anatomia, sobre eu ser para ela o órgão que as mulheres de fato não têm.
— Você é o homem que há em mim — ela disse. — Por isso o mantive aqui, com medo de viver sem você e talvez agora, ao mandá-lo embora, eu apenas esteja fazendo o que fiz antes.
Ela me chocou um pouco. Nunca pensei que uma mulher pudesse sentir ou articular uma coisa como aquela.
— O pai de Nicolas sabe dos seus planos — ela disse. — O dono da estalagem ouviu vocês em segredo. É importante que vocês partam agora mesmo. Pegue a diligência ao amanhecer e escreva-me assim que chegar a Paris. Há missivistas no cemitério de Les Innocents, próximo ao mercado de St.-Germain. Encontre um que saiba escrever em italiano para você. Depois ninguém a não ser eu poderá ler a carta.
Quando ela deixou o quarto, não acreditei direito no que havia acontecido. Por um longo momento, fiquei olhando fixo para a frente. Olhei fixo para minha cama com seu colchão de palha, para os dois casacos que eu possuía e a capa vermelha, e meu único par de sapatos de couro junto à lareira. Olhei pela estreita abertura de uma janela a massa volumosa e negra das montanhas que conhecera durante toda a vida. A escuridão, o desalento afastaram-se de mim por um precioso momento.
E depois desci correndo as escadarias e a montanha em direção à aldeia para ir encontrar Nicolas e dizer-lhe que iríamos para Paris! Nós íamos fazer isto. Dessa vez, nada poderia deter-nos.
Ele estava com sua família, observando a fogueira. E assim que me viu, jogou o braço em torno de meu pescoço, eu enganchei meu braço em volta de sua cintura e arrastei-o para longe das multidões e das chamas em direção ao fim da campina.
O ar cheirava a frescor e verde como só acontece na primavera. Até mesmo o canto dos aldeões não soava tão horrível assim. Eu comecei a dançar em círculos.
— Pegue seu violino! — eu disse. — Toque uma música sobre ir a Paris, pois estamos a caminho. Partiremos pela manhã.
— E como vamos comer em Paris? — ele cantou fingindo tocar um violino invisível com as mãos vazias. — Você vai caçar ratos para a nossa ceia?
— Não pergunte o que faremos quando chegarmos lá! — eu disse. — O importante é apenas chegar lá.


7

Não se passaram nem quinze dias e lá estava eu, no meio da multidão do meio-dia no vasto cemitério público de Les Innocents, com suas velhas criptas funerárias e fedorentos túmulos abertos — o mercado mais fantástico que já vi — e, em meio ao fedor e ao barulho, inclinado sobre um missivista italiano ditando a primeira carta para minha mãe.
Sim, havíamos chegado em segurança após viajar dia e noite, tínhamos alugado um quarto na Île de la Cité, estávamos com uma felicidade indizível, Paris era quente, linda e magnífica mais do que se podia imaginar.
Gostaria de poder pegar eu mesmo a pena e escrever para ela.
Gostaria de poder dizer-lhe como era ver aquelas mansões muito altas, as antigas ruas sinuosas apinhadas de mendigos, vendedores ambulantes e nobres, casas de quatro e cinco andares margeando os bulevares repletos de gente.
Gostaria de poder descrever-lhe as carruagens, com seus enfeites dourados e seus vidros abrindo caminho sobre a Pont Neuf e a Pont Notre Dame, correndo diante do Louvre, do Palais Royal.
Gostaria de poder descrever as pessoas, os cavalheiros usando meias com babados e bengalas de prata, saltitando na lama com sapatos em tom pastel; as damas com suas perucas incrustadas de pérolas e oscilantes anquinhas de seda e musselina, a minha primeira visão da própria rainha Maria Antonieta caminhando corajosamente pelos jardins das Tulherias.
Claro que ela já havia visto isto anos e anos antes de eu nascer. Tinha vivido com o pai em Nápoles, Londres e Roma. Mas queria contar-lhe o que ela me dera, como era ouvir o coro em Notre Dame, entrar com Nicolas nos cafés apinhados, conversar com os antigos colegas dele e beber café inglês, como era estar vestido com as finas roupas de Nicolas — ele me forçou a fazer isso — e ficar sob as luzes da ribalta na Comédie Française, olhando com adoração os atores no palco.
Mas a melhor parte dessa carta talvez tenha sido quando comuniquei o endereço da água-furtada que chamávamos de lar na Île de la Cité, e a notícia:
“Fui contratado por um teatro de verdade para aprender a profissão de ator com uma bela perspectiva de me apresentar muito em breve.”
O que não lhe contei foi que tínhamos de subir seis lances de escada até nosso quarto, que homens e mulheres brigavam e gritavam nas travessas abaixo de nossas janelas, que já estávamos sem dinheiro graças ao fato de eu arrastar nós dois para cada ópera, balé e peça de teatro da cidade. Que o estabelecimento em que eu trabalhava era um pequeno e maltrapilho teatro de bulevar, a um passo de um palanque da feira; que minhas tarefas eram ajudar os atores a se vestir, vender ingressos, varrer e colocar na rua os encrenqueiros.
Mas eu estava no paraíso de novo. E Nicolas também, embora nenhuma orquestra decente da cidade o contratasse. Agora ele estava tocando solos com o pequeno bando de músicos no teatro onde eu trabalhava e, quando estávamos realmente no aperto, ele tocava no bulevar, comigo ao seu lado segurando o chapéu. Éramos descarados!
Subíamos a escada toda noite com nossa garrafa de vinho barato e um pedaço do excelente pão parisiense que era o manjar dos deuses depois do que havíamos comido em Auvergne. E, à luz de nossa única vela de sebo, aquele sótão era o lugar mais glorioso que já havia habitado.
Como mencionei antes, raras vezes havia estado num quartinho de madeira, exceto na estalagem. Bem, aquele quarto tinha paredes e teto de reboco! Era realmente Paris! Tinha assoalho de madeira polida e até uma minúscula lareira com uma chaminé nova, que na verdade formava uma corrente de ar.
Assim, pouco importava se tínhamos que dormir em catres encaroçados e os vizinhos nos acordavam brigando. Estávamos acordando em Paris e podíamos caminhar sem destino, de braços dados, por horas através de ruas e travessas, espiando lojas cheias de jóias e pratarias, tapetes e estátuas, riquezas tais que eu nunca havia visto antes. Até mesmo os infectos mercados de carne me encantavam. O barulho e estardalhaço da cidade, a incansável atividade de seus milhares e milhares de trabalhadores, funcionários, artesãos, as idas e vindas de uma multidão sem fim.
De dia eu quase esquecia a visão que tivera na estalagem, e as trevas. A menos é claro que eu vislumbrasse um cadáver não recolhido em alguma travessa imunda, dos quais havia muitos, ou então se eu topasse por acaso com uma execução pública na Place de Grève.
E eu sempre me deparava com uma execução pública na Place de Grève.
Eu saía da praça tremendo, quase chorando. Era capaz de ficar obcecado com isso, se não enlouquecido. Mas Nicolas era inflexível.
— Lestat, nada de falar do eterno, do imutável, do impenetrável! — Ele ameaçava bater em mim ou me sacudir se eu começasse.
E quando chegava o crepúsculo — a hora que eu odiava mais que nunca —, tivesse eu visto ou não uma execução, tivesse o dia sido glorioso ou exasperante, eu começava a tremer. E só uma coisa me salvava disso: o calor e a excitação do teatro brilhantemente iluminado, e eu fazia tudo para estar lá dentro antes do cair da noite.
Pois bem, na Paris daqueles tempos, os teatros dos bulevares nem sequer eram casas legalizadas. Só a Comédie Française e o Théâtre des Italiens eram estabelecimentos sancionados pelo governo e cabia a eles representar todas as peças sérias. Isto incluía tanto a tragédia como a comédia, as peças de Racine, de Corneille, do brilhante Voltaire.
Mas a velha comédia italiana que eu adorava — Pantaleão, Arlequim, Scaramouche e outros — continuava como sempre fora, com equilibristas na corda-bamba, acrobatas, malabaristas e marionetes, no palanque de espetáculos das feiras de St.-Germain e de St.-Laurent.
E os teatros de bulevar eram originários dessas feiras. Em minha época, as últimas décadas do século XVIII, eram estabelecimentos permanentes ao longo do bulevar du Temple e, embora se apresentassem para os pobres que não tinham dinheiro para as grandes casas, também reuniam uma platéia muito abastada. Muita gente da aristocracia e da rica burguesia lotava os camarotes para assistir às apresentações de bulevar, porque eram alegres e cheias de bons artistas, não tão formais como as peças do grande Racine e do grande Voltaire.
Nós fazíamos a comédia italiana da maneira como havíamos aprendido, cheia de improvisos, de modo que a cada noite era nova e diferente, embora sempre fosse a mesma. E também cantávamos e fazíamos todos os tipos de absurdo, não apenas porque as pessoas adoravam, mas porque éramos obrigados: não podíamos ser acusados de quebrar o monopólio dos teatros do estado sobre as peças oficiais.
A casa em si era uma ratoeira de madeira que corria o risco de desmoronar, com assentos para não mais que trezentas pessoas, mas seu pequeno palco e cenários eram elegantes; tinha uma luxuosa cortina de veludo azul e os camarotes particulares tinham também cortinas. Seus atores e atrizes eram experientes e verdadeiramente talentosos, ou pelo menos era o que me parecia.
Mesmo se eu não houvesse adquirido aquele recente pavor da escuridão, aquela “doença da mortalidade”, como Nicolas insistia em chamá-la, não poderia ter sido mais emocionante a entrada por aquela porta do palco.
Durante cinco ou seis horas todas as noites, eu vivia e respirava num pequeno universo de homens e mulheres que gritavam, riam e brigavam, lutando em favor desse aqui e contra aquele outro, sendo todos nós companheiros nos bastidores, mesmo que não fôssemos amigos. Talvez fosse como estar num pequeno bote no meio do oceano, com todos nós trabalhando em conjunto, incapazes de escaparmos uns dos outros. Era divino.
Nicolas era um pouco menos entusiasmado, mas isso era de se esperar. E ficava ainda mais irônico quando seus ricos amigos estudantes apareciam para conversar com ele. Achavam-no um louco por viver como vivia. E para mim, um nobre que empurrava atrizes para dentro de seus trajes e esvaziava baldes de água suja, eles não tinham palavras, em absoluto.
Claro que tudo que aqueles jovens burgueses desejavam de fato era ser aristocratas. Compravam títulos, casavam-se com membros de famílias aristocráticas sempre que podiam. E é uma das pequenas ironias da História o fato de terem se envolvido com a Revolução, ajudando a abolir a classe a qual de fato desejavam juntar-se.
Não me importava se jamais víssemos de novo os amigos de Nicolas. Os atores não sabiam nada sobre minha família e descartei meu verdadeiro nome, de Lioncourt, em favor do muito simples Lestat de Valois, que na verdade não significava coisa alguma.
Eu estava aprendendo tudo que podia sobre teatro. Memorizava, imitava. Fazia infinitas perguntas. E a cada noite interrompia meus estudos o tempo suficiente para aquele momento em que Nicolas tocava seu solo no violino. Ele erguia-se de seu assento na diminuta orquestra, o projetor de luz o destacava dos outros e ele atacava uma pequena sonata, bem suave e apenas curta o suficiente para fazer o teatro vir abaixo.
E durante todo o tempo eu sonhava com meu próprio momento, quando os velhos atores a quem eu observava, importunava, imitava e servia como um lacaio diriam finalmente: “Está bem, Lestat, hoje à noite vamos precisar de você como Lelio. Pois bem, você deve saber o que fazer.”
O momento chegou enfim no final de agosto.
Paris estava em sua época mais quente, as noites eram cálidas e a casa estava cheia com uma platéia irrequieta, que se abanava com lenços e folhetos. A grossa pintura branca derretia-se em meu rosto enquanto eu a passava.
Eu usava uma espada de papelão com o melhor casaco de veludo de Nicolas e estava tremendo antes de pisar no palco, imaginando que aquilo seria como ficar esperando para ser executado ou algo parecido.
Mas assim que entrei no palco, virei-me e olhei direto para a sala apinhada de gente e aconteceu a coisa mais estranha. O medo evaporou-se.
Eu sorri exultante para a platéia e me curvei bem devagar. Fitei a encantadora Flaminia como se a estivesse vendo pela primeira vez. Eu tinha que conquistá-la. E a brincadeira começou.
Eu dominava o palco como havia ocorrido anos e anos atrás naquela remota cidade do campo. E enquanto saracoteávamos como loucos no tablado — brigando, abraçando, fazendo palhaçadas — as risadas sacudiam a casa.
Eu podia sentir a atenção como se fosse um abraço. Cada gesto, cada fala arrancava risos da platéia — era quase fácil demais — e teríamos continuado ali por mais meia hora se os outros atores, ansiosos para passarem à próxima trama, como a chamavam, não nos tivessem forçado enfim em direção aos bastidores.
A multidão estava de pé para nos aplaudir. E não era aquela platéia do interior sob céu aberto. Eram parisienses que gritavam pelo retorno de Lelio e Flaminia.
Nas sombras dos bastidores, tive vertigens. Quase desfaleci. Por enquanto, não podia ver coisa alguma a não ser a visão da platéia me fitando por sobre as luzes do palco. Queria voltar logo para o palco. Agarrei Flaminia, beijei-a e percebi que ela correspondia ao meu beijo de maneira apaixonada.
Então Renaud, o velho administrador, afastou-a de mim.
— Muito bem, Lestat — ele disse como se estivesse zangado com alguma coisa. — Muito bem, você se saiu bem. A partir de agora, vou deixar que se apresente regularmente.
Mas, antes que eu pudesse pular de alegria, metade da trupe se materializou em volta de nós. E Luchina, uma das atrizes, foi logo falando.
— Ah, não, você não vai deixar que ele se apresente regularmente! — ela disse. — Ele é o ator mais bonito do bulevar du Temple e você vai contratá-lo direito e pagá-lo direito por isso. Ele não toca mais em vassoura ou pano de chão.
Eu estava aterrorizado. Minha carreira mal começara e estava prestes a acabar, mas para meu espanto Renaud concordou com todos os termos dela.
Claro que fiquei lisonjeado por ser chamado de bonito e compreendi, como compreendera anos atrás, que Lelio, o amante, deve ter considerável estilo. Um aristocrata com alguma educação era perfeito para o papel.
Mas se era para fazer com que as platéias de Paris me notassem de fato, se era para fazê-los falarem de mim na Comédie Française, eu tinha que ser mais do que um anjo de cabelos louros, caído no palco oriundo da família de um marquês. Eu tinha que ser um grande ator, e isso era exatamente o que eu estava determinado a ser.
Naquela noite, Nicolas e eu comemoramos com uma bebedeira colossal. Convidamos toda a trupe para o nosso quarto, eu subi no telhado escorregadio, abri meus braços para Paris e Nicolas tocou seu violino na janela até acordarmos toda a vizinhança.
A música era arrebatadora, mas as pessoas protestavam e gritavam nos becos, batendo em panelas e caçarolas. Não demos a menor atenção. Estávamos dançando e cantando como havíamos feito no lugar das bruxas. Eu quase caí da beirada da janela.
No dia seguinte, garrafa na mão, ditei toda a história para o missivista italiano, à fedorenta luz do amanhecer no Les Innocents, e tratei de fazer com que a carta fosse despachada de imediato para minha mãe. Eu queria abraçar todo mundo que via nas ruas. Eu era Lelio. Era um ator.
Em setembro, meu nome estava nos folhetos. E também os enviei para minha mãe.
E não estávamos fazendo a velha comédia. Estávamos representando uma farsa de um famoso escritor que, por causa de uma greve geral dos dramaturgos, não pôde ser apresentada na Comédie Française.
Claro que não podíamos dizer seu nome, mas todo mundo sabia que a obra era sua e a metade da corte estava lotando a Casa de Téspis de Renaud todas as noites.
Eu não era o protagonista, mas era o jovem amante, na verdade uma espécie de Lelio de novo, que era quase melhor do que o ator principal, e roubava todas as cenas em que aparecia. Nicolas me ensinara o papel, repreendendo-me constantemente por não ter aprendido a ler. E, na quarta apresentação, o autor escreveu falas adicionais para mim.
Nicki estava tendo seu próprio momento no intervalo, quando sua mais recente interpretação de uma pequena e frívola sonata de Mozart mantinha a platéia em seus assentos. Até mesmo seus amigos estudantes estavam de volta. Estávamos recebendo convites para bailes particulares. Pelo menos uma vez por semana eu me despencava para Les Innocents para escrever à minha mãe, e enfim enviei para ela o recorte de um jornal inglês, The Spectator, que elogiava nossa pequena peça e em especial o malandro de cabelo louro que roubava os corações das damas no terceiro e quarto atos. Claro que não pude ler esse recorte. Mas o cavalheiro que o levou para mim disse que era lisonjeira, e Nicolas jurou que também era.
Quando chegaram as primeiras noites geladas do outono, usei no palco a capa vermelha forrada de pele. Mesmo que se fosse quase cego, ela poderia ser vista da última fila da galeria. Agora, eu tinha mais jeito com a maquiagem branca, sombreando aqui e ali para acentuar os contornos de meu rosto, e embora meus olhos tivessem um círculo preto e meus lábios estivessem um pouco avermelhados, eu parecia assustador e humano ao mesmo tempo. Eu recebia bilhetes de amor das mulheres na platéia.
Nicolas estava estudando música pelas manhãs com um maestro italiano. Agora, tínhamos dinheiro suficiente para boa comida, lenha e carvão. As cartas de minha mãe chegavam duas vezes por semana e diziam que sua saúde tivera uma mudança para melhor. Ela não estava tossindo tanto como no último inverno. Não estava com dor. Mas nossos pais nos haviam rejeitado e não admitiam qualquer menção aos nossos nomes.
Nós estávamos felizes demais para nos preocupar com isso. Mas o pavor da escuridão, a “doença da mortalidade”, ainda estava comigo quando o inverno chegou.
O frio parecia pior em Paris. Não era limpo como nas montanhas. Os pobres se abrigavam nas soleiras das portas, trêmulos e famintos, as tortuosas ruas sem pavimento ficavam cobertas de neve lodosa e suja. Eu via crianças descalças sofrendo diante de meus olhos, e pelos cantos jaziam mais cadáveres abandonados do que antes. Nunca fiquei tão satisfeito com a capa forrada de pele do que então. Quando saíamos juntos, eu cobria Nicolas com ela e o mantinha próximo a mim, e nós caminhávamos num abraço apertado através da neve e da chuva.
Com frio ou sem ele, não posso exagerar a felicidade que senti naqueles dias. A vida era exatamente o que eu pensava que podia ser. E eu sabia que não ficaria muito tempo no teatro de Renaud. Todo mundo dizia isso. Eu tinha visões dos grandes palcos, de turnê por Londres, pela Itália e até pela América com uma grande trupe de atores. No entanto, não havia razão para me apressar. Minha taça estava cheia.


8

Mas, no mês de outubro, quando Paris já estava congelando, comecei a ver, com bastante regularidade, um estranho rosto na platéia que invariavelmente me distraía. Às vezes, quase me fazia esquecer o que eu estava fazendo, aquele rosto. E depois desaparecia como se houvesse sido minha imaginação. Devo tê-lo visto, de quando em quando, durante uma quinzena antes de enfim mencioná-lo para Nicki.
Eu me sentia ridículo e achei difícil expressar em palavras:
— Tem alguém me observando lá na platéia — eu disse.
— Todo mundo está observando você — Nicki disse. — É isso que você deseja. Ele se sentia um pouco tristonho naquela noite e sua resposta foi um tanto quanto ríspida.
Antes, quando estava acendendo a lareira, disse que jamais seria grande coisa com o violino. Apesar de seu ouvido e sua habilidade, havia muita coisa que não sabia. E eu seria um grande ator, ele tinha certeza. Eu disse que aquilo era absurdo, mas dizê-lo foi como uma sombra que caiu em minha alma. Lembrei-me de minha mãe dizendo que era tarde demais para ele.
Ele disse que não estava com inveja. Só estava um pouco infeliz, só isso.
Decidi deixar de lado a questão do rosto misterioso. Tentei pensar em alguma maneira de encorajá-lo. Lembrei-lhe que quando ele tocava despertava profundas emoções nas pessoas e que até os atores nos bastidores paravam para ouvi-lo. Ele tinha um talento inegável.
— Mas quero ser um grande violinista — ele disse. — E receio que jamais serei. Enquanto estávamos em casa, eu podia fingir que seria.
— Você não pode desistir! — eu disse.
— Lestat, deixe-me ser franco com você — ele disse. — As coisas são fáceis para você. Você consegue tudo que deseja. Sei no que você está pensando, em todos aqueles anos em que se sentiu infeliz em casa. Mas mesmo então, você conseguia tudo aquilo no que se empenhava. E nós partimos para Paris no mesmo dia em que você resolveu fazer isso.
— Você não está arrependido de ter vindo para Paris, está? — perguntei.
— Claro que não. Eu apenas estou querendo dizer que você pensa ser possíveis coisas que não são! Pelo menos, não para os outros. Como matar os lobos...
Um frio passou por mim quando ele disse isso. E, por alguma razão, pensei de novo naquele rosto misterioso da platéia, o tal que me observava. Alguma coisa a ver com os lobos. Alguma coisa a ver com os sentimentos que Nicki estava expressando. Não fazia sentido. Tentei dar de ombros.
— Se você planejasse tocar violino, é provável que neste momento estivesse tocando para a Corte — ele disse.
— Nicki, esse tipo de conversa é veneno — eu disse a meia-voz. — Você não pode fazer outra coisa a não ser tentar obter o que deseja. Sabia que as chances estavam contra você quando começou. Não existe mais nada... a não ser...
— Eu sei — ele sorriu. — A não ser a falta de sentido. A morte. — É — eu disse. — Tudo que você pode fazer é dar sentido à sua vida, torná-la boa...
— Ah, bondade de novo não — ele disse. — Você e sua doença da mortalidade e sua doença da bondade.
Ele estava olhando para o fogo e virou-se para mim com deliberada expressão de desprezo.
— Somos um bando de atores e artistas do teatro de variedades que nem sequer pode ser enterrado em solo sagrado. Somos párias.
— Meu Deus, se ao menos você pudesse acreditar nisso — eu disse —, que fazemos o bem quando levamos outras pessoas a esquecer seu sofrimento, quando fazemos com que esqueçam por um breve momento de que...
— De quê? Que vão morrer? — ele sorriu de um jeito especialmente perverso. — Lestat, pensei que tudo isso fosse mudar em você quando chegasse em Paris.
— Foi tolo de sua parte, Nicki — respondi. Ele agora me deixava com raiva. — Eu faço o bem no bulevar du Temple. Eu sinto isso...
Parei porque vi de novo o rosto misterioso e uma sensação sombria passou por mim, algo como um pressentimento. No entanto, mesmo aquele rosto assustador estava em geral sorrindo, o que era estranho. Sim, sorrindo... desfrutando...
— Lestat, eu te amo -Nicki disse circunspecto. — Eu te amo como amei poucas pessoas em minha vida, mas de uma maneira real você é um imbecil com todas as suas idéias sobre a bondade.
Dei uma risada.
— Nicolas — eu disse —, não posso viver sem Deus. Até posso chegar a viver com a idéia de que não existe vida depois da morte. Mas não creio que pudesse continuar se não acreditasse na possibilidade da bondade. Em vez de zombar de mim, por que não diz em que acredita?
— Para mim — ele disse —, existe a fraqueza e existe a força. E existe a boa arte e a arte ruim. E é nisso que acredito. No momento, estamos empenhados em fazer o que é arte bem ruim e não tem nada a ver com a bondade!
“Nossa conversa” poderia ter-se transformado numa briga total se eu tivesse dito tudo que tinha em mente sobre a pomposidade burguesa. Porque eu acreditava plenamente que nosso trabalho no Renaud era, de muitas maneiras, muito melhor do que aquele que eu via nos grandes teatros. Só a infra-estrutura era menos impressionante. Por que um cavalheiro burguês não poderia esquecer as aparências? Como poderia fazer para que ele olhasse outra coisa que não fosse a superfície?
Eu respirei fundo.
— Se a bondade existe mesmo — ele disse —, então sou o oposto dela. Sou o mal e me deleito com ele. Estou me lixando para a bondade. E se você quer saber, não toco o violino para tornar felizes os idiotas que vão ao Renaud. Toco para mim, para Nicolas.
Eu não queria ouvir mais nada. Era hora de ir para a cama. Mas fiquei magoado com aquela pequena discussão e ele sabia disso. Quando comecei a descalçar as botas, ele levantou-se da cadeira e foi sentar-se perto de mim.
— Sinto muito — ele disse com a voz mais desanimada.
Foi uma mudança tão grande da atitude de um minuto atrás que eu olhei para ele, e ele era tão jovem e tão infeliz que não pude deixar de abraçá-lo e dizer-lhe que não devia preocupar-se mais com aquilo.
— Lestat, você tem uma aura — ele disse. — E ela atrai todo mundo para você. Ela está presente mesmo quando você está furioso, ou desanimado...
— Poesia — eu disse. — Ambos estamos cansados.
— Não, é verdade — ele disse. — Há uma luz em você que quase cega. Mas em mim só existem trevas. Às vezes acho que se parecem com as trevas que o contagiaram naquela noite na estalagem, quando você começou a chorar e tremer. Estava tão desamparado, tão despreparado para ela. Tentei afastar aquelas trevas de você porque eu preciso de sua luz. Preciso dela desesperadamente, mas você não precisa das trevas.
— Você é que é o louco — eu disse. — Se pudesse ver a si mesmo, ouvir sua própria voz, sua música... que, é claro, você toca para si mesmo... não veria tanta escuridão, Nicki. Veria a sua própria luz. Triste, sim, mas luz e beleza se juntam em você em mil padrões diferentes.
Na noite seguinte, a apresentação foi especialmente boa. A platéia estava animada, inspirando todos nós a fazer brincadeiras novas. Executei alguns novos passos de dança que, por alguma razão, nunca se mostraram interessantes nos ensaios, mas que funcionaram de maneira milagrosa no palco. E Nicki esteve extraordinário com o violino, executando uma de suas próprias composições.
Mas, lá pelo fim da noite, vislumbrei de novo o rosto misterioso. Ele me abalou mais do que nunca e eu quase perdi o ritmo de minha canção. Na verdade, por um momento pareceu que minha cabeça estivesse girando.
Quando eu e Nicki estivéssemos a sós, eu teria que conversar sobre isso, sobre a sensação peculiar de que havia caído no sono no palco e estive sonhando.
Sentamo-nos junto à lareira com nosso vinho no tampo de um pequeno barril e, à luz do fogo, Nicki parecia tão cansado e desanimado quanto na noite anterior.
Eu não queria importuná-lo, mas não conseguia esquecer o rosto.
— Bem, como ele é? — Nicolas perguntou.
Estava aquecendo suas mãos. E por cima de seu ombro, eu via pela janela uma cidade de telhados cobertos de neve que me fazia sentir mais frio. Eu não estava gostando daquela conversa.
— Esta é a pior parte — eu disse. -Tudo que vejo é um rosto. Ele deve estar usando alguma coisa preta, um casaco e até mesmo um capuz. Mas me parece uma máscara, o rosto, muito branco e estranhamente claro. Quero dizer, as linhas de seu rosto são tão profundas que pareciam ter sido desenhadas com tinta de maquiagem preta. Eu o vejo por um momento. Ele chega a brilhar. Depois, quando olho de novo, não tem mais ninguém lá. Deve ser um exagero da minha parte. É mais sutil do que isso, o modo como ele olha e, no entanto...
A descrição pareceu perturbar Nicki tanto quanto me perturbou. Ele não disse coisa alguma. Mas seu rosto suavizou-se um pouco, como se ele estivesse esquecendo sua tristeza.
— Bem, não quero aumentar suas esperanças — ele disse. Agora, estava sendo muito gentil e sincero. — Mas talvez seja mesmo uma máscara que você vê. Talvez seja alguém da Comédie Française que vai ver seu desempenho.
Eu balancei a cabeça.
— Gostaria que fosse, mas ninguém usaria uma máscara como aquela. E vou dizer-lhe uma outra coisa também.
Ele esperou, mas pude ver que eu estava transmitindo para ele um pouco de minha própria apreensão. Ele estendeu a mão, pegou a garrafa de vinho pelo gargalo e serviu um pouco em meu copo.
— Seja quem for — eu disse — ele sabe sobre os lobos. — Ele o quê?
— Ele sabe sobre os lobos.
Eu estava muito inseguro de mim mesmo. Era como contar um sonho que quase havia esquecido.
— Ele sabe que matei os lobos lá em minha terra. Sabe que a capa que uso é forrada com a pele deles.
— Do que você está falando? Quer dizer que já conversou com ele?
— Não, é apenas assim — eu disse.
Aquilo era tão confuso para mim, e vago. Senti de novo aquela vertigem.
— É o que estou tentando dizer-lhe. Eu nunca falei com ele, nunca estive perto dele. Mas ele sabe.
— Ah, Lestat — ele disse. E reclinou-se no banco. Estava sorrindo para mim da maneira mais afetuosa. — Qualquer dia desses vai começar a ver fantasmas. Você tem a imaginação mais forte do que qualquer pessoa que conheço.
— Não existem fantasmas — eu respondi em tom suave.
Olhei mal-humorado para nosso pequeno fogo. Coloquei mais alguns pedaços de carvão nele.
Todo bom humor desapareceu de Nicolas.
— Que diabo, como ele poderia saber dos lobos? E como você poderia...
— Eu já lhe disse, não sei! — respondi.
Fiquei sentado, pensando e sem dizer coisa alguma, aborrecido, talvez, com o modo como tudo aquilo parecia ridículo.
E então, enquanto ambos continuávamos em silêncio e o fogo era o único som e movimento no aposento, as palavras matador de lobos vieram à minha mente de forma bem distinta, como se alguém as tivesse pronunciado.
Mas ninguém as pronunciara.
Olhei para Nicki, dolorosamente consciente de que seus lábios não haviam se movido em nenhum momento, e creio que todo o sangue fugiu de meu rosto. Eu não sentia o temor da morte como sentira em tantas outras noites, mas sentia uma emoção que de fato me era estranha: medo.
Eu ainda estava sentado ali, inseguro demais para dizer alguma coisa, quando Nicolas me beijou.
— Vamos para a cama — ele disse com voz suave.


PARTE II

O LEGADO DE MAGNUS


1

Deviam ser três horas da madrugada; eu tinha ouvido os sinos da igreja durante o sono.
Como todas as pessoas sensatas de Paris, trancávamos nossa janela e porta com barras. Não era bom para um quarto com fogo a carvão, mas o telhado era um caminho para nossa janela. E nós ficávamos trancados lá dentro.
Eu estava sonhando com lobos. Estava na montanha, cercado e girando o antigo mangual medieval. Depois, os lobos estavam mortos de novo e o sonho ficou melhor, só que eu tinha todos aqueles quilômetros para caminhar na neve. O cavalo dava gritos agudos na neve. Minha égua transformou-se num inseto repugnante meio esmagado no chão de pedra.
Uma voz dizia “Matador de Lobos”, de modo prolongado e baixo, um sussurro que parecia um chamado e um tributo ao mesmo tempo.
Eu abri os olhos. Ou pensei ter aberto. E havia alguém parado no quarto. Uma figura alta e curvada, de costas para a pequena lareira. Brasas ainda brilhavam na lareira. A luz se movia para cima, delineando com clareza os contornos da figura, depois extinguia-se antes de chegar aos ombros, a cabeça. Mas percebi que estava olhando direto para o rosto branco que havia visto na platéia do teatro; e minha mente, abrindo-se, aguçando-se, percebeu que o quarto estava trancado, que Nicolas estava deitado ao meu lado, que aquela figura estava suspensa sobre nossa cama.
Eu ouvia a respiração de Nicolas. Olhava para o rosto branco.
“Matador de Lobos”, a voz disse de novo. Mas os lábios não se mexeram, a figura chegou mais perto e eu vi que o rosto não era uma máscara. Olhos negros, rápidos e astutos olhos negros, e pele branca, exalando um cheiro horrível, como o de roupas mofando em um quarto úmido.
Creio que me levantei. Ou talvez tenha sido erguido. Porque num instante estava de pé. O sono estava sendo tirado de mim como se fosse roupa. Eu recuava para a parede.
A figura estava com minha capa vermelha na mão. Desesperado, pensei em minha espada, em meus mosquetões. Estavam no chão debaixo da cama. E a coisa atirou a capa vermelha em minha direção e então, através do veludo forrado de pele, senti sua mão agarrar a lapela de meu casaco.
Fui puxado para a frente. Fui puxado pelos pés através do quarto. Gritei chamando Nicolas. Eu berrava “Nicki, Nicki” o mais alto que podia. Vi a janela parcialmente aberta e então, de repente, o vidro explodiu em milhares de fragmentos e a armação de madeira foi quebrada. Eu estava voando sobre a ruela, seis andares acima do solo.
Eu gritava. Chutava aquela coisa que me carregava. Preso pela capa vermelha, eu me debatia tentando libertar-me.
Mas estávamos voando sobre o telhado e agora íamos de encontro a uma parede de tijolos! Eu balançava nos braços daquela criatura e então, bem de repente, fui jogado para baixo na superfície de um lugar alto.
Fiquei deitado por um momento, vendo Paris diante de mim num enorme círculo — a neve branca, as chaminés, os campanários das igrejas e o céu ameaçador. Depois levantei-me, tropeçando em minha capa forrada de pele, e comecei a correr. Corri até a beira do telhado e olhei para baixo. Nada a não ser a pura queda de dezenas de metros; e depois até a outra beirada que era exatamente a mesma coisa. Quase caí!
Girei desesperado, ofegante. Estávamos no alto de alguma torre quadrada com não mais que quinze metros de extensão! E eu não podia ver nada mais alto em nenhuma direção. A figura estava me encarando e eu a ouvi emitir uma risada baixa e áspera, igual ao suspiro de antes.
— Matador de Lobos — disse de novo.
— Maldito! — eu berrei. — Que, diabos, é você?
E, enfurecido, voei para ele com meus punhos erguidos.
Ele não se mexeu. Eu bati como se estivesse batendo na parede de tijolo. Na verdade, bati com toda força, escorregando na neve, levantando e atacando de novo.
Suas risadas ficavam cada vez mais altas e deliberadamente zombeteiras, mas com forte conotação de prazer que era mais exasperadora do que a zombaria. Eu corri até a beirada da torre e depois voltei-me para a criatura de novo.
— O que você quer comigo? — perguntei. — Quem é você?
Como ele não fizesse outra coisa a não ser dar sua risada irritante, ataquei-o outra vez. Mas dessa vez investi contra o rosto e o pescoço, usando minhas mãos como garras; arranquei o capuz e vi o cabelo preto da criatura e todo o formato de sua cabeça com aparência humana. Pele macia. No entanto, estava tão impassível quanto antes.
Ele recuou um pouco, levantando os braços para brincar comigo, para empurrar-me de um lado para o outro, como um homem empurraria uma criança pequena. Rápido demais para meus olhos, ele desviava o rosto de mim, virando para um lado e depois para o outro, e todos esses movimentos pareciam ser feitos sem nenhum esforço, enquanto eu tentava freneticamente machucá-lo sem poder sentir nada, a não ser aquela macia pele branca deslizando sob meus dedos e talvez, por uma ou duas vezes, seu lindo cabelo preto.
— Valente e forte pequeno Matador de Lobos — ele me disse agora com uma voz mais profunda e sonora.
Parei, ofegante e coberto de suor, encarando-o e vendo os detalhes de seu rosto. As linhas fundas que apenas vislumbrara no teatro, sua boca puxada para cima num sorriso de pilheriador.
— Oh, Deus, ajude-me, ajude-me... — eu disse enquanto recuava.
Parecia impossível que aquele rosto fosse mover-se, mostrar alguma expressão e me fitar com tanto afeto como me fitava. — Deus!
— Que deus é esse, Matador de Lobos? — ele perguntou.
Virei-me de costas para ele e soltei um terrível urro. Senti suas mãos se fecharem em meus ombros como objetos forjados em metal e, enquanto me debatia num último frenesi de luta, ele me girou de modo que seus olhos ficassem bem diante de mim, grandes e escuros, os lábios fechados mas ainda sorrindo, e então ele se reclinou e eu senti a ferroada de seus dentes em meu pescoço.
Vindo de todos os contos que li na infância, das velhas fábulas, o nome me ocorreu como algo submerso que se arremessava para a superfície da água escura, irrompendo livre na luz.
— Vampiro! — soltei um último grito desvairado, empurrando a criatura com toda minha força.
E então veio o silêncio. A quietude.
Eu sabia que ainda estávamos no telhado. Sabia que estava preso nos braços da criatura. No entanto, parecia que estávamos flutuando, que estávamos livres da ação da gravidade, que estávamos viajando através da escuridão com muito mais facilidade do que antes.
— Sim, sim — eu queria dizer —, exatamente.
E um grande ruído estava ecoando à minha volta, envolvendo-me, o som grave de um gongo talvez, sendo batido bem devagar, em ritmo perfeito, com sua vibração me invadindo, fazendo com que eu sentisse o prazer mais extraordinário por todo o corpo.
Meus lábios se mexiam, mas nada saía deles; mas isso não tinha importância, de fato. Todas as coisas que eu sempre quis dizer estavam claras para mim e era isso que importava, e não que fossem expressadas. E havia tanto tempo, um tempo longo e suave para se falar ou fazer alguma coisa. Não havia nenhuma urgência, em absoluto.
Êxtase. Eu disse a palavra e ela me pareceu clara, esta palavra única, embora não pudesse falar ou de fato mexer meus lábios. E percebi que não estava mais respirando. No entanto, alguma coisa me fazia respirar. Ela estava respirando por mim e a respiração saía no ritmo do gongo que não tinha nada a ver com meu corpo, e eu o adorei, o ritmo, a maneira como ele soava e soava, e eu não tinha mais que respirar ou falar ou saber coisa alguma.
Minha mãe sorria para mim. Eu disse “eu te amo...” para ela, ela disse “sim, sempre amou, sempre amou...” E eu estava sentado na biblioteca do mosteiro, tinha doze anos de idade e o monge me dizia “um ótimo aluno”, e eu abria os livros e podia ler tudo, em latim, grego, francês. As letras desenhadas eram de uma beleza indescritível, e eu girei e fiquei de frente para a platéia no teatro de Renaud, vi que todos estavam de pé, e uma mulher tirou o leque pintado da frente do rosto, era Maria Antonieta. Ela disse “Matador de Lobos”, e Nicolas estava correndo em minha direção, gritando para eu voltar. Seu rosto estava cheio de angústia. Seus cabelos estavam soltos e seus olhos com um círculo de sangue. Ele tentou agarrar-me. Eu disse “Nicki, afaste-se de mim!” e percebi com agonia, uma verdadeira agonia, que o som do gongo estava desaparecendo aos poucos.
Eu gritei, implorei. Não pare, por favor, por favor. Não quero que... não... por favor.
— Lelio, o Matador de Lobos — disse a criatura que me segurava pelos braços e eu estava chorando porque o encantamento estava se quebrando.
— Não, não.
Eu estava pesado de novo, meu corpo retornara a mim com suas dores, sofrimentos físicos e meus próprios gritos abafados. Eu estava sendo erguido, jogado para cima, até que caí nos ombros da criatura e senti seus braços em torno de meus joelhos.
Eu queria dizer “Deus, proteja-me”, queria dizer isso com cada partícula de mim, mas não consegui dizer, e lá estava o beco abaixo de mim de novo, aquela queda de dezenas de metros, e toda Paris inclinada num ângulo aterrador, e havia a neve e o vento que queimava.


2

Eu estava acordado e com sede.
Desejava uma boa dose de vinho branco quase gelado, da maneira como fica quando é retirado da adega no outono. Queria alguma coisa fresca e doce para comer, como uma maçã madura.
Ocorreu-me que eu havia perdido a razão, embora não pudesse dizer por quê.
Abri os olhos e reconheci que era o começo da noite. A luz podia ser da manhã, mas se havia passado tempo demais para isso. Era o anoitecer.
E, por uma larga janela de pedra com barras pesadas, vi morros e bosques, cobertos de neve, e a vasta e diminuta coleção de telhados e torres que formava a cidade ao longe. Eu não a via dessa maneira desde o dia em que cheguei na carruagem postal. Fechei meus olhos e a visão de tudo permaneceu como se eu nunca houvesse aberto os olhos.
Mas não era uma visão. Estava ali. E o quarto estava quente apesar da janela. Tinha havido um fogo no quarto, eu podia sentir o cheiro, mas o fogo se apagara.
Tentei raciocinar. Mas não conseguia parar de pensar em vinho branco frio e nas maçãs na cesta. Podia ver as maçãs. Eu me senti caindo dos galhos da árvore, e senti o cheiro em meu redor da grama recém-cortada.
A luz do sol estava ofuscante nos campos verdes. Brilhava nos cabelos castanhos de Nicolas e no verniz carregado do violino. A música ascendia para as suaves nuvens onduladas. E, sobre o pano de fundo do céu, vi as ameias da casa de meu pai.
Ameias.
Tornei a abrir os olhos.
Eu sabia que estava deitado no quarto de uma torre alta a muitos quilômetros de Paris.
E bem diante de mim, sobre uma tosca mesinha de madeira, estava uma garrafa de vinho branco frio, exatamente como eu havia sonhado.
Olhei para ela durante um longo tempo, olhei as gotículas de gelo que a cobriam, sem poder acreditar que fosse possível alcançá-la e bebê-la.
Nunca havia conhecido a sede que estava sentindo agora. Todo meu corpo estava sedento. E eu estava tão fraco. E sentia um pouco de frio.
O quarto movia-se quando eu me movia. O céu cintilava na janela.
E quando enfim procurei alcançar a garrafa, tirei a rolha e senti aquele aroma acre e delicioso, bebi e bebi sem parar, sem me importar com o que aconteceria comigo, ou onde eu estava, ou por que a garrafa fora colocada ali.
Minha cabeça balançava para a frente. A garrafa estava quase vazia e a cidade distante desaparecia no céu negro, deixando um pequeno mar de luzes por detrás.
Levei as mãos à cabeça.
A cama onde eu havia dormido não era mais que uma pedra com palha jogada por cima e, aos poucos, me dava conta de que poderia estar numa espécie de prisão.
Mas, o vinho. Era bom demais para uma prisão. Quem daria um vinho como aquele a um prisioneiro, a menos, é claro, que este fosse ser executado.
E um outro aroma veio a mim, forte, irresistível e tão delicioso que me fez gemer. Olhei em redor ou, eu deveria dizer, tentei olhar em redor porque estava fraco demais para me mexer. Mas a fonte daquele aroma estava próxima a mim, e era uma tigela grande de caldo de carne. O caldo era grosso com pedaços de carne, e eu podia ver o vapor saindo dele. Ainda estava quente.
Agarrei a tigela com ambas as mãos e bebi de maneira tão irrefletida e sôfrega quanto bebi o vinho.
O caldo saciou o meu desejo como se jamais eu houvesse conhecido uma comida como aquela, aquela forte essência de carne cozida. Quando a tigela se esvaziou, eu caí para trás, cheio, quase enjoado, sobre a palha.
Alguma coisa pareceu mexer-se na escuridão perto de mim. Mas eu não estava seguro. Ouvi o tilintar de vidro.
— Mais vinho — uma voz disse para mim, e eu conhecia a voz. Gradualmente, comecei a me lembrar de tudo. A escalada pelas paredes, o pequeno telhado quadrado, aquele rosto branco sorridente.
Por um momento, pensei: “Não, é impossível, deve ter sido um pesadelo.” Mas não foi. Aconteceu e, de repente, me lembrei do êxtase, do som do gongo, e me senti ficar tonto como se estivesse perdendo a consciência de novo.
Tentei me controlar. Não deixaria que acontecesse. E o medo se alastrou por mim, de modo que não ousei me mexer.
— Mais vinho — a voz tornou a dizer.
Girando um pouco a cabeça, eu vi uma garrafa nova, com rolha, mas pronta para mim, delineada contra o brilho luminoso da janela.
Senti a sede de novo e, dessa vez, estava acentuada pelo sal do caldo. Enxuguei os lábios, depois estendi a mão para pegar a garrafa e bebi de novo.
Caí para trás contra a parede de pedra e me esforcei para olhar com clareza através da escuridão, meio receoso do que sabia que veria.
Eu estava muito bêbado agora, claro.
Vi a janela, a cidade. Vi a mesinha. E enquanto meus olhos se moviam lentamente pelos cantos escurecidos do quarto, vi que ele estava lá.
Ele não estava mais usando a capa preta com capuz, e não estava sentado ou de pé como um homem ficaria.
Parecia estar mais encostado para descansar, sobre o grosso marco de pedra da janela, com um joelho um pouco dobrado na direção desta, e a outra perna comprida e esguia escarrapachada para o outro lado. Seus braços pareciam estar suspensos nos lados.
E toda a impressão era de alguma coisa flácida e sem vida; no entanto, seu rosto estava tão animado quanto na noite anterior. Imensos olhos negros que pareciam esticar a carne branca em vincos profundos, o nariz comprido e fino e a boca com o sorriso de bufão. Havia os dentes caninos que apenas tocavam os lábios sem cor, e os cabelos, uma massa brilhante de preto e prata que subia da testa branca e derramava-se sobre os ombros e braços.
Acho que ele riu.
Eu estava mais que aterrorizado. Nem ao menos conseguia gritar.
Deixei o vinho cair. A garrafa de vidro rolou pelo chão. E quando tentei mover-me para a frente, a fim de recuperar os sentidos e fazer de meu corpo algo mais que aquela coisa bêbada e indolente, ele começou a movimentar de súbito seus membros finos e desengonçados.
Ele avançou para mim.
Não gritei. Soltei um urro grave e irado de terror, me arrastei para fora da cama, passei tropeçando na mesinha e corri dele o mais rápido que pude.
Mas ele me agarrou com compridos dedos brancos, tão fortes e frios como na noite anterior.
— Solte-me, seu maldito, seu maldito, seu maldito! — eu gaguejava. Minha razão me disse para suplicar e eu tentei.
— Por favor, só irei embora. Deixe-me sair daqui. Você tem que deixar. Solte-me.
Seu rosto macilento assomou acima de mim, os lábios fortemente puxados para as faces brancas, e ele dava uma risada baixa e desenfreada que parecia não ter fim. Eu lutei, empurrando-o em vão, suplicando de novo, gaguejando absurdos e desculpas, depois gritei:
— Deus, me ajude!
Ele colocou uma daquelas mãos monstruosas sobre minha boca.
— Não diga mais isso em minha presença, Matador de Lobos, ou lhe darei como comida para os lobos do inferno — ele disse com um sorrisinho de escárnio. — Hummm? Responda-me. Hummm?
Concordei com um aceno de cabeça e ele afrouxou a mão.
Sua voz tivera um efeito tranqüilizador instantâneo. Ele parecia capaz de raciocinar quando falava. Chegava a ser quase refinado.
Levantou as mãos e afagou minha cabeça enquanto eu me encolhia de medo.
— A luz do sol nos cabelos — ele sussurrou — e o céu azul fixado para sempre em seus olhos.
Ele quase parecia meditativo enquanto olhava para mim. Sua respiração não tinha nenhum cheiro, nem seu corpo, pareceu. O cheiro de mofo vinha de suas roupas.
Eu não ousava mexer-me, embora ele não estivesse me segurando. Fitei suas roupas.
Uma velha camisa de seda com mangas amarfanhadas e colarinho franzido. E polainas de lã e surradas calças curtas.
Em suma, ele estava vestido como os homens se vestiam séculos atrás. Eu havia visto roupas como aquelas em tapeçarias de minha casa, nas pinturas de Caravaggio e La Tour penduradas nos aposentos de minha mãe.
— Você é perfeito, meu Lelio, meu Matador de Lobos — ele me disse; sua boca comprida abriu-se bastante, de modo que de novo vi os pequenos caninos brancos. Eram os únicos dentes que tinha.
Eu estremeci, me senti caindo no chão.
Mas ele me agarrou facilmente com um braço e me deitou na cama com um movimento delicado.
Eu rezava com fúria em minha mente, Deus, ajude-me, Virgem Maria, ajude-me, ajude-me, ajude-me, enquanto perscrutava seu rosto.
O que era aquilo que eu estava vendo? O que havia visto na noite anterior? A máscara da velhice, aquela coisa com um sorriso arreganhado profundamente cortado com as marcas do tempo e, no entanto, congelada, ao que parecia, e dura como suas mãos. Ele não era uma coisa viva. Era um monstro. Um vampiro era o que ele era, um cadáver sugador de sangue saído de um túmulo e dotado de intelecto!
E seus membros, por que me aterrorizavam? Ele parecia humano, mas não se movia como humano. Não parecia importar-lhe se andava ou rastejava, inclinava-se ou ajoelhava-se. Ele me causava asco. Contudo, me fascinava. Eu tinha de admitir. Ele me fascinava. Mas eu corria um perigo grande demais para permitir esse estado mental tão estranho.
Agora, ele deu uma risada profunda, com os joelhos bem separados, os dedos encostados em minha face, enquanto seu corpo se arqueava sobre mim.
— Siiiim, meu adorável, é desagradável olhar para mim! — ele disse; sua voz ainda era um sussurro e ele falava em longos arrancos. — Eu já era velho quando me transformei. E você é perfeito, meu Lelio, meu jovem de olhos azuis, mais bonito ainda sem as luzes do palco.
A mão branca e comprida brincava com meus cabelos de novo, levantando e deixando cair os fios enquanto suspirava.
— Não chore, Matador de Lobos — ele disse. — Você foi escolhido e seus pequenos e espalhafatosos triunfos no teatro não serão nada depois que esta noite chegar a seu termo.
Ouvi de novo aquela profusão baixa de risos.
Não havia nenhuma dúvida em minha mente, pelo menos naquele momento, de que ele era do diabo, de que Deus e o diabo existiam, de que além do isolamento que eu havia conhecido horas antes, jazia aquele vasto reino de seres sombrios e propósitos hediondos e que, de alguma maneira, eu fora tragado por ele.
Ocorreu-me de maneira bem clara que eu estava sendo punido por minha vida e, no entanto, isso pareceu absurdo. Milhões de pessoas acreditavam, como eu, no fim do mundo. Por que, diabos, aquilo estava acontecendo comigo? E uma sombria possibilidade começou a tomar forma, de modo irresistível, de que o mundo não tinha mais sentido do que antes, e isso não era nada mais que um outro horror...
— Em nome de Deus, vá embora! — gritei.
Agora, eu tinha de acreditar em Deus. Precisava. Era a única esperança. Fiz o sinal da cruz.
Ele me encarou por um momento, com os olhos arregalados de raiva. Depois permaneceu quieto.
Observou-me fazer o sinal-da-cruz. Ouviu-me invocar Deus várias e várias vezes.
Apenas sorria, tornando seu rosto uma perfeita máscara de comédia do arco do proscênio.
E entrei num espasmo de choro como uma criança.
— Então, o demônio reina no céu e o céu é o inferno — eu lhe disse. — Oh, Deus, não me abandone...
Invoquei todos os santos que adorara, mesmo que apenas por um instante. Ele me bateu com força no rosto. Eu caí para o lado e quase escorreguei da cama no chão. O quarto dava voltas. O gosto amargo de vinho subiu em minha boca. E senti de novo seus dedos em meu pescoço.
— Sim, lute, Matador de Lobos — ele disse. — Não vá para o inferno sem uma batalha. Zombe de Deus.
— Eu não zombo! — protestei.
Mais uma vez, ele me puxou para si.
E lutei contra ele com mais força do que já havia lutado contra alguém ou alguma coisa em minha existência, inclusive os lobos. Eu batia nele, chutava, puxava seus cabelos. Mas era o mesmo que estar lutando contras as gárgulas animadas de uma catedral, de tão poderoso que ele era.
Ele apenas sorria.
Então, dissipou-se a expressão de seu rosto, que pareceu ter-se tornado muito comprido. As faces estavam encovadas, os olhos arregalados e quase espantados, e ele abriu a boca. O lábio inferior contraiu-se. Eu vi os dentes caninos.
— Seu maldito, seu maldito, seu maldito! — eu estava urrando e berrando. Ele se aproximou mais e os dentes entraram em minha carne.
Não dessa vez, eu estava furioso, não dessa vez. Não sentirei. Resistirei. Lutarei por minha alma desta vez.
Mas estava acontecendo de novo.
A doçura, a suavidade e o mundo distante, até mesmo ele com sua feiúra estavam estranhamente fora de mim, como um inseto pressionado num vidro que não causa nenhum asco em nós porque não pode tocar-nos, e o som do gongo, o excelente prazer e então me perdi de todo. Eu era imaterial, o prazer era imaterial. Eu não era outra coisa a não ser o prazer. E entrei de mansinho numa teia de sonhos radiantes.
Vi uma catacumba, um lugar exuberante. E uma criatura branca, um vampiro, despertando numa sepultura rasa. Estava preso por grossas correntes o vampiro; e acima dele inclinava-se esse monstro que me seqüestrara, e eu soube que seu nome era Magnus e que ainda era mortal nesse sonho, um grande e poderoso alquimista. E ele desenterrara e amarrara aquele vampiro que dormia pouco antes da hora crucial do anoitecer.
E agora que a luz desaparecia aos poucos do céu, Magnus bebia o sangue mágico e maldito de seu desamparado prisioneiro imortal, que o tornaria um morto-vivo. Era traição, o roubo da imortalidade. Um Prometeu sombrio roubando um fogo luminescente. Risadas na escuridão. Risadas ecoando na catacumba. Ecoando como que através de séculos. E o fedor da sepultura. E o êxtase, absolutamente insondável, e irresistível, e depois chegando ao fim.
Eu estava chorando. Estava deitado na palha e disse:
— Por favor, não pare...
Magnus não estava mais me segurando, minha respiração voltou ao normal e os sonhos se dissolveram. Eu ia caindo e caindo enquanto a noite cheia de estrelas deslizava no alto, jóias presas num escuro véu púrpura.
— Inteligente isso. Pensei que o céu fosse... real.
O ar frio do inverno apenas se mexia um pouco naquele quarto. Eu sentia as lágrimas em meu rosto. A sede me consumia.
E longe, muito longe de mim, Magnus estava parado olhando para mim, com as mãos pendendo ao lado de suas pernas finas.
Tentei mexer-me. Estava ansioso. Todo meu corpo estava sedento.
— Você está morrendo, Matador de Lobos — ele disse. — A luz está apagando-se em seus olhos azuis, como os dias se acabam durante todo o verão...
— Não, por favor...
Aquela sede era insuportável. Minha boca estava aberta, ofegante, minhas costas arqueadas. E enfim estava ali, o horror final, a própria morte, daquele jeito.
— Peça, criança — ele disse; seu rosto não era mais uma máscara com um sorriso arreganhado, mas fora transfigurado totalmente pela compaixão. Ele parecia quase humano, quase naturalmente velho. — Peça e receberá — ele disse.
Eu via a água descendo por todas as correntes de montanha de minha infância.
— Ajude-me, por favor.
— Eu lhe darei a água de todas as águas — ele disse em meu ouvido e pareceu não ser mais branco. Era apenas um velho, sentado ali ao meu lado. Seu rosto era humano e estava quase tristonho.
Mas enquanto eu observava seu sorriso e suas sobrancelhas grisalhas erguerem-se admiradas, eu sabia que não era verdade. Ele não era humano. Era aquele mesmo monstro velho, só que estava cheio com meu sangue!
— O vinho de todos os vinhos — ele murmurou. — Este é meu Corpo, este é meu Sangue.
Depois seus braços me envolveram. Puxaram-me para ele e eu senti um grande calor emanando dele, que parecia estar cheio não de sangue, mas sim de amor por mim.
— Peça, Matador de Lobos, e você viverá para sempre — ele disse, mas sua voz soou cansada e desalentada, e havia algo de distante e trágico em seu olhar intenso.
Senti minha cabeça virar para o lado, meu corpo era uma coisa pesada e desanimada que eu não podia controlar. Não pedirei, morrerei sem pedir, e então o grande desespero que eu tanto temia estava diante de mim, o vazio que era a morte, mas mesmo assim eu disse Não. Eu disse Não, de puro horror. Não me dobrarei a isso, o caos e o horror. Eu disse Não.
— A vida eterna — ele sussurrou. Minha cabeça tombou em seu ombro. — Matador de Lobos teimoso.
Seus lábios me tocaram, a respiração quente e sem cheiro em meu pescoço.
— Teimoso não — sussurrei.
Minha voz estava tão fraca que imaginei que ele pudesse não ter me ouvido.
— Corajoso. Não teimoso.
Pareceu sem sentido não dizê-lo. O que era a vaidade agora? O que era qualquer coisa? E teimoso era uma palavra tão trivial, tão cruel...
Ele levantou meu rosto e, segurando-me com a mão direita, ergueu a mão esquerda e cortou a própria garganta com as unhas.
Meu corpo dobrou-se numa convulsão de terror, mas ele pressionou meu rosto contra a ferida e disse:
— Beba.
Ouvi meu grito, ensurdecendo meus próprios ouvidos. E o sangue que jorrava do ferimento tocou meus lábios ressequidos e rachados.
A sede parecia sibilar alto. Minha língua lambeu o sangue. E uma sensação de chicotada tomou conta de mim. Minha boca abriu-se e grudou-se na ferida. Suguei com toda minha força na grande fonte que sabia iria satisfazer minha sede, como nunca antes.
Sangue, sangue e sangue. E não foi apenas a espiral seca e sibilante da sede que foi saciada e dissolvida, foi toda minha ânsia, tudo que eu desejava e a miséria e a fome que eu sempre conhecera.
Minha boca abriu-se, pressionou-se com mais força nele. Eu sentia o sangue escorrendo por toda extensão de minha garganta. Sentia a cabeça dele apoiada em mim. Sentia o aperto forte de seus braços.
Eu estava encostado nele e podia sentir seus músculos, seus ossos, o contorno de suas mãos. Eu conhecia seu corpo. No entanto, havia aquele entorpecimento arrastando-se dentro de mim e um formigamento extasiante, enquanto cada sensação infiltrava-se no entorpecimento e era amplificada pela penetração, de modo que se tornava mais plena, mais aguda, e eu quase podia ver o que estava sentindo.
Mas a parte suprema disso continuou sendo o sangue doce e saboroso que me invadia, enquanto eu bebia e bebia.
Mais sangue, mais, era tudo em que eu podia pensar, se é que estava pensando, e toda aquela densa substância era como uma luz passando dentro de mim, parecendo tão brilhante para minha mente, tão ofuscante, aquele fluxo vermelho, e todos os desejos desesperados de minha vida eram saciados mil vezes.
Mas seu corpo, aquele andaime em que eu me pendurava, estava enfraquecendo-se debaixo de mim. Eu podia ouvir sua respiração ofegar. No entanto, ele não me fez parar.
Eu te amo, eu queria dizer, Magnus, meu mestre sobrenatural, criatura medonha que você é, eu te amo, eu te amo, isso foi o que sempre desejei tanto, desejei e jamais pude ter, isso, e você me deu!
Senti que morreria se continuasse, mas continuei e não morri.
Mas, muito de repente, senti suas adoráveis mãos suaves acariciando meus ombros e, com sua força, incalculável, ele me empurrou para trás.
Soltei um longo grito melancólico. Seu tormento me alarmou. Mas ele estava puxando-me para ficar de pé. Ainda me segurava nos braços.
Levou-me até a janela e eu fiquei olhando para fora, com as mãos sobre o peitoril de pedra. Eu estava tremendo e o sangue em mim pulsava em todas as minhas veias. Encostei a testa nas barras de ferro.
Muito longe lá embaixo estava o cume escuro de uma colina, coberto de árvores que pareciam brilhar sob a tênue luz das estrelas.
E, mais além, a cidade com sua imensidão de pequenas luzes mergulhadas não em trevas, mas sim numa suave névoa violeta. A neve brilhava por toda parte, derretendo-se. Telhados, torres, muros formavam uma seqüência interminável de molduras cor de lavanda, malva e rosa.
Era a metrópole que se esparramava.
E, quando estreitei os olhos, vi um milhão de janelas como se fossem muitas projeções de feixes de luz e, como se não bastasse, vi ao fundo o movimento inconfundível das pessoas. Minúsculos mortais em ruas minúsculas, cabeças e mãos tocando-se nas sombras, um homem solitário, não mais que uma pequena mancha subindo um campanário batido pelo vento. Um milhão de almas na matizada superfície da noite e, vindo suavemente pelo ar, uma indistinta onda de incontáveis vozes humanas. Gritos, canções, os mais tênues filetes de música, a batida surda dos sinos.
Eu gemi. A brisa parecia levantar meus cabelos e eu ouvi minha própria voz soar como nunca tinha ouvido antes.
A cidade turvava-se. Eu a deixei ir embora, com seu enxame de milhares de habitantes se perdendo de novo no vasto e maravilhoso jogo de sombra lilás e luz efêmera.
— Oh, o que foi que você fez, que foi isso que me deu?! — sussurrei.
E parecia que minhas palavras não saíam umas após as outras, mas sim que fluíam juntas até que todo meu gritar se tornou um imenso som coerente que ampliava perfeitamente meu horror e minha alegria.
Se existia um Deus, ele não tinha importância agora. Ele fazia parte de algum reino triste e monótono cujos segredos haviam sido saqueados muito tempo antes, cujas luzes se apagaram muito tempo atrás. Aquilo era o centro pulsante da própria vida, em torno do qual girava toda a verdadeira complexidade. Ah, o fascínio daquela complexidade, a sensação de estar lá...
Atrás de mim, ouvi o monstro arrastando os pés sobre as pedras.
E quando girei, eu o vi branco, vazio de sangue e como uma enorme casca seca de si mesmo. Seus olhos estavam manchados com lágrimas vermelhas de sangue e ele me estendeu a mão como se estivesse sofrendo.
Puxei-o contra meu peito. Sentia por ele um amor tão forte como nunca antes havia conhecido.
— Ah, você não está vendo? — Sua voz medonha, com suas palavras compridas eram sussurros sem fim. — Meu herdeiro escolhido para receber de mim o Dom das Trevas, com mais fibra e coragem do que dez mortais, que Filho das Trevas você será!
Beijei suas pálpebras. Juntei seus macios cabelos negros em minhas mãos. Agora, ele não era para mim nenhuma coisa medonha, mas apenas uma criatura estranha e branca, talvez cheia de lições mais profundas do que as árvores na colina ou o grito da cidade que me chamava a quilômetros de distância.
Suas faces encovadas, sua longa garganta, suas pernas finas... nada mais eram que partes naturais dele.
— Não, frangote — ele suspirou. — Poupe seus beijos para o mundo. Chegou minha hora e você só me deve obediência. Agora, siga-me.


3

Ele me arrastou para baixo através de uma escada em espiral. E tudo que eu contemplava me absorvia. As pedras com cortes irregulares pareciam emitir sua própria luz e até mesmo os ratos que passavam em disparada na escuridão possuíam uma estranha beleza.
Ele destrancou uma pesada porta de madeira com estrutura de ferro e, entregando-me a pesada argola de chaves, introduziu-me em um enorme quarto árido.
— Você agora é meu herdeiro, como já falei — ele disse. — Você tomará posse desta casa e de todo meu tesouro. Mas, primeiro, terá que fazer o que eu disser.
As janelas com grades davam vista ilimitada para as nuvens iluminadas pela lua, e eu vi de novo a cidade em suave bruxuleio, como se estivesse abrindo os braços.
— Ah, mais tarde você poderá beber tudo que vê até se fartar — ele disse.
Ele virou-me em sua direção enquanto estava parado diante de uma enorme pilha de madeira que jazia no centro do chão.
— Ouça com atenção — ele disse. — Pois estou prestes a deixá-lo. — Fez um gesto brusco para a madeira. — E há coisas que você precisa saber. Agora, você é imortal. E, muito em breve, sua natureza o conduzirá para sua primeira vítima humana. Seja rápido e não demonstre nenhuma misericórdia. Mas interrompa o seu banquete, não importa o quão delicioso seja, antes que o coração da vítima deixe de bater. Daqui a anos, você será forte o bastante para sentir esse grande momento, mas por enquanto passe a taça antes que ela fique vazia. Se não pagará caro por seu orgulho.
— Mas por que você está me deixando? — perguntei em desespero. Agarrei-o. Vítimas, misericórdia, banquete... eu me sentia bombardeado por aquelas palavras, como se estivessem atingindo meu corpo.
Ele afastou-se com tanta facilidade que minhas mãos se machucaram com o movimento, e girei os braços olhando para as mãos, maravilhado com a estranha qualidade da dor. Não era como a dor dos mortais.
Ele parou, entretanto, e apontou para as pedras na parede oposta. Pude ver que uma pedra muito grande havia sido deslocada e jazia a trinta centímetros da superfície intacta a seu redor.
— Pegue aquela pedra — ele disse — e puxe-a para fora da parede.
— Mas não posso — eu disse. — Deve pesar...
— Retire-a!
Ele apontou com um de seus dedos compridos e ossudos e fez uma careta, de modo que tentei fazer o que ele mandara.
Para meu total espanto, consegui mover a pedra facilmente, e vi atrás dela uma abertura escura, de tamanho suficiente para um homem entrar rastejando com o rosto no chão.
Ele soltou uma gargalhada seca e balançou a cabeça.
— Isto, meu filho, é a passagem que leva ao meu tesouro — ele disse. — Faça o que quiser com meu tesouro, e com todas as minhas propriedades terrenas. Mas, agora, preciso cumprir meu juramento.
E de novo para meu espanto, ele arrancou dois galhos finos da madeira e esfregou-os com tanta fúria que em pouco tempo pegaram fogo com pequenas chamas brilhantes.
Atirou-os sobre a pilha e a resina que havia nela fez com que o fogo saltasse de imediato, lançando uma imensa luz no teto abobadado e nas paredes de pedra.
Eu ofeguei e dei um passo para trás. A profusão de cor amarela e laranja me encantava e assustava, e o calor não me causava uma sensação, embora eu o sentisse. Eu compreendi. Não havia o aviso de perigo natural, de que eu poderia ser queimado por ele. Ao contrário, o calor era delicioso e eu percebi pela primeira vez o quanto estava frio. O frio era como uma cobertura de gelo que caíra sobre mim, mas o fogo a estava dissolvendo e eu quase gemia.
Ele deu outra risada, aquela risada cavernosa e entrecortada, e começou a dançar ao redor da luz, com suas pernas finas fazendo-o parecer um esqueleto dançante com o rosto branco de um homem. Curvou os braços sobre a cabeça, dobrou o tronco e os joelhos e começou a girar enquanto dava voltas em torno da fogueira.
— Mon Dieu! — eu sussurrei.
Eu sentia vertigens. Podia ter sido horripilante vê-lo dançar daquela maneira uma hora atrás, mas agora, com o resplendor bruxuleante, ele era um espetáculo que me atraía passo a passo. A luz explodia em seus farrapos de cetim, nas calças que usava, na camisa maltrapilha.
— Mas, você não pode deixar-me! — supliquei, tentando manter o pensamento claro, tentando compreender o que ele estivera dizendo.
Minha voz soou monstruosa em meus ouvidos. Tentei torná-la mais baixa, mais suave, mais como deveria ser.
— Aonde você vai?
Então, ele soltou a risada mais alta, dando palmadas na coxa e dançando mais rápido e cada vez mais distante de mim, com as mãos estendidas como que para abraçar o fogo.
Somente agora começavam a queimar os troncos mais grossos. O quarto em todo seu tamanho era como um enorme forno de barro, com a fumaça saindo pelas janelas.
— Não no fogo — disse eu recuando até a parede. — Você não pode entrar no fogo.
O medo me dominava, assim como cada visão e som me dominavam. Era parecido com todas as sensações que eu conhecera até ali. Eu não conseguia resistir ou negar. Eu gritava e choramingava ao mesmo tempo.
— Oh, sim, posso sim — ele riu. — Sim, eu posso! — Jogou a cabeça para trás e deixou que sua risada se prolongasse, transformando-se em uivos. — Mas você, frangote — ele disse parando diante de mim com o dedo esticado de novo — prometa agora. Vamos, uma pequena reverência mortal, meu bravo Matador de Lobos, ou então, embora isso vá me partir o coração, eu o jogarei na fogueira e procurarei outro descendente. Responda-me!
Tentei falar. Balancei a cabeça concordando.
Sob a intensa luz, pude ver que minhas mãos se tornaram brancas. E senti uma pontada de dor no lábio inferior que quase me fez gritar.
Meus dentes caninos superiores já se haviam transformado em presas! Eu os sentia e olhei para ele em pânico, mas ele me olhava de soslaio como se estivesse desfrutando de meu terror.
— Agora, depois que eu for queimado — ele disse agarrando meu pulso — e o fogo se apagar, você deve espalhar as cinzas. Ouça-me, meu pequeno. Espalhe as cinzas. Ou então poderei retornar, e não ouso pensar em que forma. Mas tome nota de minhas palavras, se você permitir que eu volte, mais hediondo do que sou agora, vou caçá-lo e queimá-lo até ficar tão cicatrizado como eu, você me ouviu?
Eu ainda não podia forçar-me a responder. Aquilo não era medo. Era o inferno. Eu podia sentir meus dentes crescendo e todo meu corpo formigando. Concordei freneticamente com um aceno de cabeça.
— Ah, sim — ele sorriu, balançando também a cabeça; o fogo lambia o teto atrás dele e a luz derramava-se pelos cantos de seu rosto. — É só misericórdia que estou pedindo, pois agora vou encontrar o inferno, se é que existe inferno, ou o doce esquecimento que sem dúvida não mereço. Se existe um Príncipe das Trevas, então enfim irei pôr os olhos nele. Cuspirei no rosto dele. Portanto, espalhe o que for queimado, tal como lhe ordeno, e quando isso terminar, vá até o meu esconderijo através daquela passagem baixa, tendo todo o cuidado de recolocar a pedra depois que entrar. Você encontrará lá dentro meu ataúde. E nesse ataúde ou em outro parecido, você deve trancar-se de dia, para repousar, se não a luz do sol o queimará até transformá-lo em cinzas. Grave minhas palavras, nada na terra poderá dar fim à sua vida a não ser o sol, ou um fogo como este que você está vendo, e mesmo assim, somente, é o que digo, se suas cinzas forem espalhadas depois.
Desviei meu rosto dele e das chamas. Comecei a chorar e a única coisa que me impedia de soluçar era a mão com que eu cobria a boca.
Mas ele me puxou em torno da fogueira até chegarmos diante da pedra solta, com o dedo apontando para ela de novo.
— Por favor, fique comigo, por favor — eu implorei. — Só mais um pouco, só uma noite, eu lhe suplico.
Mais uma vez, o volume de minha voz me aterrorizou. Não era minha voz, em absoluto. Eu o envolvi com os braços, abracei-o com força. Seu rosto branco e macilento estava inexplicavelmente belo para mim, os olhos negros cheios da expressão mais estranha.
A luz bruxuleava em seus cabelos, seus olhos, e mais uma vez ele formou na boca um sorriso de bufão.
— Ah, filho ganancioso — ele disse. -Não basta ser imortal com o mundo inteiro para lhe servir de repasto? Adeus, meu pequeno. Faça o que eu disse. Lembre-se, as cinzas! E do outro lado dessa pedra, a câmara interna. Lá dentro está tudo de que você precisa para prosperar.
Lutei para agarrá-lo. E ele deu uma risada baixa em meu ouvido, assombrado com minha força.
— Excelente, excelente — ele sussurrou. — Agora, viva para sempre, belo Matador de Lobos, com os dons que a natureza lhe dá, e descubra por si mesmo todos aqueles dons inaturais que acrescentei.
Ele me afastou dele fazendo-me tropeçar. E pulou tão alto e tão distante, bem no meio das chamas, que pareceu estar voando.
Eu o vi descer. Vi suas roupas pegarem fogo.
Sua boca pareceu tornar-se uma tocha e então, de repente, seus olhos se arregalaram, sua boca tornou-se uma enorme caverna preta no esplendor das chamas e sua risada subiu num volume tão agudo que eu tapei os ouvidos.
Ele parecia pular de quatro para cima e para baixo nas chamas e, de súbito, percebi que meus gritos haviam abafado sua risada.
Os braços e pernas, finos e pretos, subiam e desciam, subiam e desciam e então, de repente, pareceram murchar. O fogo mudou de posição, rugindo. E, agora, em seu centro eu não conseguia ver coisa alguma a não ser as próprias chamas.
No entanto, eu ainda gritava. Caí de joelhos com as mãos sobre os olhos. Mas ainda podia ver, mesmo com as pálpebras fechadas, uma vasta explosão de centelhas uma após a outra até que pressionei a testa contra as pedras.


4

Pareceu-me que passei anos deitado no chão, observando o fogo extinguir-se em madeira carbonizada.
O quarto esfriara. O vento gelado penetrava através da janela aberta. E eu fiquei chorando e chorando. Meus próprios soluços reverberavam em meus ouvidos até que senti que não podia suportar o som deles. E não era nenhum consolo saber que todas as coisas estavam ampliadas naquele estado, até mesmo o tormento que sentia.
De vez em quando, eu rezava de novo. Implorava perdão, embora não soubesse dizer perdão para quê. Rezava para a Virgem Maria, para os santos. Murmurei as preces da ave-maria várias e várias vezes, até se tornarem um cântico sem sentido.
E minhas lágrimas eram gotas de sangue que manchavam minhas mãos quando eu enxugava o rosto.
Então, deitei prostrado sobre as pedras, não mais murmurando orações, mas sim aquelas súplicas desarticuladas que fazemos diante de tudo que é poderoso, tudo que é sagrado, tudo que possa ou não existir com que nome for. Não me deixem sozinho aqui. Não me abandonem. Estou no lugar das bruxas. Não me deixem cair ainda mais do que já caí nesta noite. Não deixem que isto aconteça... Lestat, acorde.
Mas as palavras de Magnus voltaram a mim, várias e várias vezes: Encontrar o inferno, se é que existe inferno... Se existe um Príncipe das Trevas...
No final, levantei-me apoiando-me sobre as mãos e joelhos. Estava tonto e exasperado, quase com vertigem. Olhei para o fogo e vi que ainda poderia reavivá-lo e me atirar dentro dele.
Mas mesmo enquanto me forçava a imaginar essa agonia, sabia que não tinha nenhuma intenção de fazê-lo.
Afinal de contas, por que deveria fazer? O que fizera para merecer o destino das bruxas? Não queria estar no inferno, nem por um momento. Com toda certeza, não iria para lá apenas para cuspir no rosto do Príncipe das Trevas, fosse ele quem fosse.
Pelo contrário, se eu era uma coisa maldita, então que o maldito viesse atrás de mim! Ele que me contasse por que eu deveria sofrer. Eu gostaria verdadeiramente de saber.
Quanto ao esquecimento, bem, podemos esperar um pouquinho por ele. Podemos pensar no assunto, durante algum tempo... pelo menos.
Uma estranha serenidade invadiu-me aos poucos. Era sombria, cheia de amargura e crescente fascinação.
Eu não era mais humano.
E enquanto estava agachado lá pensando nisso e olhando para as brasas que se apagavam, uma imensa força se concentrava em mim. Pouco a pouco, desapareceram meus soluços infantis. E comecei a examinar a brancura de minha pele, a agudeza dos dois dentes pequenos e malignos e o modo como as unhas brilhavam no escuro, como se tivessem sido envernizadas.
Todas as pequenas dores conhecidas estavam saindo de meu corpo. E o calor persistente que saía da madeira fumegante me fazia bem, como um agasalho me envolvendo.
O tempo passou; no entanto, tudo continuava parado.
Cada mudança na corrente de ar era como uma carícia. E, quando chegou da cidade, suavemente iluminada ao longe, um coro de confusos sinos de igreja batendo as horas, eles não marcavam a passagem do tempo mortal. Eram apenas a música mais pura e eu fiquei atordoado, de boca aberta, enquanto fitava as nuvens que passavam.
Mas comecei a sentir uma dor renovada em meu peito, muito intensa e viva.
Percorria minhas veias, comprimia minha cabeça e depois parecia concentrar-se em meus intestinos e estômago. Estreitei os olhos. Empinei a cabeça para um lado. Percebi que não estava com medo dessa dor; ao contrário, a estava sentindo como se a escutasse.
E então compreendi a sua causa. Eu evacuava em uma pequena torrente que era incapaz de controlar. No entanto, enquanto observava a mancha de sujeira em minhas roupas, não sentia nojo.
Ratos entravam furtivamente no mesmo quarto, aproximavam-se daquela sujeira sobre seus minúsculos pés silenciosos, mas nem mesmo isso me provocou asco.
Essas coisas não me atingiam, nem mesmo quando rastejaram sobre mim para ir devorar minhas fezes.
Na verdade, não conseguia imaginar coisa alguma na escuridão, nem mesmo os insetos que deslizavam na sepultura, que pudesse provocar repulsa em mim. Que rastejassem sobre minhas mãos e rosto; agora, isso não tinha importância.
Eu não fazia mais parte do mundo que se encolhia de medo daquelas coisas. E, com um sorriso, percebi que eu era agora parte daquela família sombria que fazia os outros se encolherem de medo. Dei uma risada, lenta e cheia de prazer.
No entanto, minha aflição não havia desaparecido de todo de mim. Permanecia como uma idéia, e a idéia era algo de puro e verdadeiro.
Eu morri, sou um vampiro. E coisas morrerão para que eu possa viver; beberei o sangue deles para poder viver. E nunca, nunca mais verei Nicolas, nem minha mãe e nenhum dos humanos que conheci e amei, nem alguém de minha família humana. Eu beberei sangue. E viverei para sempre. É exatamente o que vai ser. E o que vai ser está apenas começando; acabou de nascer! E o trabalho de parto que o gerou foi um êxtase como nunca antes conheci.
Eu me pus de pé. Sentia-me leve e poderoso, com um estranho entorpecimento. Fui até o fogo apagado e caminhei através da madeira queimada.
Não havia ossos. Era como se aquele demônio tivesse se desintegrado. Levei até a janela as cinzas que pude recolher com as mãos. E enquanto o vento as levava, sussurrei um adeus para Magnus, imaginando se ainda poderia me ouvir.
No final, só restavam toras carbonizadas e a fuligem, que limpei com as mãos e pulverizei na escuridão.
Agora, era hora de examinar o quarto secreto.


5

A pedra foi movida para fora com facilidade, como eu já havia visto antes, e tinha um gancho na parte interna pelo qual poderia puxá-la para fechar a passagem atrás de mim.
Mas para entrar na estreita passagem escura, eu teria que deitar de barriga. Quando abaixei sobre os joelhos e espiei nela, não pude ver nenhuma luz na outra extremidade. Não gostei da aparência da coisa.
Eu sabia que se ainda fosse mortal, nada poderia induzir-me a rastejar numa passagem como aquela.
Mas o velho vampiro fora bastante claro ao me dizer que o sol poderia destruir-me de modo tão certo quanto o fogo. Eu tinha que chegar até o caixão. E senti que o medo voltava num dilúvio.
Deitei no chão e rastejei como um lagarto pela passagem. Como eu receava, não podia de fato levantar a cabeça. E não havia nenhum espaço para virar e pegar o gancho da pedra. Tive que enfiar o pé no gancho e rastejar para a frente a fim de puxar a pedra atrás de mim.
Escuridão total. Com espaço apenas para me levantar uns poucos centímetros apoiado nos cotovelos.
Eu ofegava, o medo brotava e quase fiquei louco só de pensar que não podia levantar a cabeça. Acabei batendo com ela contra a pedra e fiquei parado, choramingando.
Mas o que eu podia fazer? Tinha de alcançar o caixão.
Assim, dizendo a mim mesmo para parar com aqueles lamentos, comecei a rastejar, cada vez mais rápido. Meus joelhos roçavam nas pedras. Minhas mãos procuravam fendas e fissuras para me puxar para a frente. Meu pescoço doía com o esforço enquanto eu lutava em pânico para não tentar levantar a cabeça.
E quando, de repente, minha mão sentiu uma pedra sólida à frente, empurrei-a com toda minha força. Senti que ela se mexeu quando uma luz pálida infiltrou-se.
Arrastei-me para fora da passagem e vi que me encontrava num pequeno quarto.
O teto era baixo, abobadado, e a janela alta era estreita com as familiares grades pesadas de barras de ferro. Mas a suave luz violeta da noite entrava em abundância, revelando uma enorme lareira embutida na parede oposta, com lenha pronta para queimar e, ao lado, abaixo da janela, um velho sarcófago de pedra.
Minha capa de veludo vermelho forrada de pele jazia sobre o sarcófago. E vislumbrei sobre um banco tosco um magnífico terno de veludo vermelho trabalhado em ouro e muita renda italiana, bem como culotes de seda vermelha, meias de seda branca e sapatos de salto vermelho.
Puxei meus cabelos para trás, tirando-os de meu rosto e enxuguei a fina camada de suor em meu lábio superior e em minha testa. Era sangue aquele suor, e quando o vi em minhas mãos senti uma estranha excitação.
Ah, o que sou eu, pensei, e o que tenho pela frente? Por um longo momento, fiquei olhando para aquele sangue, depois lambi meus dedos. Uma onda de prazer atravessou meu corpo. Isto foi um momento antes de eu poder recompor-me o suficiente para me aproximar da lareira.
Peguei dois gravetos, como o velho vampiro fizera, e, esfregando-os com muita força e rapidez, quase os vi desaparecer quando a chama se ergueu deles. Não havia nenhuma mágica nisso, apenas habilidade. E, enquanto o fogo me aquecia, tirei minhas roupas sujas, limpei com a camisa os últimos vestígios de fezes humanas e atirei tudo no fogo antes de vestir meus novos trajes.
Vermelho, deslumbrante vermelho. Nem mesmo Nicolas tivera roupas como aquelas. Eram trajes para a Corte de Versalhes, com pérolas e pequenos rubis incrustados em seus bordados. A renda da camisa era valenciana, como a que eu tinha visto no vestido de casamento de minha mãe.
Coloquei a capa de lobo sobre os ombros. E embora o forte calafrio tivesse desaparecido de meus membros, eu me sentia como uma criatura esculpida em gelo. Sentia meu sorriso duro, brilhante e estranhamente lento enquanto eu me permitia ver e sentir aqueles trajes.
Sob o resplendor do fogo, olhei para o caixão. A efígie de um velho homem estava esculpida em sua tampa pesada e, no mesmo instante, percebi que era a imagem de Magnus.
Mas ali ele jazia em tranqüilidade, sua boca zombeteira estava selada, seus olhos fitavam o teto com ar suave, seus cabelos eram uma caprichada cabeleira comprida esculpida com ondas e madeixas profundas.
Com certeza, aquela coisa tinha três séculos de idade. Ele estava deitado com as mãos cruzadas sobre o peito; usava um roupão comprido e, da espada que fora cinzelada na pedra, alguém quebrara o punho e parte da bainha.
Fiquei olhando fixamente aquilo por um período de tempo interminável, vendo que havia sido escavado com muito cuidado e muito esforço.
Seria a forma da cruz que alguém procurara remover? Passei meus dedos por cima. Nada aconteceu, é claro, como tampouco quando murmurei todas aquelas orações. E agachando-me ao lado do caixão, desenhei uma cruz na poeira.
De novo, nada.
A seguir, acrescentei alguns traços à cruz para sugerir o corpo de Cristo, seus braços, a curva de seus joelhos, a cabeça inclinada. Escrevi “O Senhor Jesus Cristo”, as únicas palavras que sabia escrever bem, além de meu próprio nome, e mais uma vez nada.
E ainda olhando intranqüilo para as palavras e o pequeno crucifixo, tentei erguer a tampa do caixão.
Mesmo com aquela nova força, não foi fácil. E nenhum homem mortal poderia fazê-lo sozinho.
Mas o que me deixou perplexo foi a extensão da dificuldade. Minha força não era ilimitada. E, com certeza, eu não possuía a força do velho vampiro. Talvez possuísse a força de três homens, ou a força de quatro; era impossível calcular.
Isso me pareceu terrivelmente impressionante naquele momento.
Olhei para dentro do caixão. Nada a não ser um espaço estreito, cheio de sombras, onde não conseguia imaginar-me deitado. Havia palavras em latim inscritas em volta da borda, mas não consegui lê-las.
Isto me atormentou. Desejei que aquelas palavras não estivessem ali, e minha saudade de Magnus, meu desamparo ameaçavam encurralar-me. Eu o odiava por ter-me abandonado! E ocorreu-me, como o máximo da ironia, que eu sentira amor por ele antes de ele se lançar no fogo. Senti amor por ele quando vi os trajes vermelhos.
Será que os demônios se amam? Será que andam de braços dados no inferno, dizendo um para o outro “ah, você é meu amigo, como o amo”, coisas assim? Eu estava apenas especulando, uma vez que não acreditava no inferno. Mas era uma questão de como se conceituava o mal, não? Supunha-se que todas as criaturas no inferno se odiassem umas às outras, assim como todos os eleitos odeiam os condenados, sem reservas.
Ensinaram-me isso durante toda a minha vida. Quando criança, eu ficava aterrorizado com a idéia de que podia ir para o céu e minha mãe para o inferno, e de que deveria odiá-la. Eu não poderia odiá-la. E se fôssemos juntos para o inferno?
Bem, agora eu sei, acreditando ou não no inferno, que os vampiros podem amar-se, que mesmo estando devotado ao mal não se pára de amar. Ou pelo menos foi o que pareceu durante aquele breve momento. Mas não comece a chorar de novo. Não posso suportar todo esse choro.
Virei meus olhos para uma grande arca de madeira que estava parcialmente oculta na parte superior do caixão. Não estava trancada. A tampa de madeira apodrecida quase se soltou das dobradiças quando a abri.
E, embora o velho mestre tivesse dito que estava deixando-me seu tesouro, fiquei estupefato com o que vi ali. A arca estava abarrotada de pedras preciosas, ouro e prata. Havia incontáveis anéis, colares de diamantes, de pérolas, prataria, moedas e centenas e centenas de variados objetos de valor.
Corri meus dedos de leve sobre aquela pilha e em seguida ergui punhados dela, ficando boquiaberto enquanto a luz inflamava o vermelho dos rubis, o verde das esmeraldas. Vi refrações de cores com as quais jamais sonhara e uma riqueza que não dava para calcular. Era a lendária arca do tesouro dos piratas do Caribe, o proverbial resgate de um rei.
E agora era meu.
Examinei mais devagar. Havia artigos pessoais e perecíveis espalhados por todas as partes. Máscaras de cetim apodrecendo em seus enfeites de ouro, lenços de renda e pedaços de pano nos quais estavam presos alfinetes e broches. Ali estavam uma fita de couro na qual estavam pendurados sinos de ouro, um bolorento pedaço de renda preso por um anel, dúzias de caixinhas de rapé, medalhões em tiras de veludo.
Teria Magnus tirado tudo aquilo de suas vítimas?
Levantei uma espada incrustada de jóias, pesada demais para aquela época, e um sapato surrado que havia sido guardado talvez por causa de sua fivela imitando diamante.
Claro que ele tomara tudo que quis. No entanto, ele mesmo usava farrapos surrados, os trajes maltrapilhos de uma outra era, e vivia ali como um eremita podia ter vivido em algum século anterior. Eu não consegui compreender isto.
Mas havia outros objetos espalhados naquele tesouro. Rosários feitos de pedras preciosas deslumbrantes, que ainda tinham seus crucifixos! Toquei as pequenas imagens sagradas. Sacudi a cabeça e mordi o lábio, como se dissesse: que horrível ele ter que roubar isso! Mas também achei muito engraçado. E outra prova de que Deus não exercia nenhum poder sobre mim.
E enquanto eu pensava nisso, tentando decidir se era tão casual quanto parecia no momento, tirei do tesouro um delicado espelho com o cabo incrustado de pérolas.
Olhei para ele de modo quase inconsciente, como muitas vezes se olha para um espelho. E vi nele o que se poderia esperar de um homem normal, só que minha pele estava muito branca, assim como era branca a do velho demônio, e meus olhos se haviam transformado de seu azul habitual para uma mescla de violeta e cobalto suavemente iridescente. Meus cabelos tinham um brilho muito luminoso e, quando passei meus dedos entre eles, senti que possuíam uma nova e estranha vitalidade.
De fato, não era, em absoluto, Lestat que estava no espelho, mas sim alguma réplica dele feita de outras substâncias! E as poucas rugas que o tempo me dera aos vinte anos de idade haviam desaparecido ou sido bastante atenuadas, apenas um pouco mais profundas do que antes.
Fitei meu reflexo. Fiquei emocionado por me descobrir nele. Esfreguei meu rosto, esfreguei também o espelho e apertei os lábios para me impedir de chorar.
Por fim, fechei os olhos e os abri de novo, sorrindo gentilmente para a criatura. Ela respondeu com outro sorriso. Era Lestat, tudo bem. E não parecia haver nada em seu rosto que fosse malévolo de alguma maneira. Bem, não muito malévolo. Apenas a velha malícia, a impulsividade. Ela poderia ser um anjo, de fato, aquela criatura, só que quando suas lágrimas saíam, eram vermelhas e toda sua imagem se avermelhava porque sua visão era vermelha. E ela possuía aqueles dentes pequenos e malignos, que podia pressionar contra o lábio inferior ao sorrir e que a faziam parecer absolutamente aterrorizadora. Um rosto bastante bom com algo de terrível, terrivelmente errado nele!
Mas, de repente, ocorreu-me, estou olhando para meu próprio reflexo! E já não se dizia sempre que fantasmas, espíritos e aqueles que haviam perdido as almas no inferno não tinham sua imagem refletida em espelhos?
Apoderou-se de mim um desejo ardente de saber sobre todas as coisas que eu era. Um desejo ardente de saber como eu deveria me comportar entre os mortais. Eu queria estar nas ruas de Paris, vendo com meus novos olhos todos os milagres da vida que eu jamais vislumbrara. Queria ver os rostos das pessoas, ver as flores se abrindo, e as borboletas. Ver Nicki, ouvir Nicki tocar sua música... não.
Abjure isto. Mas existem mil formas de música, não existem? E quando fechei os olhos, quase pude ouvir a orquestra da Ópera, as árias ecoando em meus ouvidos. Tão forte era a lembrança, tão nítida.
Mas nada seria comum agora. Nem a alegria, a dor ou a mais simples recordação. Tudo possuiria aquele brilho magnífico, até mesmo o desgosto pelas coisas que se perderam para sempre.
Eu depositei o espelho na arca e, tirando dela um dos lenços de renda velhos e amarelados, enxuguei minhas lágrimas. Virei-me e sentei-me devagar diante do fogo. Delicioso, o calor em meu rosto e em minhas mãos.
Fui possuído por uma doce sonolência e, quando voltei a fechar os olhos, me senti imerso de repente num estranho sonho em que Magnus roubava sangue. Retornou a sensação de encantamento, de prazer estonteante — Magnus segurando-me, ligado a mim, meu sangue fluindo para ele. Mas eu ouvia as correntes roçando no chão da velha catacumba, via o vampiro indefeso nos braços de Magnus. E havia mais alguma coisa... algo importante. Um sentido. Sobre roubo, traição, sobre não se render a ninguém, nem a Deus, nem ao demônio e jamais a um homem.
Eu pensava e pensava sobre isso, meio desperto, meio sonhando de novo, e me veio o pensamento mais louco, de que eu contaria tudo aquilo para Nicki, de que tão logo chegasse em casa revelaria tudo, o sonho, o possível sentido, e nós conversaríamos...
Senti um choque horrível e abri os olhos. O ser humano que havia em mim olhava desamparado para aquela câmara. Ele começou a chorar de novo e o demônio recém-nascido ainda era jovem demais para refreá-lo. O choro veio em soluços e coloquei a mão sobre a boca.
Magnus, por que você me deixou? Magnus, o que devo fazer, como vou prosseguir?
Puxei os joelhos e apoiei a cabeça neles e, pouco a pouco, minha mente começou a clarear.
Bem, foi muito engraçado imaginar que você será essa criatura vampiro, pensei, usando essas roupas esplêndidas, correndo os dedos em toda essa fortuna gloriosa. Mas você não pode viver desse jeito! Não pode alimentar-se de seres vivos! Mesmo se for um monstro, você tem uma consciência, natural em você... O Bem e o Mal, bem e mal. Você não pode viver sem acreditar em... não pode tolerar os atos que... amanhã você vai... você vai... você vai o quê?
Você vai beber sangue, não vai?
O ouro e as pedras preciosas brilhavam como brasas na arca próxima e, do outro lado das barras da janela, erguia-se contra o pano de fundo das nuvens cinzentas o bruxuleio violeta da cidade distante. Como seria o sangue deles? Sangue quente e vivo, não sangue de monstro. Minha língua pressionou o céu da boca, os meus caninos.
Pense nisso, Matador de Lobos.
Fui colocando-me de pé aos poucos. Era como se a vontade fizesse isto acontecer, e não o corpo, de tão fácil que era. E peguei a argola de ferro com as chaves que havia levado comigo da câmara externa e fui inspecionar o resto de minha torre.


6

Câmaras vazias. Janelas gradeadas. O grande e infinito desenho da noite acima das ameias. Foi tudo que encontrei acima do solo.
Mas no subsolo da torre, bem ao lado da porta que dava para as escadas da masmorra, havia uma tocha de resina no candelabro da parede e um estojo de isca e pederneira no nicho ao lado. Rastros na poeira. A fechadura, bem azeitada, girou facilmente quando enfim achei a chave certa.
Iluminei o caminho que dava numa escada estreita em caracol e comecei a descer, sentindo repugnância com o cheiro fétido que subia de algum lugar situado bem abaixo de onde eu estava.
Claro que eu conhecia aquele cheiro. Era bem comum em todos os cemitérios de Paris. No de Les Innocents era denso como gás nocivo, e tinha-se de conviver com ele para poder fazer compras nas barracas e negociar com os missivistas. Era o cheiro horrível de corpos em decomposição.
E embora me desse náuseas, fazendo-me recuar alguns passos, não era tão forte assim e o cheiro da resina queimada ajudava a suavizá-lo.
Continuei descendo. Se houvesse algum mortal morto ali, bem, eu não poderia fugir dele.
Mas no primeiro nível abaixo do solo, não encontrei nenhum cadáver. Apenas uma grande e fria câmara mortuária com suas portas de ferro enferrujado abertas diante da escada e três gigantescos sarcófagos de pedra ao centro. Era muito parecida com o cubículo de Magnus lá em cima, só que muito maior. Tinha o mesmo teto baixo e curvo e a mesma lareira tosca.
E o que aquilo podia significar, a não ser que outros vampiros haviam dormido ali um dia? Ninguém põe lareiras em câmaras mortuárias. Pelo menos não que eu soubesse. E havia ali até bancos de pedra. E os sarcófagos eram parecidos com o lá de cima, com grandes figuras entalhadas.
Mas a poeira dos anos recobria tudo. E havia muitas teias de aranha. Sem dúvida, nenhum vampiro habitava ali agora. Praticamente impossível. No entanto, era bem estranho. Onde estavam aqueles que deitaram naqueles caixões? Teriam se atirado na fogueira como Magnus? Ou será que ainda existiam em algum lugar?
Entrei e abri os sarcófagos um por um. Nada dentro deles a não ser poeira. Nenhum indício de outros vampiros, em absoluto, nenhuma indicação de que outros vampiros existiam.
Saí e continuei descendo a escada, apesar de o cheiro de decomposição estar cada vez mais forte. De fato, em muito pouco tempo ele tornou-se insuportável.
Ele vinha de trás de uma porta que eu podia ver embaixo, e foi verdadeiramente difícil obrigar-me a me aproximar dela. Claro que como mortal eu detestaria aquele cheiro, mas isso não era nada comparado à aversão que eu sentia agora. Meu novo corpo queria fugir dele. Eu me detive, respirei fundo e me forcei a ir em direção à porta, decidido a ver o que aquele demônio fizera ali.
Bem, o mau cheiro não era nada diante do que vi.
Numa cela funda de prisão jazia uma pilha de cadáveres em todos os estágios de decomposição, com os ossos e carne putrefata fervilhando de vermes e insetos. Ratos fugiam da luz da tocha e passavam roçando em minhas pernas em seu caminho para a escada. E minha náusea transformou-se num nó em minha garganta. O fedor me sufocava.
Mas não consegui parar de encarar aqueles corpos. Havia algo de importante ali, algo de importância terrível a ser compreendido. E, de repente, me ocorreu que todas aquelas vítimas mortas eram homens — as botas e roupas esfarrapadas davam provas disso — e todos eles tinham cabelos louros. Os poucos em que ainda sobravam traços pareciam ser jovens, altos, de compleição franzina. E o mais recente ocupante da masmorra — o cadáver úmido e malcheiroso que jazia com os braços estendidos para fora das barras — se parecia tanto comigo que poderia ser meu irmão.
Aturdido, avancei até a ponta de minha bota tocar sua cabeça. Abaixei a tocha, enquanto minha boca se abria como que para gritar. Seus olhos úmidos e viscosos, infestados de moscas, eram azuis!
Cambaleei para trás. Fui tomado pelo súbito medo de que a coisa se mexesse, agarrasse meu tornozelo. E eu sabia por que ela faria isso. Quando recuei até a parede, tropecei num prato com comida podre e num cântaro. O cântaro tombou e se quebrou, derramando o leite coalhado como um vômito.
A dor moveu-se em círculos por minhas costelas. O sangue subiu em minha boca como um fogo líquido e projetou-se para fora de minha boca, salpicando o chão diante de mim. Fui obrigado a procurar alcançar a porta aberta a fim de me amparar.
Mas, atordoado pela náusea, fiquei olhando fixo para o sangue. A luz da tocha, fitei sua suntuosa cor de carmim. Observei o sangue escurecer enquanto ia escorrendo pela argamassa entre as pedras. O sangue estava vivo e seu cheiro adocicado cortou como uma lâmina o mau-cheiro dos mortos. Espasmos de sede afastaram a náusea. Minhas costas estavam doendo. Eu me curvava cada vez mais baixo para o sangue, com espantosa elasticidade.
E, durante todo o tempo, meus pensamentos voavam. Aquele jovem estivera vivo naquela cela; aquela comida podre e o leite estavam ali para nutri-lo ou atormentá-lo. Ele morrera na cela, preso entre aqueles cadáveres, sabendo muito bem que em breve seria um deles.
Deus, sofrer aquilo! Sofrer aquilo! E quantos outros conheceram exatamente o mesmo destino, jovens de cabelos louros, todos eles.
Eu estava abaixado de joelhos e curvado. Segurava a tocha abaixada com a mão esquerda e minha cabeça foi descendo em direção ao sangue, minha língua esticava-se para fora como a língua de um lagarto. Ela roçou pelo sangue no chão. Tremores de êxtase. Oh, adorável demais!
Estava eu fazendo aquilo? Estava lambendo aquele sangue a menos de cinco centímetros daquele corpo morto? Estava meu coração palpitando com cada lambida, a menos de cinco centímetros daquele jovem morto que Magnus levara para lá, assim como me levou? Aquele jovem que depois Magnus condenou à morte e não à imortalidade?
A cela imunda tremeluzia intermitentemente como uma chama enquanto eu lambia o sangue. Os cabelos do homem morto tocavam minha testa. Seus olhos me fitavam como cristal partido.
Por que eu não estava aprisionado naquela cela? Em que teste eu passara para não estar gritando agora enquanto sacudia as barras, com o horror que eu antevira na estalagem da aldeia e que me encurralara aos poucos?
As pulsações do sangue passavam por meus braços e pernas. E o som que eu ouvia — aquele som magnífico tão cativante quanto o carmim do sangue, o azul dos olhos do jovem, as asas cintilantes das moscas, o rastejante corpo opalino dos vermes, o brilho da tocha — era o do meu próprio grito, rude e gutural.
Deixei a tocha cair e recuei de joelhos com muito esforço, esbarrando no prato de estanho e no cântaro quebrado. Fiquei de pé e subi correndo a escada. E enquanto batia com força a porta da masmorra, meus gritos subiam e chegavam até o alto da torre.
Fiquei concentrado no som enquanto ele ricocheteava nas pedras e voltava a mim. Eu não podia parar, não conseguia fechar ou tapar minha boca.
Mas, através das portas gradeadas e das janelas estreitas situadas acima, vi a inconfundível luz da manhã chegando. Meus gritos desapareceram. As pedras começaram a brilhar. A luz filtrava-se em volta de mim como vapor escaldante, queimando minhas pálpebras.
Não pensei em correr. Eu simplesmente já estava fazendo isso, correndo e correndo para cima, em direção à câmara secreta.
Quando saí da passagem, o quarto estava cheio de um pálido fogo púrpura. As jóias que transbordavam da arca pareciam estar se movendo. Eu estava quase cego quando ergui a tampa do sarcófago.
Ela caiu rápido em seu lugar. A dor em meu rosto e mãos desapareceu, eu estava tranqüilo e em segurança, o medo e o pesar fundiram-se com trevas frias e insondáveis.


7

Foi a sede que me acordou.
E eu soube de imediato onde estava e o que era, também. Não tive o doce sonho dos mortais, sonhar com vinho branco gelado ou com a relva fresca e verde sob as macieiras do pomar de meu pai.
Na estreita escuridão do caixão de pedra, senti minhas presas com os dedos e achei-as perigosamente compridas e afiadas como pequenas lâminas de faca.
Havia um mortal na torre; embora não houvesse alcançado a porta da câmara externa, eu podia ouvir seus pensamentos.
Eu ouvi sua consternação quando ele descobriu que a porta para as escadas estava trancada. Isto nunca acontecera antes. Eu ouvi seu medo quando ele descobriu a madeira queimada no chão e gritou “Mestre”. Um servo, é o que ele era, e ainda por cima um servo um tanto traiçoeiro.
Fascinava-me ouvir sua mente sem precisar de som, mas uma outra coisa estava perturbando-me. Era seu cheiro!
Ergui a tampa de pedra do sarcófago e saí dele. O cheiro era fraco, mas quase irresistível. Era como o cheiro almiscarado da primeira prostituta em cuja cama dissipei minha paixão. Era como a primeira carne assada de veado após dias e dias de fome no inverno. Como um vinho novo, ou maçãs frescas, ou a água vertendo sobre a beira de um rochedo num dia quente, bastava estender a mão para bebê-la com sofreguidão.
Só que era incomensuravelmente mais saboroso do que isso, aquele cheiro, e o apetite que provocava era muitíssimo mais agudo e mais simples.
Atravessei o túnel secreto como uma criatura nadando na escuridão e, empurrando para fora a pedra na câmara externa, fiquei de pé.
Lá estava o mortal, encarando-me, o rosto pálido com o choque.
Era um homem velho e descarnado e, através de uma indefinida confusão de considerações em sua mente, eu soube que era mestre de cavalariça e cocheiro. Mas a maneira como ouvi isso foi de uma imprecisão irritante.
Então, o rancor imediato que ele sentiu por mim veio como o calor de um fogão. E não houve nenhum mal-entendido nisso. Seus olhos correram por meu rosto e meu corpo. O ódio fervia, encristava-se. Fora ele que conseguira as finas roupas que eu usava. Fora ele que cuidara dos infelizes na masmorra enquanto ainda viviam. E por que, ele perguntava com indignação silenciosa, eu não estava lá?
Isto me fez amá-lo muito, como podem imaginar. Eu seria capaz de matá-lo esmagando-o com as próprias mãos.
— O mestre! — ele disse desesperado. — Onde está ele? Mestre!
Mas o que ele pensava que o mestre era? Uma espécie de feiticeiro, era o que pensava. E agora eu tinha o poder. Em suma, ele não sabia de coisa alguma que me pudesse ser útil.
Mas enquanto eu captava tudo isso, enquanto absorvia tudo em sua mente, muito contra sua vontade, eu estava ficando extasiado com as veias em seu rosto e em suas mãos. E aquele cheiro me embriagava.
Eu podia sentir o fraco batimento de seu coração, depois o gosto de seu sangue, da maneira como seria, e me veio a sensação plena dele, saboroso e quente enquanto escorria dentro de mim.
— O mestre se foi, ardeu no fogo — eu murmurei, ouvindo um som estranho e monótono saindo de mim. Eu me movia bem devagar em sua direção.
Ele olhou de soslaio para o chão e o teto enegrecidos.
— Não, é mentira — disse.
Estava indignado e sua raiva pulsou como uma luz em meu olho. Eu senti a amargura de sua mente e o desespero em seu raciocínio.
Ah, pena que aquela carne viva tivesse aquela aparência! Eu estava possuído por um apetite desapiedado.
E ele sabia disso. De uma maneira desvairada e irracional, ele sentia isso; e, lançando-me um último olhar malévolo, saiu correndo em direção à escada.
Agarrei-o de imediato. Na verdade, gostei de agarrá-lo, de tão simples que foi. Num instante, estendi o braço e reduzi a distância entre nós. No seguinte, ele estava indefeso em minhas mãos, enquanto eu o erguia do chão de modo que seus pés balançavam livres, fazendo força para me chutar.
Eu o segurava com a mesma facilidade com que um homem forte seguraria uma criança, essa era a proporção. Sua mente era uma mistura de pensamentos frenéticos, e ele parecia incapaz de achar uma saída para se salvar.
Mas o tênue zumbido desses pensamentos estava sendo obliterado pelo que vi diante de mim.
Seus olhos não eram mais os portais de sua alma. Eram globos oculares gelatinosos cujas cores me atormentavam. E seu corpo nada mais era que um naco retorcido de carne e sangue quentes, que eu teria de pegar ou largar.
Horrorizava-me o fato de aquele alimento estar vivo, de aquele sangue delicioso estar fluindo através daqueles braços e dedos que lutavam. Depois pareceu perfeito que assim fosse. Ele era o que era, eu era o que era e iria banquetear-me com ele.
Puxei-o para meus lábios. Dilacerei a artéria saliente em seu pescoço. O sangue atingiu o céu de minha boca. Soltei um pequeno grito enquanto o apertava contra meu corpo. Não era como o fluido ardente do sangue do mestre, não aquele elixir adorável que eu bebera nas pedras da masmorra. Não, aqueles foram a própria luz liquefeita. Este, ao contrário, era mil vezes mais suculento, com sabor do espesso coração humano que o bombeava, a própria essência daquele cheiro quente, quase fumegante.
Eu podia sentir meus ombros erguendo-se, meus dedos penetrando cada vez mais fundo em sua carne, e um som quase de zumbido saindo de mim. Nenhuma visão, a não ser a de sua minúscula alma ofegante, um desfalecimento tão poderoso que ele próprio, fosse o que fosse, não participava dele.
Tive que empregar toda a minha força de vontade para, antes do momento final, afastá-lo de mim. Como eu gostaria de sentir seu coração parar de bater. Como eu gostaria de sentir os batimentos diminuírem, depois cessarem e saber que eu o possuía.
Mas não ousei.
Ele escorregou pesadamente dos meus braços, com os membros escarrapachando-se nas pedras, o branco de seus olhos aparecendo por baixo das pálpebras meio cerradas.
E eu me vi incapaz de me afastar de sua morte, sentindo um fascínio mudo por ela. Nem o menor detalhe deveria escapar de mim. Ouvi sua respiração parar, vi o corpo relaxar-se na morte sem lutar.
O sangue aqueceu-me. Eu sentia o pulsar em minhas veias. Senti meu rosto quente com as palmas de minhas mãos, e minha visão tornou-se mais aguda. Eu me sentia mais forte do que se poderia imaginar.
Peguei o cadáver, arrastei-o para baixo pelos degraus em espiral da torre e atirei-o na masmorra fedorenta, para que apodrecesse com os outros que lá estavam.

8

Era hora de sair, hora de testar meus poderes.
Enchi minha carteira e bolsos com tanto dinheiro quanto pudesse carregar de modo confortável, afivelei uma espada ornada de pedras preciosas não muito antiquada e depois desci, trancando o portão de ferro da torre ao sair.
A torre era evidentemente tudo que restava de uma casa arruinada. Mas captei o cheiro de cavalos no vento — um cheiro forte e agradável -talvez da maneira como um animal faria, e dei a volta em silêncio nos fundos em direção a um estábulo improvisado.
Ele continha não apenas uma bela e antiga carruagem, mas também quatro magníficas éguas pretas. Uma perfeita maravilha que não tivessem medo de mim. Beijei seus flancos lisos e os focinhos compridos e suaves. Na verdade, eu estava tão apaixonado por elas que poderia ter passado horas, aprendendo com elas tudo que pudesse através de meus novos sentidos. Mas estava ávido por outras coisas.
Também havia um humano no estábulo e também captei seu cheiro assim que entrei. Mas ele dormia como uma pedra e, quando o acordei, vi que era um garoto meio retardado que não representava nenhuma ameaça para mim.
— Sou seu mestre agora — eu disse enquanto lhe dava uma moeda de ouro — mas não precisarei de você hoje à noite, a não ser para selar um cavalo para mim.
Ele entendeu o suficiente para me dizer que não havia selas no estábulo, depois voltou a dormir.
Não é problema. Cortei um dos cabrestos das longas rédeas da carruagem, eu mesmo coloquei-o na égua mais bonita e saí montado sem sela.
Impossível descrever a sensação, a arrancada do cavalo embaixo de mim, o vento gelado e o grande arco do céu noturno. Meu corpo se fundia com o do animal. Eu estava voando sobre a neve, rindo alto e cantando de vez em quando. Soltava notas agudas como nunca antes alcançara, depois mergulhava em um barítono brilhante. Às vezes ficava simplesmente gritando, numa espécie de alegria. Tinha de ser alegria. Mas como um monstro poderia sentir alegria?
Eu queria cavalgar até Paris, claro. Mas sabia que não estava preparado. Desconhecia ainda todos os meus poderes. E, assim, cavalguei na direção oposta até chegar aos arredores de uma pequena aldeia.
Não havia mortais por perto e, quando me aproximei da pequena aldeia, senti que uma raiva e impulsividade humanas irrompiam através de minha estranha felicidade translúcida.
Desmontei rápido e experimentei a porta da sacristia. A fechadura cedeu e caminhei pela nave em direção à mesa de comunhão.
Não sei o que senti naquele momento. Talvez quisesse que alguma coisa acontecesse. Sentia-me um assassino. E o raio não caiu. Fiquei olhando fixo para o brilho vermelho das velas de vigília sobre o altar. Depois desviei o olhar para as imagens congeladas na escuridão não iluminada dos vitrais.
E, em desespero, pulei a mesa de comunhão e coloquei minhas mãos sobre o próprio sacrário. Arrombei suas portinhas e retirei de lá o cibório incrustado de pedras preciosas com suas hóstias consagradas. Não, não havia nenhum poder ali, nada que eu pudesse sentir ou ver ou conhecer com algum de meus monstruosos sentidos, nada que me respondesse. Havia hóstias, ouro, cera e velas.
Curvei minha cabeça sobre o altar. Eu devia estar parecendo o padre no meio da missa. Depois, coloquei tudo de volta no sacrário. Fechei-o muito bem, de modo que ninguém soubesse que um sacrilégio havia sido cometido.
Em seguida desci por uma das laterais da igreja e subi pela outra, com as pinturas e estátuas lúgubres me fascinando. Percebi que estava vendo o processo de criação do escultor e do pintor, não apenas o milagre da criação. Estava vendo o modo como o verniz captava a luz. Estava vendo pequenos erros de perspectiva, lampejos de inesperadas expressividades.
O que os grandes mestres seriam aos meus olhos, eu estava pensando. Flagrei-me olhando fixo para os mais simples detalhes pintados nas paredes de reboco. Depois me ajoelhei para olhar os desenhos no mármore, até me dar conta de que estava estirado, olhando com olhos arregalados para o chão debaixo de meu nariz.
Eu estava ficando descontrolado, sem dúvida. Levantei-me, tremendo e chorando um pouco, olhando para as velas como se estivessem vivas e ficando muito aborrecido com isso.
Hora de sair daquele lugar e ir para a aldeia.
Fiquei na aldeia durante duas horas e, na maior parte do tempo, não fui visto nem ouvido por ninguém.
Achei absurdamente fácil pular os muros de jardim, saltar do chão para os telhados baixos. Eu podia pular de uma altura de três andares até o chão e escalar a lateral de um prédio, cravando minhas unhas e dedos dos pés na argamassa entre as pedras.
Espiei por janelas. Vi casais dormindo em camas desfeitas, crianças cochilando em berços, velhas costurando com luz tênue.
E, para mim, as casas pareciam casas de boneca em sua perfeição. Coleções perfeitas de brinquedos com suas delicadas cadeirinhas de madeira e polidos consolos de lareira, cortinas remendadas e assoalhos bem esfregados.
Eu via tudo isso como alguém que jamais houvesse feito parte da vida, com olhar atento e terno para os mais simples detalhes. Um avental branco engomado em seu cabide, botas surradas sobre a lareira, um cântaro ao lado da cama.
E as pessoas... oh, as pessoas eram maravilhosas.
Claro que captei seu cheiro, mas eu não estava com sede e isso não me deixou angustiado. Ao contrário, apaixonei-me por suas peles rosadas e membros delicados, pela precisão com que se mexiam, por todo o processo de suas vidas, como se jamais tivesse sido um deles. Parecia notável que tivessem cinco dedos em cada mão. Eles bocejavam, choravam, mudavam de posição durante o sono. Eu estava encantado com eles.
E, quando falavam, as paredes mais grossas não conseguiam impedir-me de ouvir suas palavras.
Mas o aspecto mais divertido de minhas explorações era que eu ouvia os pensamentos daquelas pessoas, assim como ouvira do servo maligno que eu matara. Infelicidade, tristeza, esperança. Vinham em ondas pelo ar, algumas fracas, outras assustadoramente fortes, outras nada mais que um bruxuleio que desaparecia antes que eu conhecesse a fonte.
Mas, para ser exato, eu não tinha o poder de ler as mentes.
Os pensamentos mais triviais ficavam ocultos a mim e, quando eu mergulhava em minhas próprias reflexões, até mesmo as paixões mais fortes não se introduziam.
Em suma, era um sentimento intenso que era levado a mim e só quando eu o desejava receber, e havia algumas mentes que mesmo no calor da raiva não me transmitiam coisa alguma.
Essas descobertas me surpreenderam e quase me doeram, como aconteceu com a beleza que eu via em toda parte, o esplendor das coisas comuns. Mas eu sabia perfeitamente bem que havia um abismo por trás delas, no qual eu podia cair de repente, sem saída.
Afinal de contas, eu não era um daqueles cálidos e pulsantes milagres de complicação e inocência. Eles eram minhas vítimas.
Hora de deixar a aldeia. Já havia aprendido bastante ali. Mas pouco antes de eu partir, realizei um ato final de ousadia. Não pude evitar. Tive que fazê-lo.
Erguendo a gola alta de minha capa vermelha, entrei na estalagem, procurei um canto afastado da lareira e pedi um copo de vinho. Todo mundo que estava no pequeno local olhou para mim, mas não porque soubessem que havia um ser sobrenatural entre eles. Estavam apenas olhando de soslaio para o cavalheiro com roupas caras! E fiquei ali durante vinte minutos, colocando-me à prova. Ninguém, nem mesmo o homem que me serviu, percebeu coisa alguma! Claro que não toquei no vinho. Sabia que meu corpo não toleraria nem o leve cheiro dele. Mas a questão era que eu podia enganar os mortais! Podia circular entre eles!
Eu estava em júbilo quando deixei a estalagem. Assim que cheguei no bosque, comecei a correr. E depois estava correndo tão rápido que o céu e as árvores se haviam tornado um borrão. Eu estava quase voando.
Então, parei, pulei e fiquei dançando em círculos. Peguei pedras e arremessei-as tão longe que nem pude vê-las cair no chão. E quando vi um galho de árvore caído, grosso e cheio de seiva, peguei-o e quebrei-o no joelho como se fosse um graveto.
Berrei, depois cantei a plenos pulmões de novo. Caí na grama dando risadas.
Depois levantei-me, tirei a capa e a espada e comecei a dar saltos mortais de lado. Dei saltos mortais da mesma maneira que os acrobatas no teatro de Renaud. E em seguida dei um salto mortal perfeito. Dei outro, desta vez para trás, a seguir para a frente e depois dei saltos mortais duplos e triplos, saltando cerca de quatro metros e meio no ar antes de cair em pé, um tanto ou quanto sem fôlego e querendo fazer mais um pouco daquelas proezas.
Mas o dia estava amanhecendo.
Apenas uma sutil mudança no ar, no céu, mas eu sabia que estava amanhecendo como se os Sinos do Inferno estivessem tocando. Os Sinos do Inferno chamando o vampiro à casa para o sono da morte. Ah, a beleza enternecedora do céu, a beleza da visão dos campanários sombrios. E um curioso pensamento me ocorreu, o de que a luz do fogo do inferno deveria ser tão brilhante quanto a luz do sol, e seria a única luz do sol que eu veria de novo.
Mas o que foi que fiz? Eu pensava. Eu não pedi isso, não me dei por vencido. Mesmo quando Magnus me disse que eu estava morrendo, eu lutei com ele e, no entanto, estou ouvindo agora os Sinos do Inferno.
Bem, quem se importa?
Quando cheguei no pátio da igreja, pronto para cavalgar para casa, algo me distraiu.
Eu estava segurando as rédeas de meu cavalo, olhando para o pequeno campo de túmulos sem conseguir imaginar direito o que era. Então, veio de novo e eu soube. Senti uma presença distinta no pátio da igreja.
Eu estava tão imóvel que ouvia o sangue trovejando em minhas veias.
Não era humana aquela presença! Não tinha cheiro nenhum. E não havia pensamentos humanos vindo dela. Parecia ocultar-se, estava na defensiva pois sabia que eu estava ali. Estava observando-me.
Poderia eu estar imaginando aquilo?
Fiquei prestando atenção, olhando. Lápides cinzentas emergiam da neve. E, mais ao longe, havia uma fileira de antigas criptas, maiores, ornamentadas, mas tão arruinadas quanto as lápides.
Parecia que a presença arrastava-se em algum lugar próximo às criptas e então a senti, de modo distinto, quando ela se moveu em direção às árvores em volta.
— Quem é você? — eu inquiri, ouvindo minha voz como uma faca. — Responda-me! — gritei ainda mais alto.
Senti uma grande agitação nela, naquela presença, e estava certo de que ela se afastava com muita rapidez.
Atravessei correndo o pátio da igreja atrás dela, e pude sentir que se afastava. No entanto, não vi coisa alguma no árido bosque. E percebi que eu era mais forte do que ela e que tivera medo de mim!
Bem, imagine só! Com medo de mim.
E não tinha idéia se ela era ou não corpórea, se era um vampiro como eu, ou alguma coisa sem corpo.
— Bem, uma coisa é certa — eu disse. — Você é um covarde! Um zumbido no ar. Por um instante, o bosque pareceu respirar.
Fui possuído pela sensação de meu próprio poder, que havia estado fermentando o tempo todo. Eu não tinha medo de nada. Nem da igreja, nem da escuridão, nem dos vermes que fervilhavam nos cadáveres de minha masmorra. Nem mesmo daquela estranha força sinistra que se retirara para o bosque e parecia estar ao alcance de novo.
Eu era um demônio extraordinário! Se estivesse sentado nos degraus do inferno com os cotovelos sobre os joelhos, e o diabo dissesse: “Lestat, venha escolher a forma de demônio que deseja ser para vagar pela terra”, como poderia escolher um demônio melhor do que eu? E, de repente, pareceu que o sofrimento era uma experiência que eu conhecera em outra existência e que jamais voltaria a conhecer.
Agora, quando penso naquela primeira noite e em especial naquele momento particular, não posso deixar de rir.


9

Na noite seguinte parti rapidamente para Paris, levando tanto ouro quanto pude carregar. O sol acabara de mergulhar no horizonte quando abri meus olhos, e uma clara luz azul-celeste ainda emanava do céu no momento em que montei e parti cavalgando para a cidade.
Eu estava morto de fome.
E, por sorte ou por azar, fui atacado por um assaltante antes de chegar aos muros da cidade. Ele saltou do bosque, descarregando a pistola, e cheguei a ver a bala sair do cano da arma e passar por mim enquanto eu pulava do cavalo e partia para cima dele.
Era um homem forte e eu fiquei assombrado com o prazer que sentia com suas imprecações e sua resistência. O servo maligno que eu pegara na noite anterior era velho. Este era um corpo jovem e vigoroso. Até mesmo a aspereza de sua barba malfeita me excitava, e eu adorei a força de suas mãos enquanto ele batia em mim. Mas aquilo não era um esporte. Ele esmoreceu quando cravei meus dentes na artéria, e quando o sangue saiu era pura voluptuosidade. Na verdade, era tão delicioso que esqueci por completo de me afastar antes que o coração parasse de bater.
Estávamos juntos, de joelhos na neve, e foi como uma paulada, a vida entrando em mim com o sangue. Não consegui mexer-me durante um longo tempo. Hummm, já violei as regras, eu pensei. Será que vou morrer agora? Não parece que é isso que vai acontecer. Só havia aquele delírio vibrando.
E o pobre bastardo morto em meus braços, ele que teria explodido meu rosto se eu tivesse deixado.
Fiquei olhando fixo para o céu que escurecia, para a grande massa de sombras cintilantes à frente que era Paris. E só sentia aquele calor e a força que aumentava.
Até ali tudo bem. Eu me pus de pé e enxuguei os lábios. Em seguida, arremessei o corpo o mais longe que pude sobre a neve intacta. Eu estava mais forte do que nunca.
E fiquei ali durante um breve momento, sentindo-me voraz e assassino, apenas querendo matar de novo para que aquele êxtase continuasse para sempre. Mas não poderia beber mais sangue e, aos poucos, fui ficando calmo e um pouco diferente. Uma sensação de desconsolo tomou conta de mim. O sentimento de estar sozinho, como se o ladrão fosse um amigo ou um parente que tivesse me abandonado. Não conseguia compreender isso, só que o ato de beber havia sido tão íntimo. Agora, seu cheiro estava em mim e eu bem que gostei. Mas lá jazia ele, a metros de distância, sobre a crosta enrugada da neve, as mãos e o rosto parecendo cinzentos sob a lua que subia.
Que inferno, o filho da mãe ia matar-me, não ia?
Uma hora depois encontrei um advogado competente chamado Pierre Roget, em sua casa em Marais, um jovem ambicioso com uma mente completamente aberta para mim. Ganancioso, esperto, consciencioso. Era mesmo o que eu desejava. Eu não apenas conseguia ler seus pensamentos, quando ele não estava falando, como ele acreditava em tudo que eu lhe dizia.
Estava muitíssimo ansioso para servir ao marido de uma herdeira de São Domingo. E, com certeza, apagaria todas as velas, menos uma, se meus olhos ainda estivessem doendo por causa da febre tropical. Quanto à minha fortuna em pedras preciosas, ele tinha ligações com os joalheiros mais conceituados. Contas bancárias e letras de câmbio para minha família em Auvergne — sim, de imediato.
Era mais fácil do que interpretar Lelio.
Mas eu estava encontrando dificuldades para me concentrar. Tudo me distraía — a chama fumegante da vela no tinteiro de bronze, os desenhos dourados do papel de parede chinês, e o assombroso rostinho de monsieur Roget, com seus olhos cintilando por trás de minúsculos óculos octogonais. Seus dentes me faziam pensar nas teclas de um piano.
Objetos comuns pareciam dançar no aposento. Um baú me encarava com seus puxadores de bronze servindo de olhos. E uma mulher que cantava num quarto do andar de cima, abafando o ruído surdo e baixo de um fogão, parecia estar dizendo algo em voz baixa numa linguagem vibrante e secreta, como “vem a mim”.
Mas parecia que seria assim para sempre, e eu teria que pegar a prática. O dinheiro devia ser enviado por mensageiro naquela mesma noite para meu pai e meus irmãos, e para Nicolas de Lenfent, um músico da Casa de Téspis de Renaud, a quem se devia dizer apenas que a riqueza viera de seu amigo Lestat de Lioncourt. Era desejo de Lestat de Lioncourt que Nicolas de Lenfent se mudasse de imediato para um apartamento decente na Île St.-Louis, ou para algum outro local adequado, e Roget deveria, é claro, ajudá-lo nisso e dali em diante Nicolas de Lenfent deveria estudar violino. Roget deveria comprar para Nicolas de Lenfent o melhor violino disponível, um Stradivarius.
E, por fim, uma carta separada devia ser escrita em italiano para minha mãe, a marquesa Gabrielle de Lioncourt, de modo que ninguém mais pudesse lê-la, e uma bolsa especial seria enviada a ela. Se ela pudesse empreender uma viagem para o sul da Itália, para o lugar onde havia nascido, talvez isso conseguisse deter o avanço de sua doença.
A idéia de vê-la com liberdade para fugir me deixou tonto. Fiquei imaginando o que ela pensaria disso.
Durante um longo tempo, não ouvi nada do que Roget dizia. Eu a imaginava vestida, pelo menos uma vez na vida, como a marquesa que era, e saindo pelos portões de nosso castelo em sua carruagem puxada por seis cavalos. E então me lembrei de seu rosto devastado pela doença e ouvi sua tosse pulmonar, como se ela estivesse ali comigo.
— Envie a carta e o dinheiro para ela hoje à noite — eu disse. — Não me importa quanto custa. Faça-o.
Depositei na mesa uma quantidade de ouro suficiente para proporcionar-lhe conforto durante sua existência, se é que tinha uma existência.
— Muito bem — eu disse — conhece algum mercador que negocie com objetos finos... pinturas, tapeçarias? Alguém que pudesse abrir suas lojas e depósitos para nós ainda hoje à noite?
— Claro, monsieur. Permita que eu vá pegar meu casaco. Iremos agora mesmo. Em poucos minutos estávamos indo para o St.-Denis, nos arredores de Paris. E durante horas perambulei com meus servidores mortais através de um paraíso de riqueza material, adquirindo tudo que desejava. Sofás e cadeiras, porcelanas e baixelas de prata, cortinas e estátuas — todas essas coisas eram minhas, era só pegar. E em minha mente eu ia transformando o castelo em que havia crescido, enquanto mais e mais mercadorias eram carregadas para fora a fim de serem encaixotadas e embarcadas imediatamente para o sul. Enviei para meus pequenos sobrinhos e sobrinhas brinquedos com os quais eles jamais sonharam — pequenos navios com velas de verdade, casas de boneca de incrível arte e perfeição.
Eu aprendia com cada coisa em que tocava. E havia momentos em que todas as cores e texturas tornavam-se lustrosas demais, irresistíveis demais. Eu chorava por dentro.
Mas, durante todo esse tempo, eu teria ido até o fim interpretando o papel de humano, se não fosse por um acidente infeliz.
Num determinado momento enquanto vagávamos pelo depósito da loja, apareceu um rato, como costumam fazer os ousados ratos de cidade, correndo ao longo da parede bem perto de nós. Eu encarei-o. Nada de estranho, claro. Mas ali, em meio ao reboco, madeira de lei e tecidos bordados, o rato parecia maravilhosamente especial. E os homens, não entendendo direito, claro, começaram a murmurar frenéticas desculpas por causa do rato e a bater com o pé no chão para afugentá-lo de nós.
Para mim, suas vozes tornaram-se uma mistura de sons que pareciam ensopado borbulhando numa panela. Tudo em que eu conseguia pensar era que o rato tinha pés muito minúsculos e que eu ainda não examinara um rato ou qualquer criatura pequena de sangue quente. Peguei o rato, fácil demais, creio, e olhei para seus pés. Queria ver que tipo de pequenas unhas ele possuía, e como era a carne entre seus dedinhos, e me esqueci dos homens por completo.
Foi o súbito silêncio deles que me trouxe de volta a mim mesmo. Ambos me encaravam estarrecidos.
Eu sorri para eles da maneira mais inocente que pude, soltei o rato e voltei às compras.
Bem, eles jamais disseram coisa alguma sobre isso. Mas aprendi uma lição, eu realmente assustei-os.
Mais tarde, naquela noite, dei a meu advogado uma última incumbência: ele devia enviar um presente de cem coroas para o proprietário de um teatro chamado Renaud, com um bilhete de agradecimento de minha parte por sua generosidade.
— Descubra qual é a situação dessa pequena casa de espetáculos — eu disse. — Descubra se tem algum débito.
Claro que eu jamais chegaria perto do teatro. Eles jamais deviam imaginar o que acontecera, jamais deviam ser contaminados. E até o momento eu havia feito tudo que podia por todos aqueles que amava, não?
E quando tudo aquilo terminou, quando os relógios de igreja bateram três horas em cima dos telhados brancos e eu estava com fome suficiente para sentir o cheiro de sangue em toda parte para onde me virava, me vi parado sozinho no deserto bulevar du Temple.
A neve suja se transformara em lama sob as rodas das carruagens, e eu estava olhando para a Casa de Téspis com suas paredes salpicadas, seus cartazes rasgados e o nome do jovem ator mortal, Lestat de Valois, ainda escrito ali em letras vermelhas.


10

As noites seguintes foram um tormento. Comecei a beber Paris como se a cidade fosse feita de sangue. Em cada começo de noite, eu atacava nos piores bairros, atracando-me com ladrões e assassinos, muitas vezes dando-lhes a ridícula chance de se defender, depois fechando-os num abraço fatal e banqueteando-me até o ponto da gulodice.
Saboreei diferentes tipos de matança: criaturas grandalhonas e desajeitadas, outras pequenas e rijas, as hirsutas e as de pele escura, mas meus favoritos eram os salafrários bem jovens que matariam qualquer um pelas moedas do bolso.
Eu adorava seus grunhidos e imprecações. Às vezes, eu os segurava com uma das mãos e ria deles até ficarem com verdadeira fúria, arremessava suas facas para cima dos telhados e espedaçava suas pistolas contra as paredes. Nem era preciso usar de toda força, eu agia como um gato que jamais tivesse permissão para saltar. E a única coisa que detestava neles era o medo. Se estivessem realmente com medo, em geral eu perdia o interesse.
À medida que o tempo passava, fui aprendendo a prolongar a morte. Eu bebia um pouco de um, um pouco mais de outro e depois atingia o êxtase com a morte do terceiro ou do quarto. Era a caça e a luta que estava se multiplicando para meu próprio prazer. E quando eu me fartava com todo esse caçar e beber numa noite de satisfazer cerca de seis vampiros sadios, eu voltava meus olhos para o resto de Paris, para todas as gloriosas diversões para as quais não tinha dinheiro antes.
Mas não antes de ir à casa de Roget em busca de notícias de Nicolas ou de minha mãe.
As cartas dela eram transbordantes de felicidade com minha boa sorte e ela prometia ir à Itália na primavera se tivesse forças para fazê-lo. Por enquanto, queria livros de Paris, claro, jornais e partituras para o cravo que eu enviara. E precisava saber: eu estava de fato feliz? Havia realizado meus sonhos? Estava desconfiada da riqueza. Eu havia sido tão feliz no teatro de Renaud. Eu tinha de confiar nela.
Foi uma agonia ouvir essas palavras lidas para mim. Era hora de me tornar um verdadeiro mentiroso, coisa que nunca havia sido. Mas por ela eu faria isso.
Quanto a Nicki, eu devia saber que não se contentaria com presentes e histórias vagas, que iria pedir para me ver e que continuaria pedindo. Ele estava deixando Roget um pouco assustado.
Mas de nada adiantava. Não havia coisa alguma que o advogado pudesse dizer-lhe, a não ser o que eu havia explicado. E eu estava com tanto medo de ver Nicki que nem perguntei pela localização da casa para a qual ele se mudara. Eu disse ao advogado para se assegurar de que ele estudasse com seu maestro italiano e de que tivesse tudo que pudesse desejar.
Mas, de algum modo, consegui saber, contra minha vontade, que Nicolas não abandonara o teatro. Estava tocando na Casa de Téspis de Renaud.
Ora, aquilo me irritou. Por que, diabos, pensei, ele estaria fazendo isso?
Porque, assim como eu, ele amava aquilo, esse era o motivo. Será que alguém precisava mesmo me dizer isso? Éramos todos irmãos naquela pequena ratoeira que era a casa de espetáculos. Só de pensar no momento em que as cortinas se levantavam, a platéia começava a aplaudir e gritar...
Não. Envie caixas de vinho e champanhe para o teatro. Envie flores para Jeannette e Luchina, as moças com quem contracenei com o maior amor, e mais presentes de ouro para Renaud. Salde as dívidas que ele tem.
Mas, à medida que as noites passavam e esses presentes eram despachados, Renaud foi ficando embaraçado com tudo aquilo. Quinze dias depois, Roget me disse que Renaud fizera uma proposta.
Queria que eu comprasse a Casa de Téspis e o mantivesse como diretor, com capital suficiente para encenar espetáculos maiores e mais maravilhosos do que já havia tentado antes. Com meu dinheiro e seu talento, faríamos da casa o assunto de Paris.
Não respondi de imediato. Levei alguns momentos para perceber que poderia ser o dono do teatro. Poderia ser seu dono como o era das pedras preciosas da arca, ou das roupas que usava, ou da casa de boneca que enviara para minhas sobrinhas. Eu disse não e saí batendo a porta.
Depois, voltei em seguida.
— Está bem, compre o teatro — eu disse — e dê a ele dez mil coroas para fazer o que quiser.
Era uma fortuna. E eu nem sequer sabia por que fizera isso.
Esse sofrimento vai passar, pensei, tem de passar. E devo ter controle de meus pensamentos, compreender que essas coisas não podem afetar-me.
Afinal de contas, onde eu passava meu tempo agora? Nos maiores teatros de Paris. Tinha os melhores lugares para assistir ao balé e à ópera, para os dramas de Molière e Racine. Estava diante das luzes do palco, encarando os grandes atores e atrizes. Tinha ternos feitos de todas as cores do arco-íris, jóias nos dedos, perucas na última moda, sapatos com fivelas de diamante, assim como saltos dourados.
E tinha a eternidade para me embriagar com a poesia que estava ouvindo, me embriagar com o canto e a curva descrita pelos braços do bailarino, me embriagar com o órgão ressoando na grande gruta de Notre Dame, me embriagar com os carrilhões que marcavam as horas para mim, embriagar com a neve caindo sem fazer barulho nos jardins desertos das Tulherias.
E a cada noite eu me tornava menos cuidadoso entre os mortais, mais à vontade com eles.
Nem mesmo um mês se passou até eu juntar a coragem para mergulhar direto num baile repleto de gente no Palais Royal. Eu estava com o corpo quente e o rosto corado por causa da matança e entrei logo na dança. Não levantei a mais leve suspeita. Ao contrário, as mulheres pareciam atraídas por mim, e adorei o toque de seus dedos quentes e o suave toque de seus braços e seios.
Depois disso, eu me perdia entre a multidão nos bulevares no começo da noite. Passava apressado pelo teatro de Renaud, me introduzia nos outros teatros para assistir aos espetáculos de marionetes, comediantes e acrobatas. Já não fugia mais dos lampiões de rua. Entrava nos bares e comprava café só para sentir seu calor em meus dedos, e falava com os homens quando queria.
Até discutia com eles sobre a situação da monarquia e passei a dominar como um louco bilhar e cartas. Parecia-me que poderia entrar direto na Casa de Téspis, se quisesse, comprar uma entrada e ir para a galeria para ver o que estava acontecendo. Para ver Nicolas!
Bem, não fiz isso. Por que estava sonhando em ir para perto de Nicki? Uma coisa era enganar estranhos, homens e mulheres que jamais me conheceram, mas o que Nicolas veria se olhasse direto em meus olhos? O que veria quando olhasse para minha pele? Além disso, tenho muito o que fazer, eu dizia para mim mesmo.
Eu estava aprendendo cada vez mais sobre minha natureza e meus poderes.
Meus cabelos, por exemplo, estavam mais claros, porém mais espessos, e não cresciam em absoluto. Assim como não cresciam minhas unhas das mãos e dos pés, que tinham um brilho maior; se eu as aparasse com lima, se regenerariam durante o dia até o mesmo comprimento que tinham quando morri. E embora as pessoas não pudessem perceber esses segredos em rápido exame, elas sentiam outras coisas, um brilho não natural em meus olhos, que refletiam exageradamente as cores, e uma leve luminescência em minha pele.
Quando eu estava com fome, essa luminescência se acentuava. Mais razão ainda para me alimentar.
E eu estava aprendendo que podia escravizar as pessoas, se as encarasse com severidade e se minha voz pedisse com modulação controlada. Eu era capaz de falar tão baixo que a audição humana não captaria, e se gritasse ou risse alto demais, podia estourar os tímpanos dos outros. Podia ferir meus próprios ouvidos.
Havia outras dificuldades: meus movimentos. Eu podia caminhar, correr, dançar, sorrir e gesticular como um ser humano, mas se ficasse surpreso, horrorizado ou aflito, meu corpo podia curvar-se e contorcer-se como o de um acrobata.
Até mesmo minhas expressões faciais podiam ser fortemente exageradas. Uma vez, enquanto passeava distraído no bulevar du Temple, pensando em Nicolas, claro, me sentei debaixo de uma árvore, dobrei os joelhos e coloquei as mãos em ambos os lados da cabeça, como um duende melancólico em conto de fadas. Cavalheiros do século XVIII, vestidos com sobrecasacas de brocados e meias de seda branca, não faziam coisas como essa, pelo menos não em público.
E numa outra ocasião, enquanto estava mergulhado na contemplação da mudança de luz nas superfícies, pulei no alto de uma carruagem e me sentei com as pernas cruzadas, os cotovelos apoiados nos joelhos.
Bem, isso assustava as pessoas. Isso as amedrontava. Porém, na maioria das vezes, mesmo quando assustadas com a brancura de minha pele, elas apenas desviavam o olhar. Eu logo percebi que elas se enganavam, dizendo que tudo podia ser explicado. Era a maneira de pensar racional do século XVIII.
Afinal de contas, havia cem anos que não acontecia um caso de feitiçaria, sendo o último que eu conhecia o julgamento de La Voisin, uma cartomante que fora queimada viva na época de Luís XIV, o Rei Sol.
E estávamos em Paris. De modo que se eu quebrasse acidentalmente taças de cristal ao erguê-las, ou batesse as portas contra as paredes quando as abria, as pessoas imaginavam que eu estava bêbado.
Mas, de vez em quando, eu respondia a perguntas antes que os mortais as fizessem. Eu caía em estados de letargia só de olhar para velas ou galhos de árvore, e não me mexia durante tanto tempo que as pessoas me perguntavam se eu estava passando mal.
E meu pior problema era o riso. Eu tinha acessos de riso e não conseguia parar. Qualquer coisa podia causá-los. Até mesmo a pura loucura de minha situação podia provocar meu riso.
Isto ainda acontece comigo com muita facilidade. Nenhuma perda, nenhum sofrimento, nenhuma profunda compreensão de minha condição modificou isso. Se acho alguma coisa engraçada, começo a rir e não consigo parar.
A propósito, isso faz com que outros vampiros fiquem furiosos. Mas estou me adiantando à história.
Como é provável que já tenham notado, não fiz nenhuma menção de outros vampiros. O fato é que não encontrei nenhum.
Não pude encontrar nenhum outro ser sobrenatural em toda Paris.
Mortais à minha esquerda, mortais à minha direita, e de vez em quando — no exato momento em que me convencia de que aquilo não estava acontecendo — eu sentia aquela vaga e enlouquecedoramente esquiva presença.
Não se tornara nem um pouco mais substancial do que havia sido naquela primeira noite, no pátio da igreja da aldeia. E invariavelmente surgia nas vizinhanças de um cemitério de Paris.
Eu sempre parava, girava e tentava atraí-la para mim. Mas nunca adiantou, a coisa desaparecia antes que eu pudesse ter certeza de sua presença. Nunca pude encontrá-la sozinho e o cheiro fétido dos cemitérios da cidade era tão repugnante que eu não conseguiria entrar neles.
Isto estava parecendo ser mais do que rabugice ou lembranças ruins de minha masmorra embaixo da torre. A repulsão que sentia diante da visão ou cheiro da morte parecia fazer parte de minha natureza.
Eu não conseguia assistir às execuções, da mesma forma que na época em que era um menino trêmulo de Auvergne, e os cadáveres me faziam cobrir o rosto. Acho que ficava ofendido com a morte, a menos que eu fosse a causa dela! E eu tinha que fugir para longe de minhas vítimas mortas quase de imediato.
Mas voltemos à questão da presença. Cheguei a me perguntar se não seria uma outra espécie de assombração, alguma coisa que não pudesse comungar comigo. Por outro lado, eu tinha a nítida impressão de que a presença me observava, talvez até revelando-se deliberadamente para mim.
Seja lá o que fosse, eu não via outros vampiros em Paris. E estava começando a imaginar se poderia haver mais do que um de nós em uma determinada época. Talvez Magnus tivesse destruído o vampiro de quem roubou o sangue. Talvez tivesse que morrer depois de transmitir seus poderes. E eu também morreria caso desejasse criar um outro vampiro.
Mas não, isso não fazia sentido. Magnus ainda tinha uma grande força mesmo depois de ter-me dado seu sangue. E havia acorrentado sua vítima-vampiro quando roubou seus poderes.
Um grande mistério, um mistério enlouquecedor. Mas, por enquanto, a ignorância era uma verdadeira bênção. E eu estava me saindo muito bem, descobrindo coisas sem a ajuda de Magnus. E talvez essa tenha sido a intenção de Magnus. Talvez essa tenha sido sua maneira de aprender séculos atrás.
Lembrei-me de suas palavras, de que na câmara secreta da torre eu encontraria tudo de que precisaria para prosperar.
As horas voavam enquanto eu vagava pela cidade. E eu só deixava deliberadamente a companhia dos seres humanos para ir esconder-me na torre durante o dia.
No entanto, já estava começando a me perguntar: “Se você pode dançar com eles, se pode jogar bilhar e conversar com eles, então por que não pode habitar entre eles, do mesmo modo que fazia quando era vivo? Por que não poderia passar por um deles? E entrar de novo na própria trama da vida onde existe... o quê? Diga!”
E já era quase primavera. As noites estavam ficando mais quentes, a Casa de Téspis estava encenando um novo drama com novos acrobatas se apresentando entre os atos. As árvores floresciam de novo e eu pensava em Nicki em todas as horas que passava acordado.
Em uma noite de março, percebi, enquanto Roget lia a carta de minha mãe para mim, que eu era capaz de ler tão bem quanto ele. Havia aprendido a ler através de mil fontes, sem sequer tentar. Levei a carta comigo para casa.
Até mesmo a câmara interna já não estava mais fria, de fato. E, pela primeira vez, sentei-me ao lado da janela e li as palavras de minha mãe em particular. Quase pude ouvir sua voz falando para mim:
“Nicolas escreveu dizendo que você comprou o teatro de Renaud. De modo que é dono do pequeno teatro no bulevar onde foi tão feliz. Mas você ainda possui a felicidade? Quando me responderá?”
Dobrei a carta e enfiei-a no bolso. Lágrimas de sangue brotavam em meus olhos. Por que ela era capaz de compreender tanto e ainda assim tão pouco?


11

O vento amainara. Todos os odores da cidade estavam retornando. E os mercados enchiam-se de flores. Corri para a casa de Roget, sem sequer pensar no que estava fazendo, e pedi que me dissesse onde Nicolas vivia. Apenas daria uma olhada nele, me asseguraria de que ele estivesse com boa saúde, de que a casa era boa o bastante.
Era na Île St.-Louis, e possuía uma fachada muito impressionante, tal como eu desejava, mas todas as janelas ao longo do cais estavam fechadas.
Fiquei observando-a durante um longo tempo, enquanto carruagens passavam uma após a outra pela ponte próxima. E eu sabia que tinha de ver Nicki.
Comecei a escalar a parede da mesma maneira que escalara paredes na aldeia, e achei surpreendentemente fácil. Escalei um andar após o outro, indo mais alto do que ousara no passado, depois movi-me depressa sobre o telhado e desci pela parte interna do pátio para olhar o apartamento de Nicki.
Passei por um punhado de janelas abertas antes de chegar na certa. E então lá estava Nicolas no clarão da mesa de jantar; Jeannette e Luchina estavam com ele, e eles estavam fazendo a última refeição da noite, o que costumávamos fazer juntos quando o teatro fechava.
À primeira visão dele, afastei-me do batente da janela e fechei os olhos. Podia ter caído se minha mão direita não tivesse agarrado rapidamente a parede, como se tivesse vontade própria. Tinha visto o aposento apenas por um instante, mas cada detalhe se fixara em minha mente.
Ele estava vestido com o velho traje de veludo verde, uma roupa elegante que usara de maneira casual nas ruas sinuosas de nossa terra natal. Mas por toda parte em volta dele havia sinais da riqueza que eu lhe enviara, livros encadernados em couro nas estantes, uma escrivaninha marchetada com uma pintura oval sobre ela e o violino italiano reluzindo em cima do novo piano forte.
Ele usava o anel de pedras preciosas que eu enviara, os cabelos castanhos estavam presos na nuca com uma fita de seda preta e ele estava meditando, com os cotovelos em cima da mesa, sem nada comer do que havia no caro prato de porcelana diante de si.
Abri os olhos com cuidado e voltei a olhar para ele. Todos os seus dons naturais estavam ali no brilho da luz: os membros delicados porém fortes; os olhos castanhos, grandes e sérios; e a boca que, por mais ironia e sarcasmo que demonstrasse, era infantil e pronta para ser beijada.
Havia nele uma fragilidade que eu nunca percebera ou compreendera. No entanto, ele parecia infinitamente inteligente, meu Nicki, cheio de pensamentos confusos e intransigentes, enquanto ouvia Jeannette que falava rápido.
— Lestat se casou — ela disse enquanto Luchina concordava com um aceno de cabeça. — A mulher é rica e ele não pode deixar que ela saiba que foi um ator comum, é bem simples a coisa.
— Digo que devemos deixá-lo em paz — Luchina disse. — Ele salvou o teatro impedindo que fosse fechado e nos cobre de presentes...
— Não acredito nisso — disse Nicolas com amargura. — Ele não sentiria vergonha de nós. — Havia uma raiva contida em sua voz, um terrível desgosto. — E por que ele partiu desse jeito? Eu o ouvi me chamando! A janela toda arrebentada! Digo-lhes que estava meio acordado e que ouvi a voz dele...
Um silêncio apreensivo pairou sobre eles. Elas não acreditavam nesse relato, na maneira como desapareci do sótão, e falar de novo sobre o assunto só o isolava e o amargurava ainda mais. Eu podia sentir isso em todos os seus pensamentos.
— Vocês não conheciam mesmo a Lestat — ele disse agora de modo quase mal-humorado, retornando ao discurso controlado que outros mortais permitiriam. — Lestat cuspiria no rosto de qualquer um que se envergonhasse de nós! Ele me envia dinheiro. Que devo fazer com ele? Ele está brincando conosco!
Ninguém respondeu, os seres sensatos e práticos que não diriam nada contra seu misterioso benfeitor. As coisas estavam indo bem demais.
E, no prolongado silêncio, eu senti a profundidade da angústia de Nicki, eu a vi como se estivesse olhando dentro de seu cérebro. E não consegui suportá-la.
Não pude suportar sondar sua alma sem que ele soubesse disso. No entanto, não pude evitar de sentir um vasto lugar secreto dentro dele, talvez mais sombrio do que eu jamais sonhara, e recordei-me de suas palavras dizendo que as trevas que havia nele eram iguais às trevas que eu havia visto na estalagem, e que ele tentava ocultá-las de mim.
Eu quase podia ver este lugar. E de uma maneira bem real, ele estava além de sua mente, como se esta fosse apenas um portal para um caos que se estendia além das fronteiras de tudo que conhecíamos.
Isso era assustador demais. Eu não queria ver. Não queria sentir o que ele sentia!
Mas o que eu poderia fazer por ele? Isso era o importante. O que eu poderia fazer para acabar com aquele tormento de uma vez por todas?
No entanto, eu queria tanto tocá-lo — nas mãos, nos braços, no rosto. Queria sentir sua carne com esses novos dedos imortais. E me flagrei sussurrando a palavra “vivo”. Sim, você está vivo e isto significa que pode morrer. E tudo que vejo quando olho para você é extremamente insubstancial. É uma mescla de minúsculos movimentos e cores indefiníveis, como se você não tivesse um corpo em absoluto, mas fosse um aglomerado de luz e calor. Você é a própria luz, e o que sou eu agora?
Eterno como sou, ardo como uma brasa nessa chama.
Mas a atmosfera do quarto havia mudado. Luchina e Jeannette se despediam com palavras educadas. Ele as ignorava. Ele se virara para a janela e estava levantando-se como se houvesse sido chamado por uma voz secreta. A expressão de seu rosto era indescritível.
Ele sabia que eu estava ali!
No mesmo instante, subi pela parede escorregadia para o telhado.
Mas ainda podia ouvi-lo lá embaixo. Olhei para baixo e vi suas mãos nuas no peitoril da janela. E através do silêncio, ouvi seu pânico. Ele sentia que eu estava ali! Minha presença, notem bem, foi o que ele sentiu, da mesma maneira como eu sentia a presença nos cemitérios, mas agora, ele perguntava a si mesmo, poderia Lestat ter estado aqui?
Eu estava chocado demais para fazer alguma coisa. Agarrei-me na calha do telhado e pude sentir que as mulheres não estavam mais lá, sentir que ele estava sozinho agora. E tudo que pude pensar foi: o que, em nome do diabo, é essa presença que ele sentiu?
Quero dizer, eu não era mais Lestat, eu era aquele demônio, aquele vampiro forte e voraz, e no entanto ele sentiu minha presença, a presença de Lestat, do jovem que ele conhecia!
Era uma coisa bem diferente de um mortal ver meu rosto e deixar escapar meu nome, confuso. Ele havia reconhecido em meu ser monstruoso algo que conhecia e amava.
Parei de prestar atenção nele. Apenas fiquei deitado no telhado.
Mas sabia que ele estava mexendo-se lá embaixo. Eu soube quando ele ergueu o violino de seu lugar em cima do piano forte, e soube que ele estava de novo ao lado da janela.
E pus as mãos sobre meus ouvidos.
Mesmo assim, o som chegou. Ele brotava do instrumento e varava a noite como se fosse algo brilhante, diferente do ar, da luz e da matéria, que pudesse subir até as estrelas.
Ele curvava-se sobre as cordas e eu quase podia vê-lo em minhas pálpebras, balançando-se para a frente e para trás, a cabeça arqueada sobre o violino como se quisesse transformar-se em música, e então desapareceu toda a sensação dele e ficou apenas o som.
As longas notas vibrantes, os glissandos cortantes e o violino se expressando em sua própria linguagem, fazendo com que todas as outras formas de discurso parecessem falsas. No entanto, à medida que a música se aprofundava, tornava-se a própria essência do desespero, como se sua beleza fosse uma terrível coincidência, algo grotesco sem nenhuma partícula de verdade.
Era nisso que ele acreditava, em que sempre acreditou quando eu falava e falava sobre a bondade? Estaria ele fazendo o violino dizer isso? Estaria criando deliberadamente aquelas notas longas, puras e transparentes para dizer que a beleza não significava nada porque vinha do desespero dentro dele e que afinal não tinha nada a ver com o desespero, porque o desespero não era belo e então a beleza não passava de uma horrível ironia?
Eu não sabia a resposta. Mas o som o transcendera, como sempre o fizera. Ficou maior que o desespero. Entoou sem nenhum esforço uma melodia lenta, como a água procurando seu caminho montanha abaixo. Ficou mais suave e mais sombrio ainda, parecia haver nele algo de indisciplinado e de disciplinador, de pungente e vasto. Eu me deitei de costas no telhado com os olhos fixos nas estrelas.
Pequenos pontos de luz que olhos mortais não poderiam ter visto. Nuvens fantasmas. E o som agudo e rude do violino chegando lentamente ao fim, com intensa tensão.
Não me mexi.
Eu tinha uma certa compreensão silenciosa do que o violino dizia para mim. Nicki, se pudéssemos conversar de novo... se ao menos “nossa conversa” pudesse continuar.
A beleza não era a traição que ele imaginava ser, era mais uma terra desconhecida na qual se poderiam cometer mil erros fatais, um paraíso selvagem e indiferente sem indicações claras do bem e do mal.
Apesar de todos os refinamentos da civilização que conspiraram para produzir a arte — a estonteante perfeição do quarteto de cordas ou o exuberante esplendor das telas de Fragonard — a beleza era selvagem. Era tão perigosa e sem lei quanto a terra fora milênios antes que o homem tivesse elaborado um único pensamento coerente ou escrevesse códigos de conduta em tábuas de argila. A beleza era um Jardim Selvagem.
Assim, por que iria feri-lo o fato de mesmo a música mais desesperadora estar cheia de beleza? Por que isso iria magoá-lo, torná-lo cínico, triste e desconfiado?
O bem e o mal são conceitos criados pelo homem. E o homem é melhor, de fato, do que o Jardim Selvagem.
Mas talvez bem no íntimo, Nicki sempre tenha sonhado com uma harmonia entre todas as coisas, que eu sempre soube ser impossível. Nicki não sonhara com a bondade, mas sim com a justiça.
Mas, agora, jamais poderíamos discutir essas coisas. Jamais poderíamos estar de novo na estalagem.Perdoe-me,Nicki. O bem e o mal ainda existem, como sempre existirão. Mas “nossa conversa” acabou para sempre. No entanto, mesmo enquanto eu saía do telhado, enquanto eu escapulia às escondidas e em silêncio da Île St.-Louis, eu já sabia o que tencionava fazer. Não admitia para mim mesmo, mas sabia.
Na noite seguinte, já era tarde quando cheguei ao bulevar du Temple. Eu me alimentara bem na Île de Ia Cité e o primeiro ato na Casa de Téspis de Renaud já havia começado.


12

Eu me vestira como se estivesse indo para a Corte, em brocado prateado com um rocló de veludo cor de alfazema sobre os ombros. Levava uma espada nova com o cabo entalhado em prata e as costumeiras fivelas pomposas e pesadas nos sapatos, além da renda, das luvas e do tricórnio habituais. E cheguei no teatro numa carruagem alugada.
Mas assim que paguei o cocheiro, voltei descendo pelo beco e abri a porta dos fundos do teatro da mesma maneira que costumava fazer.
Fui cercado de imediato pela velha atmosfera, pelo cheiro da maquiagem densa e dos trajes baratos cheios de suor e perfume, e pela poeira. Podia ver um fragmento do palco iluminado brilhando além da grande desordem de adereços volumosos, e ouvir as explosões de risos que vinham da platéia. Um grupo de acrobatas aguardava para continuar no intervalo, uma multidão de bufões usando malha vermelha, gorro e colarinho pontudo guarnecido com pequenos guizos dourados.
Eu me senti tonto e, por um momento, tive medo. O lugar me pareceu sufocante e perigoso e, no entanto, era maravilhoso estar ali dentro de novo. E uma tristeza crescia dentro de mim, não, na verdade, um pânico.
Luchina me viu e soltou um grito estridente. Portas se abriram em todas as partes nos pequenos camarins em azáfama. Renaud mergulhou em minha direção e sacudiu minha mão vigorosamente. Onde antes não havia nada a não ser madeira e panos, havia agora um pequeno universo de seres humanos excitados, com os rostos cheios de cor viva e suor, e eu me vi recuando de um fumarento candelabro com as rápidas palavras:
— Meus olhos... apaguem isso.
— Apaguem as velas, elas prejudicam os olhos dele, não estão vendo? — Jeannette insistiu em tom ríspido.
Eu senti seus lábios úmidos se abrirem em meu rosto. Todo mundo estava em volta de mim, inclusive os acrobatas que não me conheciam e os velhos cenógrafos e carpinteiros que me ensinaram tantas coisas. Luchina disse:
— Chamem Nicki!
E eu quase gritei não.
Aplausos sacudiam o pequeno teatro. A cortina estava sendo fechada em ambos os lados. Sem demora, os velhos atores estavam em volta de mim e Renaud gritava pedindo champanhe.
Eu mantinha as mãos sobre meus olhos, como se fosse matá-los com um simples olhar, como o basilisco, e pude sentir as lágrimas, sabendo que teria de enxugá-las antes que vissem o sangue nas lágrimas. Mas eles estavam tão próximos que não consegui pegar o lenço e, com uma súbita e enorme fraqueza, coloquei meus braços em torno de Jeannette e Luchina e pressionei meu rosto contra o rosto de Luchina. Elas pareciam pássaros, com ossos cheios de ar, corações que pareciam asas batendo e, por um segundo, ouvi com ouvidos de vampiro o sangue dentro delas, mas isto me pareceu uma obscenidade. E apenas me entreguei aos beijos e abraços, ignorando o batimento de seus corações, abraçando-as e cheirando suas peles empoadas, sentindo de novo a pressão de seus lábios.
— Você não sabe o quanto nos preocupou! — Renaud retumbava. — E depois as histórias sobre sua boa sorte! Todo mundo, todo mundo! — Estava batendo palmas. — Este é monsieur de Valois, o proprietário deste grande estabelecimento teatral...
E disse um monte de outras coisas pomposas e jocosas, arrastando os novos atores e atrizes para beijar minha mão, imagino, ou meus pés. Eu abraçava as garotas com força como se fosse explodir em fragmentos se as soltasse, e então ouvi Nicki e soube que estava a poucos centímetros de mim, encarando-me, e que estava contente demais por me ver para continuar magoado.
Não abri meus olhos, mas senti sua mão em meu rosto e depois apertando minha nuca. Devem ter aberto caminho para ele e quando chegou em meus braços, senti uma pequena convulsão de terror, mas a luz estava pálida ali e eu me alimentara furiosamente para ficar quente e com aparência humana. E pensei em desespero que não sabia para quem rezar para pedir que eu fosse capaz de enganá-lo. E então só havia Nicolas e eu não me importava.
Olhei enfim para o seu rosto.
Como descrever o que os humanos se parecem para nós! Tentei descrever um pouco quando falei da beleza de Nicki na noite anterior, como uma mistura de movimento e cor. Mas ninguém pode imaginar o que é, para nós, a visão da carne viva. Há esses bilhões de cores e minúsculas configurações de movimento, sim, que formam uma criatura viva na qual nos concentramos. Mas a radiação mescla-se totalmente com o cheiro de carne. Belo, é isso que qualquer ser humano é para nós, se paramos para pensar, até mesmo os velhos e doentes, os oprimidos que de fato não são “vistos” pelas ruas. Eles são assim, como flores no processo de desabrochar, borboletas que estão sempre saindo de seus casulos.
Bem, vi tudo isso quando olhei para Nicki, e senti o cheiro do sangue sendo bombeado nele e, por um estonteante momento, senti amor e apenas amor apagando toda lembrança dos horrores que me deformaram. Cada êxtase maligno, cada novo poder com sua gratificação, parecia irreal. Talvez eu também tenha sentido uma profunda alegria porque ainda era capaz de amar, se é que eu duvidara disso em algum momento, e porque uma trágica vitória havia sido confirmada.
Todo o velho consolo mortal me embriagava e eu podia ter fechado os olhos, fugindo da consciência e carregando-o comigo, pelo menos foi o que me pareceu.
Mas uma outra coisa se acendeu dentro de mim, ganhando força com tanta rapidez que minha mente disparou para acompanhar seu passo e repudiá-la, mesmo enquanto ela ameaçava sair de meu controle. E eu sabia o que era, algo monstruoso, enorme e natural para mim assim como o sol me era inatural. Eu desejava Nicki. Eu o desejava com tanta certeza quanto qualquer vítima com quem eu havia lutado na Île de Ia Cité. Desejava que seu sangue fluísse para dentro de mim, desejava seu gosto, desejava seu cheiro e seu calor.
O pequeno local se sacudia com os gritos e risadas, com Renaud dizendo aos acrobatas para continuarem com o intervalo e com Luchina abrindo o champanhe. Mas nós estávamos unidos naquele abraço.
O forte calor de seu corpo me fez enrijecer e recuar, embora parecesse que eu não tivesse me movido. E, de repente, enfureceu-me o fato de que aquela pessoa a quem eu amava tanto quanto à minha mãe e meus irmãos — aquele que arrancara de mim a única ternura que eu já sentira — era uma cidadela inconquistável, que resistia ignorantemente contra minha sede de sangue, quando muitas centenas de vítimas haviam se entregue com tanta facilidade.
Foi para isso que fui feito. Essa era a trilha em que eu devia caminhar. O que eram aqueles outros para mim agora — os ladrões e assassinos que eu abatera nos ermos de Paris? Era isso que eu desejava. E a enorme e apavorante possibilidade da morte de Nicki explodiu em meu cérebro. A escuridão em minhas pálpebras se tornara vermelho-sangue. A mente de Nicki esvaziando-se naquele último momento, desistindo de sua complexidade assim como de sua vida.
Eu não conseguia mexer-me. Podia sentir o sangue como se estivesse passando para mim e deixei meus lábios encostados em seu pescoço. Cada partícula do meu ser dizia: “Agarre-o, desapareça com ele deste lugar e vá para longe daqui, e alimente-se dele, alimente-se dele... até...” Até o quê? Até ele morrer!
Soltei-me e afastei-o. A multidão ruidosa em volta de nós falava sem parar. Renaud gritava para os acrobatas que estavam parados, olhando com olhos arregalados para tudo aquilo. A platéia lá fora exigia o espetáculo do intervalo, batendo palmas num ritmo constante. A orquestra tocava a cançoneta animada que acompanharia os acrobatas. Ossos e carnes me empurravam e se acotovelavam em mim. Aquilo se tornou um campo de batalha com o cheiro delicioso daqueles que estavam prontos para a carnificina. Senti um acesso de náusea, demasiadamente humana.
Nicki parecia ter perdido o equilíbrio e, quando nossos olhos se encontraram, senti as acusações que emanavam dele. Senti o tormento e, pior, o quase desespero.
Avancei através deles, passei pelos acrobatas com os guizos tilintantes e, não sei por quê, fui para os bastidores em vez de sair pela porta lateral. Queria ver o palco. Queria ver a platéia. Queria penetrar mais fundo em algo para o qual não tinha nome ou palavra.
Mas estava enlouquecido naqueles momentos. Dizer o que queria ou pensava não faria o menor sentido.
Meu peito palpitava e a sede era como um gato que arranhava para se soltar. E quando me recostei na viga de madeira ao lado da cortina, Nicki, magoado e sem entender coisa alguma, foi até mim de novo.
Deixei que a sede campeasse. Deixei que dilacerasse minhas entranhas. Apenas agarrei-me na viga e, numa grande recordação, vi todas as minhas vítimas, a escória de Paris, arrancadas das sarjetas, e percebi a loucura do caminho que havia escolhido, a falsidade dele e o que eu realmente era. Que idiotice sublime arrastar comigo essa moralidade vil, abatendo apenas os condenados — procurando ser salvo apesar de tudo? O que eu pensava que era, um parceiro justo dos juízes e verdugos de Paris que abatiam os pobres por crimes que os ricos cometiam todos os dias?
Um vinho forte fora o que bebera, em recipientes lascados e quebrados, e agora o sacerdote estava parado diante de mim ao pé do altar, com o cálice dourado nas mãos, e o vinho dentro dele era o Sangue do Cordeiro.
Nicki falava rapidamente:
— Lestat, o que foi? Diga-me! — Como se os outros não pudessem ouvir-nos. — Onde você esteve? O que aconteceu com você? Lestat!
— Vão para o palco! — Renaud bradou para os acrobatas boquiabertos.
Eles passaram por nós caminhando com passos rápidos em direção ao esplendor enfumaçado das luzes de palco, e se dedicaram a uma série de saltos mortais.
A orquestra transformou seus instrumentos em aves gorjeantes. Um lampejo de vermelho, mangas de arlequim, guizos desafinados, insultos da multidão incontrolável, “mostrem-nos alguma coisa, mostrem-nos alguma coisa boa mesmo!”.
Luchina beijou-me e eu fitei sua garganta branca, suas mãos leitosas. Eu podia ver as veias no rosto de Jeannette e a suave almofada de seu lábio inferior aproximando-se ainda mais. O champanhe, salpicado em dúzias de copos pequenos, estava sendo bebido. Renaud estava fazendo algum discurso sobre nossa “sociedade” e como a pequena farsa daquela noite era apenas o começo e que em pouco tempo seríamos o maior teatro dos bulevares. Eu me via paramentado para o papel de Lelio e ouvia a cançoneta que cantara para Flaminia de joelhos.
Diante de mim, pequenos mortais davam várias cambalhotas para trás e a platéia uivou quando o líder dos acrobatas fez movimentos vulgares com o traseiro.
Sem me dar conta do que fazia, caminhei pelo palco.
Parei bem no centro, sentindo o calor das luzes, a fumaça ardendo em meus olhos. Olhei para a galeria abarrotada, para os camarotes com cortina, as fileiras e fileiras de espectadores até a parede dos fundos. E me ouvi rosnar uma ordem para os acrobatas irem embora.
Pareceu que as risadas se abafavam e que os insultos e gritos que me saudaram eram espasmos e erupções, e simplesmente havia uma caveira sorridente por trás de cada rosto no teatro. Eu estava cantarolando a pequena cançoneta que cantava no papel de Lelio, não mais que um fragmento, aquele que eu cantava pelas ruas, “adorável, adorável, Flaminia”, e assim por diante, com as palavras formando sons sem sentido.
Insultos chegavam junto com a algazarra.
“Continuem com a apresentação” e “você é muito bonitinho, mas queremos ver um pouco de ação!”. Alguém atirou da galeria uma maçã comida pela metade que bateu em meus pés.
Desafivelei o rocló violeta e deixei-o cair no chão. Fiz o mesmo com a espada de prata.
A canção se transformara num zumbido incoerente por trás de meus lábios, mas uma poesia maluca martelava minha cabeça. Vi a vastidão da beleza e sua selvageria, da maneira como tinha visto na noite anterior quando Nicki estava tocando, e o mundo mortal parecia um sonho desesperado de racionalidade que não tinha a menor chance naquela selva exuberante e fétida. Era uma visão e, em vez de entender, eu via, só que eu era parte dela, tão natural quanto um gato com sua forma delicada e impassível de enterrar as garras nas costas de um rato que berra.
— “Bonitinha” é a Implacável Ceifadora — pronunciei em voz baixa — que pode apagar todas essas “breves velas”, cada alma adejante que suga o ar desta sala.
Mas as palavras estavam realmente além de meu alcance. Elas flutuavam em alguma camada onde talvez existisse um deus que compreendesse as cores desenhadas numa pele de cobra e as oito notas gloriosas que compunham a música que saía do instrumento de Nicki, mas jamais o princípio que estava além da beleza ou da feiúra, “Não matarás”.
Centenas de rostos gordurentos me esquadrinhavam da escuridão. Perucas maltrapilhas, jóias de imitação e adornos sujos, pele que parecia água escorrendo sobre ossos deformados. Uma turba de mendigos esfarrapados assobiava e apupava na galeria, corcundas e caolhos, muletas fedorentas debaixo do braço e dentes da cor dos dentes de uma caveira que se tira da imundície de uma sepultura.
Abri meus braços. Dobrei o joelho e comecei a girar como os acrobatas e os bailarinos podem girar, girando e girando na ponta de um pé, sem nenhum esforço, indo cada vez mais rápido e mais rápido, até parar pulando para trás num círculo de saltos mortais de lado e depois saltos mortais para a frente, imitando tudo aquilo que tinha visto os artistas de feira fazerem.
Os aplausos vieram no mesmo instante. Eu estava tão ágil quanto fui na aldeia, e o palco era minúsculo e acanhado, o teto parecia pressionar minha cabeça e a fumaça das luzes de palco me cercava. A pequena canção para Flaminia voltou à minha mente, eu comecei a cantá-la em voz alta enquanto girava, pulava e rodopiava de novo. Depois, olhando para o teto, inclinei meu corpo para cima enquanto dobrava os joelhos para saltar.
Em um instante, tocava as vigas e caía graciosa e silenciosamente no palco.
Gritos sufocados se ergueram na platéia. A pequena multidão nos bastidores estava atordoada. Os músicos do fosso da orquestra que ficaram calados durante todo o tempo viraram-se uns para os outros. Eles podiam ver que não havia nenhum fio.
Mas, para o encanto da platéia, eu estava flutuando de novo, dessa vez dando saltos mortais em todo trajeto para cima, subindo além do arco pintado e descendo em giros mais lentos ainda, mais elegantes.
Gritos e hurras se misturaram aos aplausos, mas aqueles que estavam nos bastidores ficaram mudos. Nicki estava bem na extremidade do palco, seus lábios formavam meu nome em silêncio.
“Deve ser um truque, uma ilusão.” A mesma afirmação vinha de todas as direções. As pessoas exigiam a concordância daqueles que estavam em sua volta. O rosto de Renaud brilhou diante de mim por um instante, a boca aberta e os olhos semicerrados.
Mas eu voltara a dançar de novo. E dessa vez a graciosidade da dança já não importava mais para a platéia. Pude sentir isso, porque a dança tornou-se uma paródia, cada gesto era mais largo, mais longo, mais lento do que um bailarino humano seria capaz de sustentar.
Alguém gritou nos bastidores e disseram-lhe para ficar quieto. Gritinhos explodiam entre os músicos e aqueles que se encontravam nas fileiras da frente. As pessoas estavam ficando irrequietas e cochichavam entre si, mas a turba na galeria continuava a aplaudir.
De repente, disparei em direção à platéia como se tencionasse admoestá-la por sua grosseria. Muitas pessoas ficaram tão espantadas que se levantaram e tentaram fugir pelas coxias. Um dos músicos largou sua trompa e pulou para fora do fosso da orquestra.
Eu podia ver a agitação, até mesmo a raiva em seus rostos. O que eram aquelas ilusões? De repente, eu não estava mais divertindo as pessoas; elas não conseguiam compreender a arte daquilo; e alguma coisa em meus modos sérios os deixava com medo. Durante um terrível momento, eu senti o seu desamparo.
E senti sua sina.
Uma grande horda de esqueletos estalando numa armadilha de carne e farrapos, era isso o que eles eram; no entanto, tinham coragem, gritavam para mim em seu orgulho irreprimível.
Ergui as mãos bem devagar para pedir sua atenção e, com voz bem alta e firme, cantei a cançoneta para Flaminia, minha adorável Flaminia, com um dístico derramando-se sobre outro dístico, e fiz minha voz ficar mais alta e mais alta até que, de repente, as pessoas estavam levantando-se e gritando diante de mim, mas cantei mais alto ainda até eliminar qualquer outro ruído e, naquele rugido intolerável, vi todos eles, centenas deles, derrubarem os bancos ao se levantarem com as mãos cobrindo os ouvidos.
Suas bocas eram caretas, eram gritos sem som.
Pandemônio. Gritos estrepitosos, imprecações, todos tropeçando e lutando em direção às portas. As cortinas foram puxadas de suas presilhas. Homens caíam da galeria e corriam para a rua.
Interrompi a horrenda canção.
Fiquei observando-os em retumbante silêncio, os corpos fracos e suados se esforçavam desajeitadamente em todas as direções. O vento entrava em lufadas pelas portas abertas, e eu senti uma estranha friagem tomar conta do meu corpo e meus olhos pareciam feitos de vidro.
Sem olhar, peguei a espada e coloquei-a na cintura de novo, e enganchei o dedo na gola de veludo de meu rocló amarrotado e empoeirado. Todos esses gestos pareceram tão grotescos quanto tudo mais que eu fizera, e não parecia ter importância alguma o fato de Nicolas estar tentando libertar-se dos dois atores que o seguravam, temendo por sua vida, enquanto ele gritava meu nome.
Mas alguma coisa fora daquele caos captou minha atenção. Parecia ter importância — na verdade, ser terrível, terrivelmente importante — que houvesse uma figura estática lá em cima, num dos camarotes abertos, que não tentava fugir ou mesmo se mexer.
Virei-me bem devagar e olhei para ele, desafiando-o, pareceu-me, a permanecer ali. Era um homem velho e seus olhos cinzentos e sem brilho me penetravam com obstinada afronta e, enquanto eu lhe lançava um olhar feroz, ouvi minha boca soltar um clamoroso rugido. Parecia ter saído de minha alma aquele som. Foi ficando cada vez mais alto até que aquelas poucas pessoas que ainda restavam ali agacharam-se de novo com os ouvidos tampados. Até mesmo Nicolas que corria para a frente curvou-se sob aquele som, com ambas as mãos apertando a cabeça.
E, no entanto, o homem estava de pé ali no camarote, com o olhar iracundo, indignado e velho, e teimoso, com sobrancelhas franzidas debaixo da peruca cinzenta.
Dei um passo para trás e saltei através do teatro vazio, indo aterrissar no camarote bem diante dele e, contra sua própria vontade, seu queixo caiu e seus olhos se arregalaram horrivelmente.
Ele parecia deformado pela idade, os ombros arredondados, as mãos retorcidas, mas o vigor de seus olhos estava além da vaidade e além da transigência. Sua boca enrijeceu e seu queixo projetou-se. E ele sacou a pistola por baixo da sobrecasaca e apontou para mim com ambas as mãos.
— Lestat! — Nicki gritou.
Mas o tiro explodiu e a bala me atingiu com toda sua força. Eu não me mexi. Fiquei tão firme quanto o velho estivera antes, e a dor atravessou meu corpo e parou, deixando em seu rastro um terrível repuxão em todas as minhas veias.
O sangue jorrou. Jorrou como eu nunca tinha visto jorrar. Encharcou minha camisa e eu pude senti-lo escorrendo por minhas costas. Mas o repuxão foi ficando cada vez mais forte, e uma cálida sensação de formigamento começara a se espalhar pela superfície de meu peito e de minhas costas.
O homem me encarou, estarrecido. A pistola caiu de sua mão. Sua cabeça inclinou-se para trás, os olhos se fecharam e seu corpo encolheu como se o ar tivesse saído dele, e ele deitou no chão.
Nicki subira as escadas correndo e nesse momento entrava em disparada no camarote. Estava emitindo um murmúrio baixo e histérico. Pensava estar testemunhando minha morte.
E eu continuava parado, ouvindo meu corpo naquela solidão terrível que era só minha desde que Magnus me transformara em vampiro. E sabia que os ferimentos não estavam mais presentes.
O sangue estava secando no colete de seda, secando nas costas de meu casaco dilacerado. Meu corpo latejava nos lugares onde a bala havia passado e minhas veias fervilhavam com o mesmo repuxão, mas o ferimento não existia mais.
E Nicolas, recobrando o juízo enquanto me olhava, percebeu que eu estava são e salvo, embora sua razão lhe dissesse que não podia ser verdade.
Passei por ele apressado e me dirigi para a escada. Ele lançou-se em cima de mim, mas me livrei dele. Eu não conseguia suportar a visão dele, o cheiro dele.
— Fuja de mim! — eu disse.
Mas ele voltou de novo e engatou o braço em meu pescoço. Seu rosto estava inchado e um som medonho saía de sua boca.
— Afaste-se de mim, Nicki! — Ameacei-o.
Se eu o empurrasse muito rudemente, arrancaria seus braços do tronco, quebraria sua espinha.
Quebrar sua espinha...
Ele gemia, gaguejava. E por uma angustiante fração de segundo, os sons que ele emitia eram tão terríveis quanto o som que saiu de meu animal agonizante na montanha, meu cavalo, esmagado na neve como um inseto.
Eu mal sabia o que estava fazendo quando soltei suas mãos com dificuldade.
A multidão se dispersou quando eu saí no bulevar.
Renaud avançou correndo, apesar daqueles que tentavam contê-lo.
— Monsieur! — Ele pegou minha mão para beijar e se deteve quando viu o sangue.
— Não é nada, meu caro Renaud — eu disse, bastante surpreso com a firmeza de minha voz, e sua suavidade.
Mas alguma coisa me perturbou quando comecei a falar de novo, algo a que deveria prestar atenção, pensei vagamente, mas prossegui:
— Não se preocupe, meu caro Renaud — eu disse. — É sangue falso, nada além de uma ilusão. Foi tudo uma ilusão. Uma nova forma de teatro. O teatro do grotesco, sim, do grotesco.
Mas senti de novo aquela perturbação, algo que eu estava captando na confusão em volta de mim, pessoas se empurrando para chegar mais perto, mas não perto demais, Nicolas aturdido e me encarando.
— Continue com suas peças — eu estava dizendo, quase sem conseguir concentrar-me em minhas próprias palavras —, com seus acrobatas, suas tragédias, seu teatro mais civilizado, se quiser.
Tirei notas de dinheiro do bolso e coloquei-as em sua mão insegura. Joguei moedas na calçada. Os atores avançaram correndo, cheios de medo, para recolhê-las. Esquadrinhei a multidão em volta à procura da origem daquela estranha perturbação, o que era aquilo, não era Nicolas na porta do teatro deserto, observando-me com a alma partida.
Não, era uma outra coisa, familiar e desconhecida ao mesmo tempo, que tinha a ver com as trevas.
— Contrate os melhores atores... — eu estava balbuciando — os melhores músicos, os grandes cenógrafos.
Mais notas de dinheiro. Minha voz estava se elevando de novo, a voz do vampiro, eu podia ver as caretas de novo e as mãos que se erguiam, mas eles estavam com medo de deixar que eu os visse tapando os ouvidos.
— Não há nenhum limite, NENHUM LIMITE, para o que você pode fazer aqui!
Eu fugi, arrastando meu rocló comigo, com a espada retinindo incomodamente porque não estava afivelada direito. Alguma coisa das trevas.
E quando entrei apressado no primeiro beco e comecei a correr, eu sabia o que era aquilo que tinha ouvido, o que me perturbara. Tinha sido a presença, não havia como negar, ela estava em meio à multidão.
Eu sabia disso por uma simples razão: eu começara a correr pelas ruelas mais rápido do que um mortal poderia correr. E a presença acompanhava meu passo e a presença era mais de uma!
Quando tive certeza disso, parei.
Estava apenas a um quilômetro e meio do bulevar, e o beco tortuoso em volta de mim era estreito e escuro quanto qualquer outro em que já estivera. E eu as ouvi antes de, ao que parece, silenciarem de maneira abrupta e proposital.
Eu estava ansioso e atormentado demais para brincar com elas! Estava aturdido demais. Gritei a velha pergunta:
— Quem é você, fale comigo.
Os vidros estremeceram nas janelas vizinhas. Os mortais se agitaram em seus pequenos quartos. Não havia nenhum cemitério ali.
— Respondam-me, seu bando de covardes. Falem se tiverem uma voz ou se afastem de mim de uma vez por todas.
E então eu soube, embora não possa dizer como soube, que elas podiam ouvir-me e poderiam responder, se quisessem. E fiquei sabendo que aquilo que sempre ouvi era o indício irreprimível de sua proximidade e de sua intensidade, que elas não conseguiam ocultar. Mas podiam esconder seus pensamentos e fizeram isso. Quero dizer que elas eram capazes de raciocinar e de falar.
Soltei um longo e abafado suspiro.
Estava preocupado com o silêncio delas, mas estava mil vezes mais preocupado pelo que acabara de acontecer e, como havia feito tantas vezes no passado, virei-me de costas para elas.
Elas me seguiram. Desta vez me seguiram e, não importando a que velocidade eu me movia, elas avançavam.
E só me libertei daquele estranho e inaudível vislumbre quando cheguei na Place de Grève e entrei na Catedral de Notre Dame.
Passei o resto da noite na catedral, encolhido num lugar sombrio junto à parede da direita. Estava com fome por causa do sangue que havia perdido e, cada vez que um mortal se aproximava, sentia um forte repuxão e um formigamento nos pontos em que tive os ferimentos.
Mas esperei.
E quando se aproximou uma jovem mendiga com uma criança pequena, eu soube que tinha chegado o momento. Ela viu o sangue seco e ficou nervosa querendo levar-me ao hospital próximo, o Hôtel-Dieu. Seu rosto era magro de fome, mas ela tentou levantar-me com seus frágeis braços.
Olhei nos olhos dela até vê-los embaciarem-se. Senti o calor de seus seios aumentar debaixo de seus farrapos. Seu corpo macio e suculento encostou-se em mim, dando-se para mim, enquanto eu a aninhava na renda e no brocado manchados de sangue. Beijei-a, alimentando-me com seu calor enquanto afastava o pano sujo de sua garganta, e me inclinei para beber com tanto jeito que a criança adormecida nem chegou a ver. Em seguida, com dedos trêmulos e cuidadosos, abri a camisa esfarrapada da criança. Também era meu aquele pescocinho.
Não há palavras para descrever o êxtase. Antes eu experimentara todo o arrebatamento que a violação podia proporcionar. Mas aquelas vítimas foram possuídas na perfeita semelhança com o amor. O próprio sangue parecia mais quente com sua inocência, mais saboroso com sua bondade.
Em seguida, olhei para eles que dormiam juntos na morte. Eles não haviam encontrado seu santuário na catedral naquela noite.
E eu sabia que minha visão do jardim da beleza selvagem havia sido verdadeira. Havia um sentido no mundo, sim, e leis e inevitabilidade, mas isso só tinha a ver com a estética. E, nesse Jardim Selvagem, aquelas pessoas inocentes pertenciam aos braços do vampiro. Milhares de outras coisas podem-se dizer sobre o mundo, mas apenas os princípios estéticos podem ser verificados, e só essas coisas permanecem as mesmas.
Agora, eu estava pronto para ir para casa. E, quando saí de madrugada, sabia que a última barreira entre meu apetite e o mundo havia sido dissolvida.
Ninguém estava a salvo de mim agora, por mais inocente que fosse a pessoa. E isto incluía meus caros amigos no teatro de Renaud e também meu amado Nicki.




13

Eu queria que eles se fossem de Paris. Queria que os cartazes fossem retirados, as portas fechadas. Queria silêncio e escuridão no pequeno teatro-ratoeira onde havia conhecido a maior e mais ininterrupta felicidade de minha vida mortal. Nem mesmo uma dúzia de vítimas inocentes por noite poderia fazer-me parar de pensar neles, poderia dissipar a dor que sentia. Cada rua de Paris me levava até a porta deles.
E uma horrível vergonha se apoderava de mim quando pensava que os assustara. Como pude ter feito aquilo com eles? Por que tinha de provar a mim mesmo com tanta violência que jamais poderia ser um deles novamente?
Não. Eu havia comprado o teatro de Renaud. Eu o transformara na vitrine do bulevar. Agora, iria fechá-lo.
Entretanto, não por que eles suspeitassem de alguma coisa. Eles acreditavam nas desculpas simples e estúpidas que Roget dava, que eu acabava de retornar do calor das colônias tropicais, que o bom vinho de Paris me subira à cabeça. Uma boa soma de dinheiro outra vez para reparar os danos.
Só Deus sabe o que eles realmente pensavam. O fato é que voltaram às apresentações regulares na noite seguinte, e os freqüentadores do bulevar du Temple acrescentaram, sem dúvida, dezenas de explicações sensatas à cena do tiro. Havia uma fila debaixo das castanheiras.
Nicki era o único que não estava tomando conhecimento disso. Estava bebendo muito e se recusava a retornar ao teatro ou a estudar sua música. Insultava Roget quando este lhe visitava. Freqüentava os piores bares e tabernas, e caminhava sozinho pelas perigosas ruas durante a noite.
Bem, temos isso em comum, eu pensei.
Roget me contou tudo isso enquanto eu andava de um lado para o outro, a uma boa distância da vela em cima de sua mesa, meu rosto dissimulava meus verdadeiros pensamentos.
— O dinheiro não significa muita coisa para esse jovem, monsieur — ele disse. — Ele me lembrou de que já teve muito dinheiro em sua vida. Ele diz coisas que me perturbam, monsieur. Não gosto do que diz.
Roget parecia uma ama-seca de creche, com sua touca e sua camisola de flanela, pernas e pés desnudos porque eu o acordara de novo no meio da noite, sem lhe dar tempo para calçar os chinelos ou pentear os cabelos.
— O que ele está dizendo? — indaguei.
— Anda falando sobre feitiçaria, monsieur. Diz que o senhor possui estranhos poderes. Fala de La Voisin e da Chambre Ardente, um velho caso de feitiçaria do tempo do Rei Sol, a bruxa que fazia feitiços e venenos para membros da Corte.
— Quem acreditaria em tamanho disparate hoje? — simulei total perplexidade. A verdade é que os cabelos de minha nuca estavam em pé.
— Monsieur, ele diz coisas amargas — ele prosseguiu. — Que os da sua espécie, como ele chama, sempre tiveram acesso a grandes segredos. E está sempre falando de um certo lugar em sua cidade, chamado de “lugar das bruxas”.
— Minha espécie!
— Diz que o senhor é um aristocrata, monsieur — Roget disse, um tanto quanto embaraçado. — Quando um homem está zangado como monsieur de Lenfent está, essas coisas passam a ser importantes. Mas ele não confia suas suspeitas para os outros. Só conta para mim. Disse que o senhor compreenderá o motivo pelo qual ele o despreza. O senhor recusou-se a compartilhar suas descobertas com ele! Sim, monsieur, suas descobertas. Ele continua falando de La Voisin, de coisas entre o céu e a terra para as quais não existem explicações racionais. Ele diz que sabe agora por que o senhor chorou no lugar das bruxas.
Por um momento, não consegui olhar para Roget. Era uma deturpação tão adorável de tudo! E, no entanto, atingia a verdade em cheio. Era magnífico e perfeitamente irrelevante. À sua maneira, Nicki estava certo.
— Monsieur, o senhor é o homem mais bondoso... — Roget disse.
— Por favor, me poupe...
— Mas monsieur de Lenfent está dizendo coisas fantásticas, coisas que não deveria dizer mesmo nos dias de hoje e em nossa época, que viu uma bala passar através de seu corpo e que deveria tê-lo matado.
— A bala não me atingiu — eu disse. — Roget, não continue com isso. Tire-os de Paris, todos eles.
— Tirá-los? — ele disse. — Mas o senhor investiu tanto dinheiro naquele pequeno empreendimento...
— E daí? Quem se importa? — eu disse. — Mande-os para Londres, para a Drury Lane e seus teatros. Ofereça a Renaud dinheiro suficiente para ele ter seu próprio teatro em Londres. Dali eles podem ir para a América... São Domingos, Nova Orleans, Nova York. Faça isso, monsieur. Não me importa o quanto custe. Feche meu teatro e faça eles irem embora.
E então a dor desaparece, não? Vou parar de vê-los reunidos em volta de mim nos bastidores, vou parar de pensar em Lelio, no garoto da província que esvaziava os baldes de água suja e adorava tudo aquilo.
Roget parecia tão profundamente tímido. Como seria trabalhar para um lunático bem-vestido que paga o triplo que qualquer outro pagaria para não seguir seus melhores conselhos?
Jamais saberei. Jamais saberei de novo o que é ser humano, de qualquer maneira, aparência ou forma.
— Quanto a Nicolas — eu disse. — Você vai persuadi-lo a ir para a Itália e eu vou dizer-lhe como.
— Monsieur, já seria uma façanha persuadi-lo a mudar de roupa.
— Isso será mais fácil. Você sabe o quanto minha mãe está doente. Bem, convença-o a levá-la para a Itália. É perfeito. Ele pode muito bem estudar música nos conservatórios de Nápoles, que é exatamente para onde minha mãe deveria ir.
— Ele escreve mesmo para ela... é muito afeiçoado a ela.
— Exato. Convença-o de que ela jamais fará a viagem sem ele. Providencie tudo para ele. Monsieur, o senhor tem de fazer isso. Ele precisa ir embora de Paris. Dou-lhe um prazo até o final da semana, depois voltarei para saber a notícia de que ele foi embora.
Eu estava pedindo um bocado a Roget, é claro. Mas não conseguia pensar em outra maneira. Ninguém acreditaria nas idéias de Nicki sobre feitiçaria, não havia motivo para preocupação. Mas agora eu sabia que se Nicki não fosse embora de Paris, aos poucos iria perder o juízo.
À medida que as noites passavam, eu lutava comigo mesmo durante cada hora de vigília para não ir procurá-lo, para não arriscar uma última conversa.
Eu apenas esperava, sabendo muito bem que o estava perdendo para sempre e que ele jamais conheceria as razões de tudo que aconteceu. Eu, que um dia reclamei da falta de sentido de nossa existência, estava rechaçando-o sem nenhuma explicação, uma injustiça que poderia atormentá-lo até o fim de seus dias.
Melhor isso do que a verdade, Nicki. Talvez agora eu compreenda um pouco melhor todas as ilusões. E se ao menos você puder levar minha mãe para a Itália, se ao menos ainda houver tempo para minha mãe...
Enquanto isso, pude verificar com meus próprios olhos que a Casa de Téspis de Renaud estava fechada. No bar próximo, ouvi conversas sobre a partida da trupe para a Inglaterra. Essa parte do plano havia sido executada.
Já estava perto do amanhecer da oitava noite quando enfim caminhei até a porta de Roget e puxei o sino.
Ele atendeu mais rápido do que eu esperava, parecendo tonto e ansioso em sua costumeira camisola de dormir de flanela branca.
— Estou começando a gostar dessa sua vestimenta, monsieur — eu disse, cansado. — Acho que não confiaria a metade do que confio se o senhor usasse camisa, culotes e casaco...
— Monsieur — ele me interrompeu. — Uma coisa muito inesperada...
— Responda-me primeiro. Renaud e os outros foram felizes para a Inglaterra?
— Foram, monsieur. Estão em Londres neste momento, mas...
— E Nicki? Foi procurar minha mãe em Auvergne? Diga-me se estou certo. Foi feito!
— Mas, monsieur — ele disse.
Em seguida, interrompeu-se. E, de maneira bem inesperada, vi a imagem de minha mãe em sua mente.
Se eu estivesse em meu perfeito juízo, saberia o que aquilo significava. Que eu soubesse, aquele homem jamais pusera os olhos em minha mãe, portanto, como poderia imaginá-la em seus pensamentos? Mas eu não estava de posse da razão. Na verdade, minha razão escafedera-se.
— Ela não... você não está me dizendo que é tarde demais — eu disse.
— Monsieur, deixe-me pegar meu casaco... — ele disse inexplicavelmente. E estendeu a mão para tocar a sineta.
E lá estava, a imagem dela de novo, seu rosto, branco e vivido demais para eu suportar.
Segurei Roget pelos ombros.
— Você a viu! Ela está aqui!
— Sim, monsieur. Está em Paris. Eu o levarei até ela agora. O jovem de Lenfent me contou que ela estava vindo. Mas não consegui encontrá-lo, monsieur! Eu nunca soube onde encontrá-lo. E ela chegou ontem.
Eu estava estupefato demais para responder. Desabei numa cadeira, e as próprias imagens que eu tinha dela brilhavam o bastante para eclipsar tudo que emanava dele. Ela estava viva e em Paris. E Nicki ainda estava aqui e com ela.
Roget se aproximou de mim e estendeu a mão como se quisesse tocar-me:
— Monsieur, vá na frente enquanto me visto. Ela está na Île St.-Louis, três portas à direita da casa de monsieur Nicolas. O senhor deve ir agora mesmo.
Levantei os olhos para ele, com ar estúpido. Na verdade, nem conseguia enxergá-lo. Eu estava vendo minha mãe. Faltava menos de uma hora para o sol nascer. E eu levaria quarenta e cinco minutos para chegar na torre.
— Amanhã... amanhã à noite — creio que balbuciei. Essa frase me ocorreu de Macbeth, de Shakespeare.
— Amanhã e amanhã e amanhã...
— Monsieur, o senhor não entende?! Não haverá nenhuma viagem à Itália para sua mãe. Ela fez sua última viagem vindo aqui para vê-lo.
Como não respondesse, ele me agarrou e tentou sacudir-me. Eu nunca o vira daquela maneira antes. Eu era apenas um corpo para ele, que era o homem que teria de me chamar à razão.
— Consegui alojamento para ela — ele disse. — Enfermeiras, médicos, tudo que o senhor poderia querer. Mas não são eles que a estão mantendo viva. É o senhor que a está mantendo viva, monsieur. Ela precisa vê-lo antes de cerrar os olhos. Pois bem, esqueça as horas e vá até ela. Mesmo uma vontade forte como a dela não pode operar milagres.
Não consegui responder. Não pude formar um pensamento coerente. Levantei-me, fui até a porta, arrastando-o comigo.
— Vá até ela agora — eu disse — e diga-lhe que estarei lá amanhã à noite.
Ele sacudiu a cabeça. Estava furioso e desgostoso. E tentou virar as costas para mim.
Não deixei.
— Roget, você vai para lá agora mesmo — eu disse. — Fique com ela o dia inteiro, está entendendo? E faça com que ela espere... que ela espere eu chegar! Vigie-a se ela dormir. Acorde-a e converse com ela se ela começar a dormir. Mas não a deixe morrer antes que eu chegue!


PARTE III

VIÁTICO PARA A MARQUESA


1

No jargão dos vampiros, sou um madrugador. Eu levanto quando o sol acaba de mergulhar no horizonte e ainda há luz vermelha no céu. Muitos vampiros só se levantam depois que está totalmente escuro. De modo que levo uma tremenda vantagem nisso, e no fato de eles terem que retornar ao túmulo uma hora ou mais antes de mim. Não o mencionei antes porque não sabia disso, e isso só passou a ter importância muito mais tarde.
Mas, na noite seguinte, eu estava indo para Paris quando o céu ainda estava vermelho.
Eu me vestira com os trajes mais respeitáveis que possuía antes de entrar no sarcófago, e estava perseguindo o sol na direção oeste, indo para Paris.
Parecia que a cidade estava ardendo no fogo, de tão brilhante que a luz era para mim, e tão aterrorizadora, até que finalmente atravessei rapidamente a ponte atrás da Notre Dame, indo para a Île St.-Louis.
Não pensava no que faria ou diria, ou como poderia dissimular para ela. Só sabia que tinha de vê-la, abraçá-la e estar com ela enquanto houvesse tempo. Na verdade, não conseguia pensar em sua morte. Isso tinha a plenitude de uma catástrofe, fazia parte do céu abrasador. E talvez eu estivesse agindo como um mortal comum, acreditando que se pudesse conceder seu último desejo e de alguma maneira controlar todo aquele horror.
A penumbra estava expulsando a luz do dia quando encontrei a casa dela no cais.
Era uma mansão bastante elegante. Roget tinha feito bem a coisa, e um empregado estava na porta, esperando para me conduzir escada acima. Duas criadas e uma enfermeira estavam na sala de visitas do apartamento quando entrei.
— Monsieur de Lenfent está com ela, monsieur — a enfermeira disse. — Ela insistiu em se vestir para vê-lo. Queria sentar-se junto à janela para olhar as torres da catedral, monsieur. Ela viu o senhor atravessar a ponte.
— Apague as velas do quarto, menos uma — eu disse. — E diga a monsieur de Lenfent e ao meu advogado para saírem.
Roget saiu de imediato, em seguida apareceu Nicolas.
Ele também se vestira para ela, todo em esplêndido veludo vermelho, com sua velha e elegante camisa de linho e as luvas brancas. O vício recente da bebida o deixara mais magro, quase abatido. No entanto, sua beleza ficara mais vivida ainda. Quando nossos olhos se encontraram, o rancor saltou de dentro dele, chamuscando meu coração.
— A marquesa está um pouco mais forte hoje, monsieur — Roget disse —, mas está com uma forte hemorragia. O médico disse que ela não...
Ele interrompeu-se e olhou de soslaio para o quarto. Ficou claro para mim através de seu pensamento. Ela não passaria daquela noite.
— Leve-a de volta para a cama, monsieur, o mais rápido que puder.
— Com que propósito devo levá-la para a cama? — eu disse; minha voz estava apática, era um murmúrio. — Talvez ela queira morrer junto à maldita janela. Por que, diabos, não?
— Monsieur! — Roget implorou-me em tom suave. Eu queria dizer-lhe para sair dali levando Nicki.
Mas alguma coisa estava acontecendo comigo. Atravessei a sala e olhei na direção do quarto. Ela estava lá dentro. Senti uma dramática mudança física em mim. Não conseguia mexer-me ou falar. Ela estava lá dentro e, de fato, estava morrendo.
Todos os pequenos sons do apartamento se tornaram um zumbido. Eu vi um adorável quarto de dormir através de portas duplas, uma cama pintada de branco com cortina dourada e janelas com cortinas da mesma cor dourada, e o céu nos vidros altos das janelas ostentava os mais tênues filetes de nuvem dourada. Mas tudo aquilo era indistinto e vagamente horrível, o luxo que eu gostaria de lhe dar e ela prestes a sentir o corpo sucumbir debaixo de si. Eu me perguntei se isso a enfurecia, se a fazia rir.
O médico apareceu. A enfermeira chegou para me dizer que só restava uma vela acesa, tal como eu ordenara. O cheiro dos remédios era forte e se mesclava com um perfume de rosas, e eu percebi que estava ouvindo os pensamentos dela.
Era a vaga pulsação de sua mente enquanto ela esperava, seus ossos doendo sob a carne macilenta. Sentar-se junto à janela, mesmo que fosse em uma macia cadeira de veludo, provocava nela uma dor quase insuportável.
Mas em que estava pensando por trás de sua desesperada expectativa? Lestat, Lestat e Lestat, eu conseguia ouvir. Mas além disso:
— Que a dor fique pior, pois só quando a dor fica lancinante é que desejo morrer. Se a dor piorar o bastante para me deixar feliz de morrer, então não ficarei tão amedrontada. Quero que ela seja tão terrível que eu não tenha medo.
— Monsieur. — O médico tocou meu braço. — Ela não vai mandar o padre vir?
— Não... não vai.
Ela virou a cabeça em direção à porta. Se eu não entrasse agora, ela se levantaria, por mais que isto lhe doesse, e iria me procurar.
Parecia que eu não conseguia mexer-me. No entanto, passei pelo médico e a enfermeira, entrei no quarto e fechei as portas.
Cheiro de sangue.
Ela estava sentada sob a pálida luz da janela, maravilhosamente vestida em tafetá azul-escuro, tinha uma das mãos no colo e a outra no braço da cadeira, seus densos cabelos louros presos atrás das orelhas, de modo que os cachos derramavam-se das fitas cor-de-rosa sobre os ombros. Havia uma fina camada de ruge sobre suas faces.
Durante um momento extraordinário, ela olhou para mim da maneira como olhava quando eu era criança. Tão linda. A simetria de seu rosto não havia mudado com o tempo nem com a doença, assim como seus cabelos. Vi-me possuído por uma felicidade pungente, uma cálida ilusão de que era mortal de novo, inocente de novo, com ela, e que tudo estava bem, tudo estava real e verdadeiramente bem.
Não havia morte nem terror, apenas ela e eu em seu quarto, e ela me tomaria nos braços. Eu me detive.
Eu havia chegado bem perto dela e ela estava chorando quando ergueu os olhos. O cinto do vestido parisiense estava apertado demais nela, sua pele da garganta e das mãos estava tão fina e sem cor que não suportei olhar para ela. Seus olhos me fitavam e tinham manchas em torno deles, mais parecendo equimoses. Eu podia sentir nela o cheiro da morte. Podia sentir o cheiro da decomposição.
Mas ela estava radiante, e era minha; ela estava como sempre estivera e eu lhe disse, de maneira muito silenciosa e com todo meu poder, que ela estava tão adorável quanto minhas lembranças mais antigas dela, quando ainda usava suas roupas antigas e elegantes, quando se vestia com muito esmero e me levava no colo, na carruagem que ia para a igreja.
E nesse estranho momento em que lhe dei a conhecer isso, do carinho que sentia por ela, eu percebi que ela me ouvia e ela me respondeu que me amava, que sempre me amou.
Era a resposta a uma pergunta que eu nem sequer fizera. E ela sabia da importância disso; seus olhos estavam claros, não extasiados.
Se ela percebeu a singularidade disso, de que podíamos conversar um com o outro sem palavras, não deu nenhum sinal. Com certeza, não compreendera em sua totalidade.. Deve ter sentido apenas um transbordamento de amor.
— Venha aqui para que eu possa vê-lo — ela disse — do jeito que você está agora. A vela estava perto de seu braço no peitoril da janela. E, de modo intencional, apaguei-a com os dedos. Vi que ela franziu atesta, estreitou suas sobrancelhas louras e seus olhos azuis ficaram um pouco maiores quando ela olhou para mim, para o brocado de seda brilhante e a renda que eu escolhera para usar para ela, e a espada em minha cintura com seu imponente cabo de pedras preciosas.
— Por que você não quer que o veja? — ela perguntou. — Vim a Paris para vê-lo. Acenda a vela de novo.
Mas não havia em suas palavras uma punição de verdade. Eu estava ali com ela e isso bastava.
Ajoelhei-me diante dela. Eu tinha em mente uma conversa bem mortal, de que ela devia ir para a Itália com Nicki, mas, antes que eu pudesse falar, ela disse de maneira bem clara:
— Tarde demais, meu querido, eu jamais poderia terminar a viagem. Já cheguei bem longe.
Foi interrompida por uma pontada de dor, que deu a volta em sua cintura na altura do cinto. Para esconder isso de mim, deixou o rosto bem inexpressivo. Parecia uma menina quando fez isso e, mais uma vez, senti o cheiro da doença nela, da decomposição de seus pulmões e dos coágulos de sangue.
Sua mente ficou dominada pelo medo. Ela queria gritar para mim que estava com medo. Queria implorar-me que a abraçasse e ficasse com ela até tudo acabar, mas não conseguia fazê-lo e, para meu espanto, percebi que ela pensava que eu a rejeitaria. Que eu era jovem demais e estouvado demais para sequer compreender.
Foi um tormento.
Eu nem sequer tive consciência de que me afastava dela para andar pelo quarto. Pequenos e estúpidos detalhes fixavam-se em minha mente: ninfas brincando no teto pintado, as maçanetas douradas da porta e a cera derretida em estalactites quebradiças nas velas brancas que eu desejava arrancar e esmagar em minha mão. O lugar parecia hediondo, com excesso de decoração. Será que ela odiava aquilo? Será que queria de novo aqueles aposentos áridos de pedra?
Eu estava pensando nela como se houvesse “amanhã e amanhã e amanhã...” Tornei a olhar para ela, para sua imponente figura que se agarrava no peitoril da janela. O céu escurecera atrás dela e uma nova luz, a luz dos lampiões das casas, das carruagens que passavam e das janelas vizinhas, tocava suavemente o pequeno triângulo invertido de seu rosto delgado.
— Você não consegue conversar — ela disse em tom suave. — Não pode me dizer como isso aconteceu? Você trouxe tanta felicidade para todos nós.
Até falar lhe doía.
— Mas, como você está? Como você está!
Creio que estava prestes a enganá-la, criando uma forte emanação de contentamento com todos os poderes que tinha. Eu contaria mentiras mortais com uma habilidade imortal. Começaria a falar e falar, ensaiando cada palavra que dissesse para torná-la perfeita. Mas alguma coisa aconteceu no silêncio.
Não creio que tenha ficado quieto mais que um momento, mas alguma coisa mudou dentro de mim. Uma espantosa modificação teve lugar. Num instante vi uma aterrorizadora possibilidade e, nesse mesmo instante, sem questionar, tomei minha decisão.
Eu não tinha palavras para aquilo, nem esquema ou plano. E se alguém me perguntasse naquele momento, teria negado. Eu teria dito: “não, jamais, longe de mim pensar isso. O que você acha que sou, que espécie de monstro...” E, no entanto, a escolha havia sido feita.
Eu compreendia uma coisa absoluta.
As palavras de minha mãe se evaporaram por completo, ela estava com medo de novo, com dor de novo e, apesar da dor, levantou-se da cadeira.
Eu vi que ela estava vindo em minha direção e que eu deveria detê-la, mas não o fiz. Vi suas mãos se aproximarem de mim, tentando alcançar-me, e aproxima coisa de que me lembro é que ela saltou para trás, como se houvesse sido empurrada por uma forte ventania.
Ela escorregou no tapete e caiu batendo na parede ao lado da cadeira. Mas se recompôs rapidamente, como se se obrigasse a isso, e não havia medo em seu rosto, embora seu coração estivesse batendo em disparada. Ao contrário, havia espanto e depois uma calma desconcertada.
Se eu pensei em alguma coisa naquele momento, não saberia dizer. Segui na direção dela com tanta determinação quanto ela fizera antes. Calculando cada reação dela, aproximei-me até ficarmos tão próximos um do outro que ela recuou. Ela estava com o olhar fixo em minha pele e meus olhos e, de repente, tornou a estender a mão e tocou meu rosto.
“Não está vivo!” Foi essa a terrível percepção que captei dela em silêncio. “Transformado em alguma coisa. Mas NÃO VIVO.”
Em silêncio, eu disse não. Que não estava certa. E enviei para ela uma calma torrente de imagens, uma série de vislumbres sobre o que se tornara minha existência. Pequenos momentos, fragmentos da minha vida pelas noites de Paris, a sensação de uma lâmina cortando o mundo sem fazer ruído.
Ela soltou a respiração com um pequeno assobio. A dor fechou os punhos dentro dela, abriu suas garras. Ela engoliu em seco, cerrando os lábios contra a dor, enquanto seus olhos me queimavam de verdade. Ela sabia agora que aqui Io não eram sensações, aquelas comunicações, mas sim pensamentos.
— Como foi isso? — indagou.
E sem questionar o que eu tencionava fazer, contei a história em todos os seus detalhes, a janela quebrada através da qual fui puxado pela figura fantasmagórica que me espreitou no teatro, a torre e a troca de sangue. Falei da cripta onde eu dormia, de seus tesouros, de minhas perambulações e, acima de tudo, da natureza da sede. O gosto do sangue e a sensação do sangue, o que significava ser estimulado, com toda a paixão, com toda a volúpia, por aquele único desejo, e este desejo único era o de ser saciado várias e várias vezes com o sangue e a morte.
A dor a consumia, mas ela já não sentia mais. Enquanto me encarava, seus olhos eram tudo que restava dela. E embora eu não tivesse a intenção de revelar todas essas coisas, vi que a estava segurando e girando o meu corpo de modo que a luz das carruagens que passavam com estardalhaço pelo cais caía em cheio em meu rosto.
Sem tirar meus olhos dela, estendi a mão para o candelabro de prata sobre o peitoril da janela e, ao levantá-lo, inclinei o metal devagar, trabalhando-o com meus dedos para transformá-lo em curvas e voltas.
As velas caíram no chão.
Seus olhos reviraram-se para trás. Ela escorregou para trás, afastando-se de mim, e quando agarrou as cortinas da cama com a mão esquerda, o sangue jorrou de sua boca.
Estava vindo de seus pulmões num grande e silencioso acesso de tosse. Ela estava caindo de joelhos e o sangue estava todo espalhado pela lateral da cama acortinada.
Olhei para o objeto de prata retorcido em minhas mãos, para as curvas idiotas que não significavam nada, e deixei-o cair no chão. E encarei-a enquanto ela lutava contra a dor e para não perder os sentidos. De repente, ela limpou a boca na roupa de cama com gestos sem energia, como um bêbado que vomita enquanto sucumbe no chão incapaz de sustentar-se.
Eu estava de pé ao lado dela. Observava-a e sua dor momentânea não significava nada em vista da promessa que eu lhe faria nesse momento. Não com palavras de novo, apenas com a intenção silenciosa das palavras e a pergunta mais intensa que jamais poderia ser expressa em palavras. Quer vir comigo agora? QUER VIR COMIGO AGORA?
Não ocultei nada de você, minha ignorância, meu medo nem o simples pavor de que, se tentar, posso falhar. Nem sei se posso dar, ou qual é o preço a pagar, mas arriscarei isso por você e nós descobriremos juntos, qualquer que seja o mistério e o terror, assim como eu descobri sozinho tudo mais.
Com todo seu ser, ela disse “sim”.
— Sim! — gritou em voz alta de repente, embriagadamente, com uma voz que talvez sempre tenha sido sua, mas que eu jamais ouvira.
Seus olhos se fecharam e se estreitaram, sua cabeça virava da esquerda para a direita.
— Sim!
Inclinei-me à frente e beijei o sangue em seus lábios abertos. Um frêmito percorreu todos os meus membros, a sede despertou e tentou transformá-la em mera carne. Meus braços deslizaram em torno de sua forma leve e pequena e levantaram-na cada vez mais alto até eu ficar parado com ela, encostado na janela, seus cabelos caindo por suas costas e o sangue jorrando de novo de seus pulmões, mas isso não tinha importância agora.
Todas as lembranças de minha vida com ela nos cercavam; teciam sua mortalha em volta de nós e nos isolavam do mundo, os suaves poemas e as canções da infância, a sensação de sua presença antes que eu soubesse falar, quando havia apenas o bruxuleio da luz no teto acima de seus travesseiros e o cheiro dela em toda minha volta, sua voz silenciando meu choro, e depois o ódio dela e a necessidade dela, a sua perda por trás de mil portas fechadas, e as respostas cruéis, o pavor dela, sua complexidade, sua indiferença e sua força inexplicável.
E, saindo aos borbotões na corrente, vinha a sede, não apagando mas sim intensificando cada imagem dela, até que ela fosse carne e sangue, mãe e amante e todas as coisas sob a pressão cruel de meus dedos e meus lábios, tudo o que sempre desejei. Cravei meus dentes nela, sentindo-a enrijecer-se e ofegar, e senti minha boca abrir-se para sugar o sangue quente quando ele saiu.
Seu coração e sua alma abriram-se. Ela não tinha mais idade, nem um único momento só seu. Minha consciência turvou-se e estremeceu e não havia mais nenhuma mãe, nenhuma necessidade insignificante e nenhum terror insignificante; ela era simplesmente quem era. Era Gabrielle.
E toda sua vida veio em sua defesa, os anos e anos de sofrimento e solidão, o desperdício naquelas câmaras úmidas e vazias às quais ela havia sido condenada, os livros que eram seu consolo, os filhos que a consumiam e abandonaram, a dor e a doença, seus inimigos derradeiros que, ao prometerem a libertação, fingiam ser seus amigos. Além das palavras e das imagens, veio o baque secreto de sua paixão, sua aparente loucura, sua recusa ao desespero.
Eu a abraçava, a abraçava e a erguia do chão, com meus braços cruzados por trás de suas costas estreitas, minha mão embalando sua cabeça frouxa. Eu gemia tão alto encostado nela, com o bombeamento do sangue que parecia uma canção no ritmo de seu coração. Mas seu coração diminuía seus batimentos rápido demais. Sua morte estava chegando, ela lutava contra a morte com toda sua vontade e, numa explosão final de recusa, eu a empurrei para longe de mim e a mantive imóvel.
Eu estava quase desmaiando. A sede queria seu coração. Não era nenhum alquimista, a sede. E eu estava parado ali, com os lábios abertos, meus olhos vidrados, segurando-a afastada, bem afastada de mim, como se eu fosse dois seres, um que queria esmagá-la e o outro querendo trazê-la para perto de mim.
Seus olhos estavam abertos e pareciam cegos. Por um momento, ela esteve num lugar além de todo sofrimento, onde não havia nada a não ser suavidade e até quem sabe harmonia, mas depois eu a ouvi me chamar pelo nome.
Ergui meu pulso direito até minha boca, cortei a veia e pressionei-a contra seus lábios. Ela não se mexeu quando o sangue se derramou sobre sua língua.
— Mãe, beba — eu disse freneticamente, pressionando com mais força, mas alguma mudança já havia começado.
Seus lábios tremeram, sua boca prendeu-se em mim, a dor correu por meu corpo e, de repente, envolveu meu coração.
Seu corpo alongou-se, retesou-se, sua mão esquerda ergueu-se para agarrar meu pulso enquanto ela engolia o primeiro jorro. E a dor foi ficando cada vez mais forte, tanto que quase gritei. Eu podia vê-la como se fosse metal derretido escorrendo através de meus vasos sangüíneos, ramificando-se em cada músculo e membro. No entanto, era apenas ela puxando, sugando, tirando de mim o sangue que eu tirara dela. Agora, ela estava de pé, sua cabeça reclinada em meu peito. E um entorpecimento foi subindo por dentro de mim, o sangue quente fluindo com ele, enquanto meu coração batia mais forte, alimentando a dor assim como alimentava a sucção de minha mãe com cada batimento.
Ela sugava cada vez mais forte e mais rápido e eu senti sua mão apertar e seu corpo se enrijecer. Queria forçá-la a se afastar, mas não o fiz, e quando minhas pernas cederam sob meu corpo, foi ela quem me sustentou. Eu estava tonto e o quarto parecia girar, mas ela continuou sugando e um vasto silêncio espalhou-se em todas as direções a partir de mim e então, sem vontade ou convicção, empurrei-a para longe.
Ela tropeçou e parou diante da janela, com os dedos compridos pressionados contra a boca aberta. E, antes de me virar e sucumbir em cima da cadeira próxima, olhei para seu rosto branco por um instante e sua figura parecia estar inchando por baixo da fina casca do tafetá azul-escuro, seus olhos pareciam dois globos de cristal acumulando luz.
Acho que naquele instante eu disse “mãe”, como um estúpido mortal, e fechei os olhos.


2

Eu estava sentado na cadeira. Parecia que dormia há séculos, mas não dormira em absoluto. Eu estava em casa, na casa de meu pai.
Olhei em volta à procura do atiçador de fogo e de meus cães, e também para ver se restava algum vinho. Então vi as cortinas douradas em volta das janelas e a parte de trás de Notre Dame, tendo ao fundo as estrelas da noite, e a vi ali.
Estávamos em Paris. E viveríamos para sempre.
Ela estava com alguma coisa nas mãos. Um outro candelabro. Uma caixa de isca e pederneira. Estava muito ereta e seus movimentos eram rápidos. Produziu uma centelha e aproximou-a das velas, uma por uma. As pequenas chamas se ergueram, as flores pintadas nas paredes rolaram para o teto, as dançarinas do teto moveram-se por um momento e depois voltaram a ficar imóveis em seu círculo.
Ela estava parada diante de mim, com o candelabro à sua direita. Seu rosto estava branco e perfeitamente liso. Os hematomas escuros debaixo de seus olhos haviam desaparecido; na verdade, toda marca ou imperfeição que ela tivera havia desaparecido, embora eu não pudesse dizer que imperfeições seriam essas. Ela estava perfeita agora.
As rugas da idade diminuíram e se aprofundaram estranhamente, de modo que havia minúsculas linhas de riso no canto de cada olho e um vinco bem pequeno em cada lado da boca. Pequenas dobras permaneciam em cada pálpebra, acentuando a simetria e a forma triangular de seu rosto, e os lábios eram do mais suave tom de rosa. Ela parecia tão delicada quanto um diamante pode parecer quando visto sob a luz.
Fechei meus olhos, tornei a abri-los e vi que não era uma ilusão, assim como seu silêncio tampouco era uma ilusão. E vi que seu corpo havia sofrido uma mudança mais profunda ainda. Ela estava de novo na plenitude da feminilidade de jovem, com os seios, que a doença murchara, se avolumando acima do tafetá escuro de seu espartilho, a pálida tonalidade rosada de sua carne tão sutil que podia ser refletida pela luz. Mas seus cabelos estavam ainda mais assombrosos, porque pareciam estar vivos. Havia neles tantas cores que pareciam estar se contorcendo, com bilhões de fios pequenos agitando-se em torno de seu imaculado rosto.
Os ferimentos de sua garganta estavam desaparecendo.
Agora, nada restava a não ser o ato final de sua coragem. Olhar em seus olhos.
Olhar com esses olhos de vampiro para um outro ser igual a você pela primeira vez desde que Magnus atirara-se na fogueira.
Devo ter produzido algum som porque ela respondeu bem baixo, como se eu tivesse falado. Gabrielle, este era o único nome pelo qual eu poderia chamá-la agora.
— Gabrielle — eu disse; nunca a chamara desse jeito, a não ser em alguns pensamentos muito íntimos, e vi que ela quase sorriu.
Baixei os olhos para meu pulso. O ferimento desaparecera, mas a sede gritava dentro de mim. Minhas veias me falavam como se eu tivesse falado com elas.
Encarei-a e vi seus lábios mexerem-se num minúsculo gesto de fome. E ela fez para mim uma expressão estranha e significativa, como se dissesse: “Você não compreende?”
Mas eu não ouvia nada vindo dela. Silêncio, apenas a beleza de seus olhos olhando para mim e talvez o amor com que nos olhávamos, mas o silêncio estendendo-se em todas as direções, sem confirmar nada. Eu não conseguia penetrá-lo. Estaria ela fechando sua mente? Perguntei-lhe em silêncio e ela pareceu não compreender.
— Agora — ela disse, e sua voz me assustou.
Era mais suave, mais ressoante do que antes. Por um momento, estávamos em Auvergne, a neve caía, ela estava cantando para mim e sua voz ecoava como dentro de uma enorme caverna. Mas isso cessou. Ela disse:
— Vá... acabe com tudo, rápido... agora!
Ela balançou a cabeça para me persuadir, aproximou-se e puxou minha mão.
— Olhe-se no espelho — ela sussurrou.
Mas eu sabia. Eu lhe dera mais sangue do que retirara. Estava faminto. Nem sequer me alimentara antes de ir vê-la.
Mas eu estava tão fascinado com o som das sílabas, com aquele vislumbre da neve caindo e a lembrança do canto que, por um momento, não respondi. Olhei para seus dedos tocando os meus. Vi que nossa carne era a mesma. Levantei-me da cadeira, segurei suas mãos, depois senti seus braços e seu rosto. A coisa estava feita e ela ainda vivia! Estava comigo agora. Conseguira superar aquela terrível solidão e estava comigo; de repente, eu não conseguia pensar em nada, a não ser em abraçá-la, apertá-la contra mim e jamais deixá-la partir.
Levantei-a do chão. Girei-a no alto e rodopiamos e rodopiamos.
Ela jogou a cabeça para trás e começou a rir cada vez mais alto, até que coloquei a mão sobre sua boca.
— Você pode quebrar todos os vidros do quarto com sua voz — eu sussurrei, olhando de soslaio para a porta.
Nicki e Roget estavam lá fora.
— Então deixe-me quebrá-los! — ela disse, e não havia nada de jocoso em sua expressão.
Coloquei-a no chão. Creio que nos abraçamos várias e várias vezes, de uma maneira quase louca. Não pude evitar.
Mas outros mortais se movimentavam no apartamento, o médico e as enfermeiras pensavam se deviam entrar.
Eu vi que ela olhou para a porta. Também os ouvia. Mas por que eu não a estava ouvindo?
Ela afastou-se de mim, com os olhos correndo de um objeto para outro. Pegou as velas de novo e levou-as até o espelho, onde olhou para seu rosto.
Eu compreendi o que estava acontecendo. Ela precisava de tempo para ver e avaliar com sua nova visão. Mas nós tínhamos de sair daquele apartamento.
Eu podia ouvir a voz de Nicki através da parede, exortando o médico a bater na porta.
Como eu iria tirá-la dali, como me livrar deles?
— Não, não por esse caminho — ela disse quando me viu olhar para a porta. Ela olhava para a cama, para os objetos em cima da mesa. Foi até a cama e pegou suas jóias debaixo do travesseiro. Examinou-as e colocou-as de volta na surrada bolsa de veludo. Em seguida, prendeu a bolsa na saia, de modo que se perdesse nas dobras do tecido.
Havia um ar de importância em todos esses pequenos gestos. Embora sua mente não estivesse transmitindo nada para mim, eu sabia que aquilo era tudo que ela desejava daquele quarto. Ela estava despedindo-se das coisas, das roupas que trouxera consigo, da antiga escova de prata e do pente, dos livros esfarrapados que jaziam sobre a mesa ao lado da cama.
Alguém bateu na porta.
— Por que não por aqui? — ela perguntou e, virando-se para a janela, abriu as vidraças.
A brisa soprou nas cortinas douradas, levantou seus cabelos da nuca e, quando ela se virou, estremeci diante de sua visão, os cabelos emaranhados em volta do rosto, os olhos selvagens e cheios de miríades de fragmentos de cor e de uma luz quase trágica. Ela não tinha medo de nada.
Eu segurei-a e, por um momento, não a soltei. Aconcheguei meu rosto em seus cabelos e tudo que pude pensar de novo foi que estávamos juntos e nada jamais iria separar-nos agora. Eu não compreendia seu silêncio, por que não podia ouvi-la, mas sabia que não era culpa sua e talvez eu acreditasse que iria passar. Ela estava comigo. Esse era o meu mundo. A morte era meu comandante e eu lhe dera mil vítimas, mas eu a havia arrancado de suas mãos. Eu disse isso em voz alta. Disse outras coisas desesperadas e absurdas. Éramos o mesmo ser terrível e mortífero, nós dois, vagando juntos no Jardim Selvagem, e eu tentava tornar isso real para ela com imagens, com o significado do Jardim Selvagem, mas não tinha importância se ela não entendesse.
— O Jardim Selvagem — ela repetiu as palavras com reverência, com os lábios formando um suave sorriso.
Aquilo martelava em minha cabeça. Senti que ela me beijava e fazia pequenos murmúrios, como se fosse uma conseqüência de seus pensamentos. Ela disse:
— Mas ajude-me agora. Quero ver você fazê-lo, agora, depois teremos a eternidade para nos abraçar. Venha.
Sede. Eu devia estar queimando. Não havia dúvida de que eu precisava de sangue, e ela desejava provar, eu sabia. Porque me lembrava que também desejei isso naquela primeira noite. Ocorreu-me então que a dor de sua morte física... os fluidos saindo dela... podia ser mitigada se ela pudesse beber primeiro.
Bateram de novo na porta. Ela não estava trancada.
Subi no peitoril da janela, estendi a mão para ela e no mesmo instante ela estava em meus braços. Ela não pesava nada, mas eu podia sentir sua força, a tenacidade de seu punho. No entanto, quando ela viu o beco lá embaixo, o topo do muro e o cais abaixo, por um momento pareceu duvidar.
— Coloque seus braços em torno de meu pescoço — eu disse — e segure bem firme.
Subi nas pedras da parede carregando-a, seus pés balançavam, o rosto estava virado para cima em minha direção; até que alcançamos a ardósia escorregadia do telhado.
Em seguida, peguei sua mão e puxei-a atrás de mim, correndo cada vez mais rápido, por cima das calhas e das chaminés, pulando por sobre os becos estreitos, até chegarmos ao outro lado da ilha. Eu achava que ela fosse gritar a qualquer momento ou se agarrar em mim, mas ela não teve medo.
Ficou em silêncio, olhando para os telhados da Margem Esquerda e para o rio abaixo apinhado de milhares de pequenos e escuros botes cheios de seres esfarrapados; e, por um momento, ela pareceu simplesmente sentir o vento desembaraçar seus cabelos. Eu podia ficar ali para sempre olhando para ela, examinando-a, vendo todos os aspectos de sua transformação, mas havia em mim uma imensa excitação para levá-la através de toda a cidade, para revelar todas as coisas para ela, ensinar-lhe tudo que eu havia aprendido. Agora, ela desconhecia a exaustão física tanto quanto eu. E não estava perturbada por nenhum horror, como eu fiquei quando Magnus pulou no fogo.
Uma carruagem passou em disparada pelo cais abaixo, adernando bastante na direção do rio, com o cocheiro curvado, tentando manter o equilíbrio em seu banco alto. Apontei para ela quando se aproximou e apertei sua mão.
Nós saltamos quando a carruagem passou debaixo de nós, caindo em silêncio no teto de couro. O atarefado cocheiro não olhou para trás em nenhum momento. Eu a segurei com firmeza, equilibrando-a, até ambos estarmos viajando com facilidade, prontos para saltar do veículo quando quiséssemos.
Foi indescritivelmente emocionante fazer isso com ela.
Atravessamos a ponte, passamos pela catedral e avançamos através das multidões na Pont Neuf. Eu a ouvi rir de novo. Imaginei o que aquelas pessoas nas janelas altas veriam quando olhavam para nós lá embaixo, duas figuras vestidas com garbo grudadas no teto instável da carruagem, como crianças travessas em cima de uma balsa.
A carruagem mudou de rumo. Estávamos correndo na direção de St.-Germain-des-Prés, abrindo caminho em meio à multidão à nossa frente e passando estrepitosamente pelo odor intolerável do cemitério de Les Innocents, enquanto se avizinhavam os altos prédios de moradia.
Por um segundo, senti o vislumbre da presença, mas desapareceu tão rápido que duvidei de mim mesmo. Olhei para trás e não pude ver nenhum lampejo dela. E me dei conta com extraordinária vividez de que Gabrielle e eu falaríamos sobre a presença, que nós conversaríamos juntos sobre tudo e resolveríamos tudo juntos.
Esta noite era, à sua própria maneira, tão cataclísmica quanto a noite em que Magnus me transformou, e esta noite estava apenas começando.
Agora, o local era perfeito. Peguei sua mão de novo e puxei-a atrás de mim, pulando da carruagem para a rua.
Ela olhou deslumbrada para as rodas girando, mas estas desapareceram no mesmo instante. Mais do que desgrenhada, ela parecia impossível, uma mulher deslocada no tempo e no espaço, usando apenas chinelos e vestido, sem correntes, livre para voar a grandes alturas.
Entramos numa travessa estreita e corremos juntos, os braços em volta um do outro; de vez em quando eu baixava a vista para ver seus olhos esquadrinhando as paredes acima de nós, o grande número de janelas fechadas com suas pequenas listras de luz escapando.
Eu sabia o que ela estava vendo. Conhecia os sons que se introduziam nela. Mas ainda não conseguia ouvir nada vindo dela, e isso me assustou um pouco a ponto de pensar que ela estava me excluindo de maneira deliberada.
Mas ela se deteve. Estava sentindo o primeiro espasmo de sua morte. Eu podia vê-lo em seu rosto.
Tranqüilizei-a, lembrando-lhe em rápidas palavras das imagens que eu lhe transmitira antes.
— É uma dor breve, nada comparado com o que já conheceu. Vai desaparecer em questão de horas, talvez menos tempo se bebermos agora.
Ela concordou com um aceno de cabeça, mais impaciente com isso do que temerosa.
Chegamos numa pequena praça. Havia um jovem parado na entrada de uma casa velha, como se estivesse esperando alguém, com a gola do casaco cinza puxada para cima a fim de proteger o rosto.
Teria ela força suficiente para pegá-lo? Seria tão forte quanto eu? Era a hora de descobrir.
— Se a sede não levá-la a isso, então é cedo demais — eu disse para ela.
Olhei de soslaio para ela e um calafrio percorreu meu corpo. Seu ar de concentração parecia humano, de tão intenso; e a sombra em seus olhos passava a mesma sensação de tragédia que eu vislumbrara antes. Nada havia se perdido nela. Mas quando se movimentou em direção ao homem, não era humana em absoluto. Estava transformada em mero predador, como somente um animal pode ser, e no entanto era uma mulher andando devagar em direção a um homem — uma dama, de fato, abandonada ali sem capa, chapéu ou acompanhantes, aproximando-se de um cavalheiro como se fosse solicitar sua ajuda. Ela era tudo isso.
Foi horripilante assistir aquilo, a maneira como ela se movia sobre as pedras, como se sequer as tocasse, e o modo como tudo, até mesmo as mechas de seu cabelo sopradas de um lado para o outro pela brisa, parecia estar de alguma forma sob seu comando. Ela poderia atravessar a própria parede com aquele passo inexorável.
Eu recuei para as sombras.
O homem agitou-se, virou-se para ela com um leve rangido do salto de sua bota nas pedras, e ela ergueu-se nas pontas dos pés, como que para sussurrar em seu ouvido. Creio que, por um momento, ela hesitou. Talvez estivesse um tanto quanto horrorizada. Se estivesse, então a sede não havia tido tempo suficiente para ficar intensa. Mas se ela teve alguma dúvida, não foi mais que por um segundo. Ela o atacara, ele estava impotente e eu fascinado demais para fazer qualquer coisa a não ser assistir.
Mas, de repente, ocorreu-me que não a prevenira sobre o coração. Como pude esquecer tal coisa? Corri em sua direção, mas ela já o soltara. Ele sucumbira de encontro à parede, com a cabeça pendida para o lado, o chapéu caído a seus pés. Estava morto.
Ela ficou olhando para ele, e eu vi o sangue agindo dentro dela, aquecendo-a, acentuando sua cor e o vermelho de seus lábios. Seus olhos eram um clarão de violeta quando olhou de soslaio para mim, quase exatamente da cor do céu no momento em que entrei em seu quarto. Eu a observava em silêncio enquanto ela olhava para a vítima com um estranho espanto, como se não aceitasse de todo o que estava vendo. Seus cabelos estavam emaranhados de novo e eu os levantei para ela.
Ela introduziu-se de mansinho em meus braços. Eu a conduzi para longe da vítima. Ela olhou para trás uma ou duas vezes, depois ficou olhando para a frente.
— Basta por esta noite. Devíamos voltar para casa, para a torre — eu disse. Queria mostrar-lhe o tesouro, apenas estar com ela naquele lugar seguro, abraçá-la e confortá-la se começasse a se enlouquecer com tudo. Ela estava sentindo o espasmo da morte de novo. Lá ela poderia descansar junto ao fogo.
— Não, ainda não quero ir — ela disse. — A dor não vai durar muito, você prometeu que não duraria. Quero que ela passe e depois quero ficar aqui.
Olhou para mim e sorriu.
— Eu vim a Paris para morrer, não foi? — sussurrou.
Tudo a distraía, o homem morto lá atrás, atolado em sua capa cinza, o céu tremeluzindo na superfície de uma poça d'água, um gato correndo por cima do muro. O sangue estava quente dentro dela, corria em suas veias.
Agarrei sua mão e insisti para que me seguisse.
— Tenho de beber — eu disse.
— Sim, eu sei — ela sussurrou. — Você deveria tê-lo pegado. Eu devia ter pensado... E você é um cavalheiro, mesmo assim.
— Um cavalheiro faminto — eu sorri. — Não vamos ficar discutindo aqui um código de boas maneiras para vampiros. — Dei uma risada.
Eu a teria beijado, mas, de repente, minha atenção foi distraída. Apertei a mão dela com muita força.
Bem distante, da direção de Les Innocents, eu ouvi a presença com tanta intensidade como nunca ouvira antes.
Ela ficou tão imóvel quanto eu e, inclinando a cabeça um pouco para um lado, afastou o cabelo para trás da orelha.
— Você ouviu isso? — perguntei.
Ela olhou para mim e disse:
— É um outro!
Estreitou os olhos e olhou outra vez na direção de onde tinha vindo a emanação.
— Proscritos! — disse em voz alta.
— O quê?
Proscritos, proscritos, proscritos. Eu senti uma onda de vertigem, alguma coisa como a lembrança de um sonho. Fragmento de um sonho. Mas não conseguia pensar. Havia sido prejudicado por fazer aquilo para ela. Eu tinha de beber.
— Essa coisa nos chamou de proscritos — ela disse. — Você não ouviu?
E ficou prestando atenção de novo, mas a coisa havia desaparecido e nenhum de nós a ouvia. Não pude ter certeza se havia recebido aquela pulsação clara, proscritos, mas parecia que sim!
— Não importa, seja o que for — eu disse. — Nunca chega mais perto do que isso.
Mas mesmo enquanto eu falava, sabia que havia sido mais virulento dessa vez. Eu queria fugir de Les Innocents.
— Ela vive nos cemitérios — murmurei. — Pode ser que não seja capaz de viver em outro lugar... por muito tempo.
Mas antes que eu terminasse de falar, senti a coisa de novo, que parecia expandir-se e exsudar a mais forte malevolência que eu já havia recebido dela até então.
— Está rindo! — ela sussurrou.
Observei-a atentamente. Sem dúvida, ela estava ouvindo com mais clareza do que eu.
— Desafíe-a! — eu disse. — Chame-a de covarde! Diga-lhe para aparecer! Ela me lançou um olhar de espanto.
— É isso mesmo que você quer fazer? — ela me perguntou num sussurro. Estava tremendo um pouco e eu amparei-a. Colocou o braço em torno da cintura como se estivesse de novo com um daqueles espasmos.
— Não agora, então — eu disse. — Não é o momento. E nós vamos ouvir de novo, quando tivermos esquecido disso tudo.
— Foi embora — ela disse. — Mas ela nos odeia, essa coisa...
— Vamos fugir dela — eu disse em tom de desdém e, colocando meu braço em torno dela, apressei-a a se afastar.
Não lhe contei o que estava pensando, o que estava me oprimindo muito mais do que a presença e seus truques habituais. Se ela podia ouvir a presença tão bem quanto eu, na verdade até melhor, então possuía todos os meus poderes, inclusive a capacidade de enviar e ouvir imagens e pensamentos. No entanto, já não podíamos mais ouvir um ao outro.




3

Encontrei uma vítima assim que atravessamos o rio, e tão logo localizei o homem tive a profunda consciência de que tudo que havia feito sozinho, faria agora com ela. Ela iria assistir àquele ato, aprenderia com ele. Creio que a intimidade disso fez o sangue correr em meu rosto.
Enquanto eu atraía a vítima para fora da taberna, enquanto o provocava, o enfurecia para depois atacá-lo, sabia que estava me exibindo para ela, fazendo a coisa de uma maneira um pouco mais cruel, mais jocosa. E quando chegou o golpe final, teve uma intensidade que me deixou esgotado depois.
Ela adorou. Assistiu a tudo como se pudesse sugar cada visão tal como sugava sangue. Nós nos juntamos de novo e eu a tomei em meus braços, senti seu calor e ela sentiu meu calor. O sangue estava irrigando meu cérebro. E nós apenas ficamos abraçados. Até mesmo a fina cobertura de nossas roupas parecia estranha; duas estátuas queimando na escuridão.
Depois disso, a noite perdeu todas as dimensões habituais. Na verdade, foi uma das noites mais longas que suportei em minha vida imortal.
Foi interminável, insondável e vertiginosa. Houve momentos em que desejei algumas defesas contra seus prazeres e suas surpresas, e não tive nenhuma.
E embora eu dissesse seu nome várias e várias vezes, para torná-lo natural, ela ainda não era realmente Gabrielle para mim. Era apenas ela, a única de quem eu precisara a vida inteira, com todo o meu ser. A única mulher a quem amei.
Sua morte real não demorou muito tempo.
Procuramos um quarto de porão vazio onde permanecemos até tudo terminar. Ali eu a abracei e falei com ela enquanto as dores passavam. Contei-lhe tudo que me acontecera de novo, mas dessa vez em palavras.
Contei-lhe sobre a torre. Contei tudo que Magnus havia dito. Expliquei todas as ocorrências da presença, e como eu me tornara quase acostumado com ela, sentindo desprezo por ela e sem vontade de ir em sua perseguição. Tentei repetidas vezes transmitir-lhe imagens, mas foi em vão. Eu não disse nada sobre isso. Nem ela. Mas ela escutou com muita atenção.
Falei das suspeitas de Nicki que, claro, ele não lhe mencionara em absoluto. E expliquei que agora temia ainda mais por ele. Outra janela aberta, outro quarto vazio, e dessa vez com testemunhas para comprovar a estranheza de tudo aquilo.
Mas, não tinha importância, eu deveria contar para Roget alguma história que tornasse aquilo plausível. Deveria encontrar algum meio de ajeitar a coisa com Nicki, de romper a corrente de suspeitas que o prendia a mim.
Ela pareceu vagamente fascinada com tudo isso, mas na verdade não tinha importância para ela. O que lhe interessava era o que tinha pela frente agora.
Quando sua morte terminou, nada conseguiu detê-la. Não havia muro que não pudesse escalar, porta em que não entrasse, nenhum telhado de casa íngreme demais.
Era como se ela não acreditasse que iria viver para sempre; ao contrário, pensava que só haveria aquela noite de vitalidade sobrenatural e que tudo deveria ser visto e realizado antes que a morte lhe chegasse com o amanhecer.
Muitas vezes tentei persuadi-la a ir para a casa na torre. À medida que as horas passavam, uma exaustão espiritual foi tomando conta de mim. Eu precisava ficar quieto ali, pensar no que havia acontecido. Abria meus olhos e, por um instante, só via escuridão. Mas ela só desejava experimentar, ter aventuras.
Propôs que entrássemos nas casas dos mortais agora para procurarmos as roupas de que precisava. Deu uma risada quando eu lhe disse que sempre adquiri minhas roupas da maneira apropriada.
— Podemos ouvir se uma casa está vazia — ela disse, movendo-se com rapidez pelas ruas, os olhos dirigidos para as janelas das mansões escuras. — Podemos ouvir se os criados estão dormindo.
Fazia sentido, embora eu nunca houvesse tentado tal coisa. E, pouco tempo depois, eu a estava seguindo na subida por estreitas escadas dos fundos, descendo corredores atapetados, espantado com toda aquela facilidade, fascinado com os detalhes dos cômodos informais nos quais os mortais viviam. Descobri que gostava de tocar em coisas pessoais: leques, caixas de rapé, o jornal que o dono da casa esteve lendo, suas botas junto à lareira. Era tão divertido quanto espiar janelas.
Mas, ela estava com um propósito. No quarto de vestir de uma dama, numa enorme casa em St.-Germain, ela encontrou roupas caras que se ajustavam em seu novo corpo mais cheio. Ajudei-a a tirar o velho tafetá e a vestir o veludo cor-de-rosa, juntando seus cabelos em arrumados cachos sob um chapéu de pluma de avestruz. Fiquei chocado de novo ao vê-la assim, e a estranha e sinistra sensação de vagar com ela através daquela casa supermobiliada e cheia de odores humanos. Ela recolheu objetos na penteadeira. Um frasco de perfume, uma pequena tesoura de ouro. Olhou-se no espelho.
Fui beijá-la de novo e ela não me impediu. Éramos dois amantes se beijando. E essa era a imagem que formávamos juntos, amantes de rosto pálido, enquanto descíamos correndo a escada dos criados e saíamos nas ruas tarde da noite.
Vagamos por dentro e por fora da Ópera e da Comédie antes que fechassem, depois fomos até o baile no Palais Royal. Ela se deleitou com a maneira como os mortais nos viam, mas não nos viam, o modo como eram atraídos por nós e como eram completamente enganados.
Ouvimos a presença com muita nitidez depois disso, na hora em que explorávamos as igrejas, depois desapareceu de novo. Escalamos campanários para inspecionar nosso reino e depois nos acotovelamos em cafeterias abarrotadas de gente durante um tempo, apenas para sentir e cheirar os mortais em nossa volta, para trocar olhares secretos e rir num suave tête-à-tête.
Ela mergulhava em estados de sonho, olhando o vapor que subia da caneca de café, as camadas de fumaça de cigarro que flutuavam em volta da luz.
Ela adorava as ruas escuras e desertas e o ar fresco mais do que qualquer outra coisa. Queria subir nos galhos das árvores e nos telhados de novo. Ficou admirada porque eu nem sempre andava pela cidade através dos telhados, ou pulava no teto de carruagens como havíamos feito.
Pouco depois da meia-noite, estávamos no mercado deserto, apenas andando de mãos dadas.
Tínhamos acabado de ouvir a presença outra vez, mas nenhum de nós conseguiu discernir qualquer disposição dela, como antes. Aquilo me intrigava.
Mas tudo em nossa volta ainda a assombrava — o lixo, os gatos que caçavam insetos, a calma bizarra, a maneira como os cantos mais escuros da metrópole não ofereciam perigo algum para nós. Ela comentou isso. Talvez fosse isso o que mais a encantava, o fato de podermos passar pelos antros de ladrões sem sermos ouvidos, de podermos derrotar com facilidade qualquer um que fosse tolo o bastante para nos incomodar, de sermos ao mesmo tempo visíveis e invisíveis, palpáveis e enigmáticos ao extremo.
Não a apressei nem questionei. Apenas era arrastado por ela, satisfeito e às vezes perdido em meus próprios pensamentos a respeito desse desconhecido contentamento.
E quando um jovem belo e esbelto chegou cavalgando pelas cocheiras escuras, eu o observei como se fosse uma aparição, uma coisa vindo da terra dos vivos para a terra dos mortos. Ele me lembrou Nicolas por causa de seu cabelo escuro e de seus olhos escuros, e por algo de inocente porém taciturno no rosto. Não deveria estar sozinho no mercado. Era mais jovem que Nicki e muito tolo, de fato.
Mas só percebi o quão tolo era quando ela avançou como um grande felino cor-de-rosa e derrubou-o do cavalo sem fazer barulho.
Fiquei abalado. A inocência de suas vítimas não a perturbava. Ela não tinha conflitos morais como eu. Mas eu também já não os tinha mais, por que deveria julgá-la? No entanto, a facilidade com que matou o jovem — quebrando seu pescoço com um movimento gracioso quando o pequeno gole que tomou dele não foi suficiente para matá-lo — me irritou, embora tenha sentido extrema excitação ao assistir.
Ela era mais fria do que eu. Era melhor em tudo aquilo, pensei. Magnus dissera: “Não demonstre misericórdia.” Mas quis dizer para matarmos quando não precisássemos matar?
Num instante ficou claro por que ela havia feito aquilo. Ela tirou o vestido cor-de-rosa ali mesmo e vestiu as roupas do garoto. Ela o escolheu pela conveniência das roupas.
E para descrever com mais veracidade, assim que vestiu as roupas, ela transformou-se no rapaz.
Colocou as meias creme de seda e o culote escarlate, a camisa de renda, o colete amarelo e depois a sobrecasaca escarlate, chegando até a tirar a fita escarlate dos cabelos do garoto.
Alguma coisa dentro de mim rebelou-se contra o charme de tudo aquilo, contra sua postura atrevida naquelas roupas novas, os cabelos caídos sobre os ombros, parecendo agora mais uma juba de leão do que a massa adorável das tranças de uma mulher, como fora momentos antes. Então, desejei destruí-la. E fechei meus olhos.
Quando olhei para ela de novo, minha cabeça estava tonta com tudo que havíamos visto e feito juntos. Eu não conseguia suportar estar tão perto do jovem morto.
Ela prendeu todo seu cabelo louro com a fita escarlate e deixou que os longos cachos pendessem em suas costas. Depositou o vestido cor-de-rosa sobre o corpo do garoto para cobri-lo, afivelou sua espada, desembainhou-a uma vez e tornou a embainhá-la, e pegou o rocló creme do garoto.
— Vamos embora então, querido — ela disse e me beijou.
Não consegui mexer-me. Queria voltar para a torre e só ficar perto dela. Ela olhou para mim e apertou minha cabeça para me estimular. E, quase no mesmo instante, estava correndo à frente.
Ela precisava sentir a liberdade de seus membros e eu me vi andando com passos pesados atrás dela, tendo que me empenhar para acompanhá-la.
Isso jamais acontecera comigo nem com mortal algum, é claro. Ela parecia estar voando. E a imagem dela passando rápido através das barracas fechadas com tábuas e dos montões de lixo quase me fez perder o equilíbrio. Eu parei de novo.
Ela retornou a mim e me beijou.
— Mas não existe mais nenhuma razão verdadeira para eu me vestir daquela maneira, não é? — perguntou.
Ela podia estar falando com uma criança.
— Não, é claro que não — eu disse.
Talvez fosse uma bênção ela não poder ler meus pensamentos. Eu não conseguia parar de olhar para suas pernas, tão perfeitas naquelas meias de cor creme. E o modo como a sobrecasaca se ajustava à sua pequena cintura. Seu rosto parecia uma chama.
Lembrem-se de que naquela época nunca se via as pernas de uma mulher daquela maneira. Nem barrigas, ou coxas, por baixo dos culotes apertados.
Mas ela não era realmente uma mulher agora, não? Assim como eu não era mais um homem. Durante um silencioso segundo, o horror daquilo tudo espalhou-se por toda parte.
— Venha, quero ir para os telhados de novo — ela disse. — Quero ir para o bulevar du Temple. Gostaria de ver o teatro, aquele que você comprou e depois fechou. Você vai mostrá-lo para mim?
Ela estava examinando-me quando perguntou isso.
— É claro — eu disse. — Por que não?
Restavam-nos duas horas daquela noite interminável quando enfim retornamos à Île St.-Louis e ficamos parados no cais iluminado pelo luar. Eu vi minha égua amarrada no lugar onde a deixei, bem ao longe na rua pavimentada. Talvez não tivesse sido notada na confusão que se seguiu à nossa partida.
Prestamos atenção com cuidado procurando algum sinal de Nicki ou Roget, mas a casa parecia deserta e escura.
— Mas eles estão por perto — ela sussurrou. — Acho que em algum lugar lá embaixo...
— O apartamento de Nicki — eu disse. — E do apartamento de Nicki alguém poderia estar vigiando a égua, um criado posicionado para observar, para o caso de retornarmos.
— É melhor deixar o cavalo e roubar outro — ela disse.
— Não, ele é meu — eu disse.
Mas senti que sua mão apertou a minha com força.
Nossa velha amiga de novo, a presença, e desta vez estava se movendo ao longo do Sena, no outro lado da ilha e em direção à Margem Esquerda.
— Desapareceu — ela disse. — Vamos embora. Podemos roubar outra montaria.
— Espere. Vou tentar fazer com que ela venha a mim. Romper a corda.
— Você pode fazer isso?
— Veremos.
Concentrei toda minha vontade na égua, dizendo-lhe silenciosamente para mover-se para trás, para soltar-se da corda que a prendia e vir.
Num segundo, o cavalo estava empinando-se e puxando a tira de couro. Em seguida, levantou-se e a corda se rompeu.
Ela seguiu em nossa direção, fazendo barulho nas pedras, e nós montamos no mesmo instante. Gabrielle pulou primeiro e eu logo atrás dela, recolhendo o que sobrara das rédeas enquanto incitava o animal a partir em rápido galope.
Quando atravessamos a ponte, senti alguma coisa atrás de nós, uma comoção, uma agitação de mentes mortais.
Mas nos perdemos na escura câmara de eco da Île de la Cité.
Quando chegamos à torre, acendi a tocha e levei-a comigo para baixo, para dentro da masmorra. Agora não havia tempo para mostrar-lhe a câmara superior.
Seus olhos estavam vidrados e ela olhava apaticamente em volta enquanto descíamos a escada em espiral. Suas roupas escarlates brilhavam tendo as pedras escuras ao fundo. Sempre que podia, ela evitava a umidade.
O fedor que vinha das masmorras perturbou-a, mas eu lhe disse com gentileza que aquilo nada tinha a ver conosco. E assim que entramos na enorme cripta funerária, o cheiro foi isolado pela pesada porta com tachões de ferro.
A luz da tocha espalhou-se para revelar os arcos baixos do teto, os três grandes sarcófagos com suas imagens profundamente entalhadas.
Ela não parecia estar com medo. Eu lhe disse que ela precisava ver se conseguia levantar a tampa de pedra daquele que escolhesse para si. Talvez eu tivesse que fazer isso por ela.
Ela examinou as três figuras entalhadas. E, após um momento de reflexão, ela escolheu não o sarcófago da mulher, mas sim aquele com o cavaleiro em armadura esculpido na parte de cima. E empurrou devagar a tampa de pedra tirando-a do lugar, de modo a poder olhar o espaço lá dentro.
Não possuía tanta força quanto eu, mas era bastante forte. -Não tenha medo — eu disse.
— Não, você não precisa se preocupar nunca em relação a isso — ela respondeu em tom suave.
Sua voz estava com um adorável tom de rixa, um leve timbre de tristeza. Ela parecia estar sonhando enquanto passava as mãos por cima da pedra.
— A esta hora — ela disse — ela já podia estar na mortalha, sua mãe. E o quarto estaria cheio de odores ruins e da fumaça de centenas de velas. Pense no quanto é humilhante a morte. Estranhos teriam tirado suas roupas, a teriam banhado e vestido — estranhos a veriam definhada, indefesa e no sono derradeiro. E as pessoas sussurrando pelos corredores falariam de sua boa saúde e que jamais tiveram a menor doença em suas famílias, não, nenhuma doença devastadora em suas famílias. “A pobre marquesa”, eles diriam. Estariam imaginando, será que ela ainda tinha algum dinheiro próprio? Será que deixou para os filhos? E a velha quando viesse recolher os lençóis manchados roubaria um dos anéis da morta.
Concordei com um aceno de cabeça. E agora estamos nesta cripta da masmorra, eu queria dizer, preparando-nos para deitar em camas de pedra, tendo apenas os ratos como companhia. Mas é infinitamente melhor do que isso, não é? Tem seu sombrio esplendor, caminhar para sempre nos domínios do pesadelo.
Ela parecia abatida, com frio. Sonolenta, tirou algo de seu bolso.
Era a tesoura dourada que ela pegara na penteadeira da dama em St.-Germain. Brilhando à luz da tocha como se fosse quinquilharia.
— Não, mãe — eu disse.
Minha própria voz me sobressaltou. Ela ficou ecoando de modo agudo demais sob o teto em arco. As figuras dos outros sarcófagos pareciam testemunhas impiedosas. A dor em meu coração me deixou estupefato.
Som do mal, a tesoura cortando, tosquiando. Seus cabelos caíam em grandes e longos cachos no chão.
— Ooooh, mãe.
Ela baixou os olhos para seus cabelos, espalhando-os silenciosamente com a ponta da bota. Em seguida, olhou para mim e agora, sem dúvida, era um homem jovem, com o cabelo curto enroscando-se em sua face. Mas seus olhos estavam fechando-se. Ela estendeu o braço para mim e a tesoura caiu de sua mão.
— Descanse agora — ela sussurrou.
— É apenas o sol nascente — eu disse para tranqüilizá-la.
Ela estava enfraquecendo bem mais cedo do que eu. Afastou-se de mim e moveu-se na direção do caixão. Eu levantei-a e seus olhos se fecharam. Empurrando ainda mais a tampa do sarcófago para a direita, coloquei-a deitada lá dentro, deixando que seus membros flexíveis se acomodassem com graça e naturalidade.
Seu rosto já se suavizara no sono, os cabelos emolduravam sua face com os cachos de um jovem.
Morta, ela parecia, e perdida, a mágica desfeita.
Fiquei olhando para ela.
Fiz meus dentes cortarem a ponta de minha língua até sentir a dor e o gosto de sangue quente. Em seguida, curvando-me para baixo, deixei que o sangue caísse em pequenas gotículas cintilantes sobre seus lábios. Seus olhos se abriram. Fitaram-me, brilhantes e de cor azul-violeta. O sangue jorrou para sua boca aberta e, devagar, ela ergueu a cabeça para encontrar-se com meu beijo. Minha língua transformou-se na dela. Seus lábios estavam frios. Meus lábios estavam frios. Mas o sangue estava quente e jorrava entre nós.
— Boa noite, querida — eu disse. — Meu anjo negro Gabrielle.
Ela afundou de volta no silêncio quando a soltei. Fechei a tampa de pedra sobre ela.


4

Eu não gostava de me levantar na escura cripta subterrânea. Não gostava da friagem do ar e do leve fedor que vinha das masmorras, da sensação de que era ali que jaziam todas as coisas mortas.
Fui dominado por um medo. E se ela não acordasse? E se seus olhos jamais se abrissem de novo? O que eu sabia do que havia feito?
No entanto, parecia ser uma coisa arrogante, uma coisa obscena, mover de novo a tampa do caixão e fitá-la no sono como eu havia feito na noite anterior. Uma vergonha mortal tomou conta de mim. Em casa, eu jamais ousara abrir sua porta sem bater, jamais ousara puxar as cortinas de sua cama.
Ela levantaria. Tinha de acordar. E era melhor que ela mesma levantasse a pedra, que soubesse como levantar e que a sede a levasse a isso no momento adequado, assim como me levara.
Acendi para ela a tocha na parede e saí para respirar ar fresco por um momento. Em seguida, deixando portões e portas destrancados atrás de mim, subi até a cela de Magnus para observar o céu crepuscular.
Eu a ouviria, pensei, quando ela acordasse.
E deve ter passado uma hora. A luz azul-celeste se dissipou, as estrelas nasceram e a distante Paris acendeu sua miríade de minúsculos faróis. Saí do peitoril da janela onde me sentara apoiado nas barras de ferro, fui até a arca e comecei a escolher jóias para ela.
Ela ainda adorava jóias. Quando saímos de seu quarto, ela pegou suas velhas lembranças. Acendi as velas para me ajudar a ver, embora realmente não precisasse delas. A iluminação me parecia linda. Principalmente quando refletida nas jóias. E achei coisas muito delicadas e encantadoras para ela — alfinetes de pérolas que ela podia usar nas lapelas de seu pequeno casaco masculino, e anéis que pareceriam masculinos em suas pequenas mãos, se fosse isso o que ela desejasse.
De vez em quando, eu procurava ouvi-la. E um desalento apertava meu coração. E se ela não levantasse? E se tivesse havido apenas aquela noite para ela? O horror batia com som surdo dentro de mim. E o mar de jóias na arca, a luz da vela dançando nas pedras lapidadas, nas armações de ouro — não significavam nada.
Mas eu não a ouvia. Ouvia o vento lá fora, o suave farfalhar das árvores, o leve assobio distante do garoto do estábulo movimentando-se em volta da cocheira, o relincho de meus cavalos.
Ao longe, um sino de igreja da aldeia tocou.
Então, bem de repente, fui dominado pela sensação de que alguém me observava. Isso era tão estranho para mim que entrei em pânico. Virei-me, quase tropeçando na arca, e olhei para a boca do túnel secreto. Ninguém ali.
Ninguém naquele pequeno santuário vazio, com a luz da vela brincando nas pedras e no semblante sombrio de Magnus no sarcófago.
Então olhei direto para a frente, para a janela gradeada.
E a vi olhando para mim.
Parecia estar flutuando no ar, segurando nas grades com ambas as mãos, e estava sorrindo.
Eu quase gritei. Recuei e o suor brotou em todo meu corpo. Fiquei embaraçado de repente por ter sido pego desprevenido, por estar tão obviamente sobressaltado.
Mas ela continuou imóvel, ainda sorrindo, enquanto sua expressão mudava pouco a pouco da serenidade para a maldade. A luz da vela deixava seus olhos brilhantes demais.
— É desagradável ficar assustando outros imortais desse jeito — eu disse.
Ela deu a risada mais descontraída e mais natural do que já dera quando estava viva.
O alívio percorreu meu corpo quando ela se mexeu, produziu sons. Eu sabia que estava ruborizado.
— Como você chegou aí? — eu disse.
Fui até a janela, estendi meus braços através das grades e agarrei seus pulsos. Sua boca pequena era toda doçura e risos. Seus cabelos formavam uma enorme juba luzidia em torno do rosto.
— Eu escalei a parede, é claro — ela disse. — Como você acha que cheguei aqui?
— Bem, desça. Você não pode passar pelas grades. Irei a seu encontro.
— Você tem toda razão quanto a isso — ela disse. — Estive em todas as janelas. Encontre-me nas ameias lá em cima. É mais rápido.
Ela começou a subir, enganchando facilmente as botas nas grades, depois desapareceu.
Era toda exuberância como havia sido na noite anterior quando descemos a escada juntos.
— Por que estamos demorando aqui? — ela disse. — Porque não vamos agora para Paris?
Havia algo de errado nela, adorável como estava, alguma coisa não estava bem... o que seria?
Não queria beijos agora, nem mesmo conversar. Parecia aflita.
— Quero mostrar o quarto secreto para você — eu disse. — E as jóias.
— As jóias? — ela perguntou.
Ela não as vira da janela. A tampa da arca bloqueara sua visão. Entrou na minha frente no quarto em que Magnus se queimara, andando, depois deitou-se para rastejar através do túnel.
Assim que viu a arca, ficou chocada.
Jogou os cabelos com um pouco de impaciência sobre os ombros e inclinou-se para examinar os broches, os anéis, os pequenos ornamentos tão parecidos com as jóias da família, que ela teve de vender uma por uma muito tempo atrás.
— Ora, ele deve tê-las colecionado durante séculos — ela disse. — E coisas tão delicadas. Ele escolhia o que iria pegar, não? Deve ter sido uma criatura e tanto.
Mais uma vez, quase com raiva, afastou os cabelos de sua frente. Eles pareciam mais pálidos, mais luminosos, mais cheios. Uma coisa gloriosa.
— As pérolas, olhe para elas — eu disse. — E estes anéis.
Mostrei aqueles que já havia escolhido para ela. Peguei sua mão e deslizei os anéis em seus dedos, que se mexiam como se tivessem vida própria, como se pudessem sentir prazer, e ela riu de novo.
— Ah, mas que esplêndidos demônios nós somos, não somos?
— Caçadores do Jardim Selvagem — eu disse.
— Então vamos para Paris — ela disse.
Um leve toque de dor em seu rosto, a sede. Ela passou a língua pelos lábios. Será que eu exercia nela a metade do fascínio que ela exercia em mim?
Ela tirou os cabelos da testa e seus olhos se escureceram com a intensidade de suas palavras.
— Quero alimentar-me rápido hoje à noite — ela disse. — Depois sair da cidade, ir para o campo. Ir para onde não haja nenhum homem nem mulher por perto. Ir para onde haja apenas o vento, as árvores escuras e as estrelas no céu. Abençoado silêncio.
Caminhou até a janela. Suas costas eram estreitas e retas e as mãos, ao lado do corpo, estavam vivas com os anéis incrustados de pedras preciosas. As mãos, saindo dos punhos grossos do casaco de homem, pareciam ainda mais belas e delicadas. Ela devia estar olhando para as nuvens altas e sombrias, para as estrelas que brilhavam através da camada púrpura da neblina noturna.
— Eu tenho de procurar Roget — eu disse num sussurro. — Preciso cuidar de Nicki, contar-lhes alguma mentira sobre o que aconteceu com você.
Ela virou-se e, de repente, seu rosto parecia pequeno e frio, da maneira como costumava fazer quando desaprovava alguma coisa. Mas, na verdade, nunca mais ela pareceria a mesma.
— Por que contar-lhes alguma coisa sobre mim? — ela perguntou. — Por que se preocupar de novo com eles?
Fiquei chocado com isso. Mas não foi uma completa surpresa para mim. Talvez eu estivesse esperando por isso. Talvez tivesse sentido isso nela o tempo todo, as perguntas não formuladas.
Eu quis dizer: Nicki estava sentado ao lado de sua cama quando você estava morrendo, isto não significa nada? Mas como isto soava sentimental, como soava mortal, francamente tolo.
No entanto, não era uma tolice.
— Não quero julgá-lo — ela disse. Cruzou os braços e encostou-se na janela. — Eu simplesmente não entendo. Por que você nos escreveu? Por que enviou todos aqueles presentes? Por que não pegou esse fogo branco da lua e foi com ele para onde queria?
— Mas para onde eu deveria querer ir? — eu disse. — Para longe de todos aqueles que eu conhecia e amava? Eu não queria parar de pensar em você, em Nicki, nem mesmo em meu pai e meus irmãos. Eu fiz o que quis — eu disse.
— Então a consciência não desempenhou nenhum papel nisso?
— Se você segue sua consciência, você faz o que quer — eu disse. — Mas foi mais simples do que isso. Eu queria que você tivesse a riqueza que lhe dei. Queria que você... fosse feliz.
Ela refletiu durante um longo tempo.
— Você gostaria que eu esquecesse de você? — indaguei. A pergunta soou rancorosa, raivosa.
Ela não respondeu de imediato.
— Não, claro que não — ela disse. — E se fosse o contrário, eu tampouco jamais teria esquecido de você. Tenho certeza disso. Mas e os outros? Eu não ligo a mínima para eles. Nunca mais vou trocar uma palavra com eles. Nunca mais colocarei meus olhos neles.
Concordei com um aceno de cabeça. Odiava o que ela estava dizendo. Ela me assustava.
— Não consigo superar a idéia de que morri — ela disse. — De que estou totalmente isolada de todas as criaturas vivas. Posso sentir gosto, posso ver, posso sentir. Posso beber sangue. Mas sou como uma coisa que não pode ser vista, não pode gostar das coisas.
— Não é bem assim — eu disse. — E quanto tempo você acha que vai suportar, sentindo, tocando e provando, se não houver amor? Se não houver alguém com você?
A mesma expressão de quem não está entendendo.
— Oh, por que me dou ao trabalho de lhe contar isso? — eu disse. — Eu estou com você. Nós estamos juntos. Você não sabe como era quando eu estava sozinho. Não pode imaginar.
— Eu estou perturbando você e não quero isso — ela disse. — Conte a eles o que quiser. Talvez você consiga de alguma forma inventar uma história convincente. Não sei. Se quiser que eu vá com você, irei. Farei o que você me pedir. Mas tenho mais uma pergunta para você.
Ela abaixou a voz:
— Com certeza, você não tenciona compartilhar esse poder com eles!
— Não, jamais.
Balancei a cabeça como que para dizer que essa idéia era inacreditável. Eu estava olhando para as jóias, pensando em todos aqueles presentes que enviara, pensando na casa de boneca. Eu enviara uma casa de boneca para eles. Pensei nos artistas de Renaud em segurança do outro lado do Canal.
— Nem mesmo com Nicolas?
— Não, por Deus, não! — Olhei para ela.
Ela concordou com um leve aceno de cabeça como se estivesse aprovando essa resposta. E tornou a passar a mão nos cabelos de uma maneira distraída.
— Por que não com Nicolas? — ela perguntou. Eu queria que aquilo parasse.
— Por que ele é jovem — eu disse. — E tem uma vida pela frente. Não está à beira da morte.
Agora, eu estava mais do que inquieto. Estava arrasado.
— Com o tempo, ele vai se esquecer de nós... — Eu queria dizer “de nossas conversas”.
— Ele poderia morrer amanhã — ela disse. — Uma carruagem pode esmagá-lo nas ruas...
— Você quer que eu faça isso! — Lancei-lhe um olhar penetrante.
— Não. Não quero que você o faça. Mas quem sou eu para lhe dizer o que deve fazer? Estou tentando entendê-lo.
Seus cabelos longos e pesados haviam caído sobre seus ombros de novo e, exasperada, ela segurou-os com ambas as mãos.
Então, de repente, ela soltou um som baixo e sibilante e seu corpo ficou rígido. Ela estava segurando suas longas madeixas, olhando para elas.
— Meu Deus — ela sussurrou.
A seguir, num espasmo, soltou os cabelos e gritou.
O som me paralisou. Um lampejo de dor atravessou minha cabeça. Eu nunca a ouvira gritar. E ela gritou de novo como se estivesse em chamas. Havia caído para trás de encontro à janela e estava gritando mais alto enquanto olhava para seu cabelo. Ela queria tocá-lo e depois retirava os dedos como se o cabelo estivesse em chamas. Ela se contorcia na janela, gritando e girando de um lado para o outro, como se estivesse tentando fugir dos próprios cabelos.
— Pare com isso! — gritei.
Agarrei seus ombros e sacudi-a. Ela estava ofegante. Percebi no mesmo instante o que era. Seus cabelos haviam crescido de novo! Haviam crescido enquanto ela dormia até ficarem do mesmo tamanho que tinham antes. E estavam mais grossos ainda, mais lustrosos. Era isso que havia de errado em sua aparência, o que eu notara e não conseguira entender! E o que ela acabava de ver com os próprios olhos.
— Pare, pare com isso agora! — gritei mais alto, e seu corpo tremia com tanta violência que eu mal conseguia mantê-la em meus braços. — Cresceu de novo, só isso! — insisti. — É natural em você, não percebe? Não é nada!
Ela estava engasgada, tentando acalmar-se, tocando os cabelos e depois gritando como se as pontas de seus dedos estivessem empoladas. Tentou escapar de mim e em seguida passou a puxar os cabelos de puro terror.
Dessa vez, eu a sacudi com força.
— Gabrielle! — eu disse. — Você me entende? Ele cresceu de novo e vai crescer toda vez que você cortá-lo! Não há nenhum horror nisso, pelo amor do inferno, pare!
Pensei que se ela não parasse, eu mesmo começaria a me enfurecer. Eu estava tremendo tanto quanto ela.
Ela parou de gritar e estava soltando pequenos soluços. Eu nunca a tinha visto daquela maneira, não em todos aqueles anos em Auvergne. Ela deixou que eu a conduzisse em direção ao banco perto da lareira, onde a fiz sentar-se. Ela levou as mãos às têmporas e tentou recuperar o fôlego, balançando o corpo bem devagar para a frente e para trás.
Olhei em redor à procura de uma tesoura. Eu não tinha nenhuma. A pequena tesoura dourada havia caído no chão da cripta subterrânea. Peguei minha faca.
Ela estava soluçando suavemente com as mãos na boca.
— Quer que eu os corte de novo? — perguntei. Ela não respondeu.
— Gabrielle, ouça-me. — Tirei suas mãos de seu rosto. — Se você quiser, eu os cortarei de novo. Toda noite, corte-os e queime-os. Só isso.
De repente, ela me encarou com uma tranqüilidade tão perfeita que fiquei sem saber o que fazer. Seu rosto estava manchado com o sangue de suas lágrimas, e havia sangue em toda sua roupa.
— Devo cortá-los? — tornei a perguntar.
Era como se alguém a tivesse ferido, fazendo-a sangrar. Seus olhos estavam arregalados e assombrados, as lágrimas de sangue caíam deles sobre as faces lisas. E, enquanto eu observava, o fluxo parou, as lágrimas escureceram e secaram, formando uma crosta sobre sua pele branca.
Limpei seu rosto com cuidado, usando meu lenço de renda. Fui até o lugar onde guardava as roupas na torre, os trajes feitos para mim em Paris e que eu levara para guardar ali.
Tirei seu casaco. Ela não fez nenhum movimento para me ajudar ou deter e desabotoei a camisa de linho que ela usava.
Vi seus seios que eram de uma brancura perfeita, exceto pelo matiz mais pálido de rosa em seus pequenos mamilos. Tentando não olhar para eles, vesti-a com camisa limpa e abotoei rápido. A seguir, escovei seus cabelos, escovei e escovei e, não querendo cortá-los com minha faca, fiz uma longa trança com eles e coloquei o casaco de volta nela.
Pude sentir seu autocontrole e força retornando. Ela não parecia envergonhada do que acontecera. E eu não queria que estivesse. Ela estava apenas refletindo sobre as coisas. Mas não falou. Não se mexeu.
Eu comecei a conversar com ela.
— Quando eu era pequeno, você costumava falar para mim sobre todos os lugares onde esteve. Você me mostrava pinturas de Nápoles e Veneza, está lembrada? Aqueles velhos livros? E você tinha coisas, pequenas lembranças de Londres e São Petersburgo, de todos os lugares que havia visto.
Ela não respondeu.
— Gostaria que fôssemos a todos esses lugares. Quero vê-los agora. Quero vê-los e viver neles. Quero ir mais longe ainda, a lugares que jamais sonhei ver quando estava vivo.
Alguma coisa mudou em seu rosto.
— Você sabia que iam crescer de novo? — ela perguntou num sussurro.
— Não. Quer dizer, sim. Quer dizer, não pensei. Eu devia saber que isso ia acontecer.
Ela me encarou durante um longo tempo de novo daquela maneira tranqüila, apática.
— Será que nada disso tudo... jamais... o assusta? — ela perguntou com a voz gutural e estranha. — Será que nada... nunca... o detém?
Sua boca estava aberta e perfeita, parecendo uma boca humana.
— Não sei — sussurrei desamparado. — Não vejo qual a importância disso — eu disse.
Mas eu me sentia confuso agora. Outra vez, eu disse para ela cortar toda noite e queimar. Simples.
— Sim, queimar — ela suspirou. — Caso contrário, com o tempo eles deverão encher todos os quartos da torre, não? Seria como os cabelos de Rapunzel no conto de fadas. Seria como o ouro que a filha do moleiro tinha de fiar da palha no conto de fadas do anão malvado, Rumpelstiltskin.
— Nós escrevemos nossos próprios contos de fadas, meu amor — eu disse. — A lição é que nada pode destruir o que você é agora. Todas as feridas irão cicatrizar. Você é uma deusa.
— E a deusa está com sede — ela disse.
Horas depois, enquanto andávamos de braços dados como dois estudantes no meio da multidão dos bulevares, a coisa já havia sido esquecida. Nossos rostos estavam corados, nossas peles quentes.
Mas não a deixei para procurar meu advogado. E ela não procurou o campo tranqüilo e aberto como desejava. Ficamos juntos um do outro e, de vez em quando, o mais leve vislumbre da presença nos fazia virar a cabeça.


5

Por volta das três horas, quando chegamos na cocheira, sabíamos que estávamos sendo seguidos pela presença.
Durante meia hora, às vezes quarenta e cinco minutos, nós não a ouvíamos. Depois o vago zumbido surgia de novo. Estava me enlouquecendo.
E embora nos esforçássemos para tentar ouvir algum pensamento inteligível dela, tudo que conseguíamos discernir era maldade, e uma agitação ocasional como o espetáculo de folhas secas estalando nas chamas.
Ela estava contente por estarmos voltando para casa. Não que a coisa a incomodasse. Era apenas o que ela havia dito antes — ela desejava o vazio do campo, o sossego.
Quando o campo aberto apareceu de súbito à nossa frente, estávamos indo tão rápido que o vento era o único som que ouvíamos, e creio que ouvi sua risada, mas não tive certeza. Ela adorava sentir o vento, assim como eu, adorava o novo brilho das estrelas sobre as colinas escuras.
Mas eu me perguntava se teria havido momentos nessa noite em que ela chorara em seu íntimo, sem que eu soubesse. Houve ocasiões em que ela ficava sombria e taciturna, seus olhos tremiam como se estivessem chorando, mas não havia absolutamente nenhuma lágrima.
Eu estava absorto nesses pensamentos, creio, quando nos aproximamos de um denso bosque que crescia ao longo das margens de um arroio raso e, de repente, a égua levantou-se e deu uma guinada para o lado.
Quase caí de susto. Gabrielle segurou firme em meu braço direito.
Toda noite eu cavalgava por aquela pequena clareira, atravessando com estardalhaço a estreita ponte de madeira por cima das águas. Eu adorava o som dos cascos do cavalo na madeira e a subida na margem em aclive. E minha égua conhecia o caminho. Mas agora, ela não queria seguir em frente.
Assustada, ameaçando empinar-se de novo, ela girou por conta própria e galopou de volta em direção a Paris até que, com toda a força de minha vontade, me impus sobre ela, detendo-a pelas rédeas.
Gabrielle estava olhando fixamente para o denso bosque, a grande massa de galhos escuros e balouçantes que escondia o arroio. E então surgiu por cima do fino uivo do vento e do suave volume do farfalhar de folhas a pulsação clara da presença nas árvores.
Nós a ouvimos ao mesmo tempo, com certeza, porque estreitei meu braço em torno de Gabrielle enquanto ela concordava com a cabeça, apertando minha mão,
— Está mais forte! — ela disse rapidamente. — E não é uma só.
— Sim — eu disse enfurecido — e está entre mim e meu refúgio! Desembainhei a espada, abraçando Gabrielle com o braço esquerdo.
— Você não vai cavalgar até lá — ela gritou.
— Uma droga que não vou! — eu disse, tentando segurar o cavalo. — Em menos de duas horas o sol vai nascer. Pegue sua espada!
Ela tentou virar-se para falar comigo, mas eu já estava conduzindo o cavalo para a frente. E ela desembainhou a espada tal como eu lhe disse, com sua pequena mão prendendo-a com tanta firmeza quanto a mão de um homem.
Claro que a coisa fugiria assim que chegássemos no bosque, eu tinha certeza disso. Quero dizer que aquela maldita coisa jamais havia feito coisa alguma a não ser fugir e correr. E eu estava furioso porque havia assustado minha montaria, e por estar assustando Gabrielle.
Com um chute forte e toda a força de minha persuasão mental, fiz o cavalo disparar para a frente direto para a ponte.
Agarrei a arma com firmeza. Curvei-me na sela com Gabrielle por baixo de mim. Eu estava bufando de raiva como se fosse um dragão, e quando os cascos da égua bateram na madeira oca sobre as águas, eu os vi, os demônios, pela primeira vez!
Rostos e braços brancos acima de nós, vislumbrados por não mais que um segundo, e saindo de suas bocas o grito agudo mais horrendo enquanto sacudiam os galhos, fazendo uma saraivada de folhas cair sobre nós.
— Malditos sejam, bando de harpias! — eu gritei quando chegamos na margem inclinada do outro lado, mas Gabrielle soltou um grito.
Alguma coisa havia caído na garupa do cavalo e o animal escorregava na terra molhada enquanto a coisa me segurava pelo ombro e pelo braço com o qual eu tentava girar a espada.
Brandindo a espada por sobre a cabeça de Gabrielle e passando por baixo de meu braço esquerdo, golpeei a criatura com toda fúria e vi quando ela voou fora, um borrão branco nas trevas, enquanto um outro saltou em nossa direção com mãos que pareciam garras. O aço de Gabrielle cortou o braço estendido. Eu vi o braço subir nos ares, com o sangue jorrando como se saísse de uma fonte. Os gritos transformaram-se num lamento murcho. Eu queria cortar cada um deles em pedaços. Recuei o cavalo num movimento brusco demais, de modo que ele empinou e quase caiu.
Mas Gabrielle segurou-o pela crina e conduziu-o de novo em direção à estrada à nossa frente.
Enquanto corríamos para a torre, podíamos ouvir seus gritos que nos acompanhavam. E quando a égua esgotou-se, nós a abandonamos e corremos, de mãos dadas, em direção aos portões.
Eu sabia que nós tínhamos de atravessar a passagem secreta para a câmara interna antes que eles subissem pela parede externa. Eles não deviam nos ver tirar a pedra do lugar.
E, trancando os portões e portas atrás de mim o mais rápido que pude, carreguei Gabrielle escada acima.
No momento em que chegamos no quarto secreto e empurramos a pedra de volta ao seu lugar, ouvi seus uivos e gritos agudos lá embaixo e os primeiros sinais de que escalavam a parede.
Agarrei uma braçada de lenha e atirei janela abaixo.
— Depressa, as aparas para acender o fogo — eu disse.
Mas já havia meia dúzia de rostos brancos nas grades da janela. Seus uivos ecoavam monstruosamente na pequena cela. Por um momento, só pude encará-los enquanto recuava.
Eles agarravam-se nas grades de ferro como um bando de morcegos, mas não eram morcegos. Eram vampiros, e vampiros como nós éramos vampiros, em forma humana.
Olhos escuros nos espreitavam por baixo de esfregões de cabelo sujo, enquanto os berros ficavam mais altos e mais ferozes; os dedos que se agarravam nas grades estavam empastados de sujeira. Aquelas roupas, até onde pude ver, eram nada mais que farrapos sem cor. E a fedentina que vinha deles era o fedor dos cemitérios.
Gabrielle arremessou as aparas na parede e pulou para longe quando eles tentaram agarrá-la. Eles mostraram os dentes caninos. Ganiram. Mãos se esforçaram para pegar a lenha e jogá-la de volta para nós. Puxavam juntos às grades como se pudessem libertá-las da pedra.
— Pegue o estojo de pederneira — eu berrei.
Peguei uma das peças de lenha mais sólida e arremessei no rosto mais próximo, tirando facilmente a criatura da parede. Coisas fracas. Ouvi seu grito enquanto caía, mas os outros seguravam a lenha e lutavam comigo agora, enquanto eu deslocava outro pequeno demônio imundo. Mas à essa altura Gabrielle já havia acendido a acendalha.
As chamas lançaram-se para o alto. Os uivos cessaram num frenesi de fala comum:
— É fogo, recuem, desçam, saiam do caminho, seus idiotas. Para baixo, para baixo. As barras estão quentes! Afastem-se depressa!
Francês perfeitamente vulgar! Na verdade, uma torrente cada vez maior de imprecações.
Eu explodi numa gargalhada e comecei a dançar, apontando para eles, enquanto olhava para Gabrielle.
— Maldito seja, seu blasfemador! — gritou um deles.
Então o fogo lambeu suas mãos e ele uivou, caindo para trás.
— Malditos os profanadores, os proscritos! — os gritos vinham de baixo. Os gritos espalharam-se rapidamente, tornando-se um coro regular.
— Malditos sejam os proscritos que ousaram entrar na Casa de Deus!
Mas eles estavam descendo para o chão. As toras pesadas estavam queimando e o fogo rugia para o teto.
— Voltem para o cemitério de onde vieram, bando de moleques! — eu disse. Eu teria jogado o fogo sobre eles lá embaixo, se pudesse ter chegado perto da janela.
Gabrielle estava parada com os olhos apertados e era óbvio que estava prestando atenção.
Gritos e uivos continuavam vindo lá de baixo. Um outro salmo de maldições sobre aqueles que violaram as leis sagradas, que blasfemaram, que provocaram a ira de Deus e de Satanás. Eles estavam forçando os portões e as janelas mais baixas. Estavam fazendo coisas estúpidas como atirar pedras na parede.
— Eles não podem entrar — Gabrielle disse em voz baixa e monótona, com a cabeça ainda levantada, atenta. — Não podem pôr abaixo o portão.
Eu não estava tão certo assim. O portão estava enferrujado, muito velho. Nada a fazer a não ser esperar.
Desabei no chão, apoiando-me na lateral do sarcófago, com os braços em volta de meu peito e as costas inclinadas. Eu nem sequer estava rindo mais.
Ela também sentou-se apoiada na parede, com as pernas esparramadas à sua frente. Seu peito palpitava um pouco, e os cabelos estavam se soltando da fita. Eram como o capelo de uma cobra naja, com fios soltos pendurados em suas faces brancas. Havia fuligem nas suas roupas.
O calor do fogo era sufocante. O quarto abafado bruxuleava com a fumaça e as chamas se elevavam, impedindo a entrada da noite. Mas nós podíamos respirar o pouco ar que restava. Nada sofremos, exceto o calor e a exaustão.
E, pouco a pouco, compreendi que ela estava certa em relação ao portão. Eles não conseguiram derrubá-lo. E pude ouvi-los afastando-se.
— Que a ira de Deus puna o profano!
Houve uma leve comoção próximo aos estábulos. Vi em minha mente meu pobre cavalariço mortal e imbecil ser arrastado, aterrorizado, de seu esconderijo, e minha raiva duplicou. Eles estavam transmitindo para mim imagens de seus pensamentos, do assassinato daquele pobre corpo. Malditos sejam.
— Fique quieto — Gabrielle disse. — É tarde demais.
Seus olhos se arregalaram e depois tornaram a se estreitar de novo enquanto ela prestava atenção. Ele estava morto, a pobre e miserável criatura.
Senti a morte como se houvesse visto um pequeno pássaro negro erguer-se subitamente sobre o estábulo. E ela inclinou-se para a frente como se também estivesse vendo, depois reclinou-se como se tivesse perdido a consciência, mas não perdeu. Ela murmurou algo que soou como “veludo vermelho”, mas foi à meia-voz e eu não entendi as palavras.
— Vou puni-los por isso, bando de desordeiros! — eu disse em voz alta. — Vocês perturbaram minha casa. Juro que irão pagar por isso.
Mas meus membros estavam ficando cada vez mais pesados. O calor do fogo quase me entorpecia. Todos os estranhos acontecimentos daquela noite estavam cobrando seu tributo.
Em minha exaustão e com o clarão do fogo, eu não conseguia adivinhar as horas. Acho que caí no sono por um instante e acordei com um tremor, sem saber quanto tempo se passara.
Olhei para cima e vi a figura sobrenatural de um jovem rapaz, um belo rapaz, andando de um lado para outro na câmara.
É claro que era apenas Gabrielle.


6

Ela dava a impressão de uma força quase exuberante enquanto andava sem parar. No entanto, tudo estava cercado de uma graça intacta. Ela chutava as toras e observava as fagulhas da chama por um momento, e voltava a pensar. Eu podia ver o céu. Talvez ainda faltasse uma hora.
— Mas quem são eles? — ela perguntou.
Estava parada de pé, com as pernas abertas, as mãos em dois gestos claros de apelo.
— Por que nos chamam de proscritos e blasfemadores?
— Eu lhe contei tudo que sei — confessei. — Até hoje à noite, eu não achava que eles tivessem um corpo ou vozes de verdade.
Eu me pus de pé e limpei minhas roupas.
— Eles nos amaldiçoaram porque entramos em igrejas! — ela disse. — Você captou aquilo, as imagens que vinham deles? E eles não sabem como conseguimos fazer isso. Eles próprios não ousariam.
Pela primeira vez, observei que ela estava tremendo. Havia outros pequenos sinais de alarme, o modo como a carne estremecia em redor dos seus olhos, o modo como puxava os fios de cabelo para longe dos olhos.
— Gabrielle — eu disse, tentando tornar meu tom de voz autoritário, tranqüilizador. — O importante é sair daqui agora. Não sabemos a que hora essas criaturas levantam, ou em que momento retornarão depois do pôr-do-sol. Temos que descobrir outro esconderijo.
— A cripta da masmorra — ela gritou.
— Uma armadilha pior do que esta — eu disse — se eles conseguirem atravessar o portão.
Tornei a olhar para o céu e retirei a pedra da passagem secreta.
— Vamos — eu disse.
— Mas para onde estamos indo? — ela perguntou. Pela primeira vez naquela noite parecia quase frágil.
— Para uma aldeia a leste daqui — eu disse. — É perfeitamente óbvio que o lugar mais seguro é dentro da própria igreja da aldeia.
— Você faria isso? — ela perguntou. — Na igreja?
— Claro que faria. Como você acabou de dizer, as pequenas bestas jamais ousariam entrar! E as criptas debaixo do altar serão tão fundas e escuras quanto qualquer túmulo.
— Mas Lestat, descansar debaixo do próprio altar!
— Mãe, você me surpreende -eu disse. — Eu ataquei minhas vítimas sob o próprio teto de Notre Dame.
Mas ocorreu-me uma outra pequena idéia. Fui até a arca de Magnus e comecei a procurar na pilha do tesouro. Peguei dois rosários, um de pérolas, outro de esmeraldas, ambos tendo o pequeno crucifixo de praxe.
Ela me observava, o rosto pálido, atormentado.
— Aqui, pegue este — eu disse, dando-lhe o rosário de esmeraldas. — Mantenha ele em seu corpo. Se voltarmos a encontrar com eles, mostre-lhes o crucifixo. Se eu estiver certo, eles correrão dele.
— Mas o que acontecerá se não encontrarmos um lugar seguro na igreja?
— Como, diabos, vou saber? Voltaremos para cá!
Pude sentir o medo crescendo dentro dela, espalhando-se enquanto ela hesitava e olhava pela janela para as estrelas que perdiam a cor. Ela tivera a promessa de eternidade e agora corria perigo outra vez.
Rapidamente, tomei o rosário dela, beijei-a e deslizei o rosário para dentro do bolso de sua sobrecasaca.
— Esmeraldas significam vida eterna, mãe — eu disse.
Ela parecia de novo o garoto parado ali, com o último brilho do fogo apenas marcando a linha de sua face e sua boca.
— É como eu disse antes — ela sussurrou. — Você não tem medo de nada, não é mesmo?
— Que importa se tenho ou não? — encolhi os ombros. Peguei seu braço e puxei-a para a passagem.
— Nós somos as coisas que os outros temem — eu disse. — Lembre-se disto.
Quando chegamos no estábulo, vi que o garoto havia sido assassinado de maneira hedionda. Seu corpo despedaçado jazia contorcido no chão cheio de feno, como se tivesse sido arremessado ali por um titã. O pescoço estava quebrado. E para zombar dele, ou zombar de mim, eles o vestiram com um elegante casaco de veludo de um cavalheiro. Estas foram as palavras que ela murmurou no momento em que eles cometiam o crime. Eu tinha visto apenas a morte. Agora, desviei o olhar, aborrecido. Todos os cavalos haviam desaparecido.
— Eles pagarão por isto — eu disse.
Segurei a mão dela. Mas ela olhava fixo para o corpo do infeliz garoto, como se este a atraísse contra sua vontade. Ela me olhou de soslaio.
— Estou com frio — sussurrou. — Estou perdendo a força dos membros. Eu preciso, preciso mesmo ir para um lugar escuro. Posso sentir isso.
Eu a conduzi rápido por sobre a elevação de uma colina próxima em direção à estrada.
Não havia pequenos monstros uivantes escondidos no pátio da igreja da aldeia, claro. Não pensei que haveria. Havia muito tempo que a terra não era revirada nos velhos túmulos.
Gabrielle estava perto, conferindo isso comigo.
Carreguei-a até a porta lateral da igreja e, silenciosamente, quebrei o trinco.
— Sinto frio no corpo inteiro. Meus olhos estão ardendo — ela tornou a dizer num sussurro. — Algum lugar escuro.
Mas quando comecei a levá-la para dentro, ela se deteve.
— E se eles estiverem certos — ela disse — e nós não pertencermos à Casa de Deus?
— Conversa fiada, tolices. Deus não está na Casa de Deus. -Não diga isso!... — ela gemeu.
Empurrei-a pela sacristia até sairmos diante do altar. Ela cobriu o rosto e, quando ergueu os olhos, foi para o crucifixo sobre o tabernáculo. Soltou um suspiro longo e baixo. Mas foi dos vitrais das janelas que ela protegeu os olhos, virando a cabeça para mim. O sol nascente, que eu nem sequer sentia, já estava queimando-a!
Ergui-a nos braços como havia feito na noite anterior. Tinha de encontrar uma velha cripta funerária, uma que não houvesse sido usada durante anos. Apressei-me em direção ao altar da Virgem Maria, onde as inscrições estavam quase apagadas. E, ajoelhando-me, forcei as unhas em torno de uma laje e levantei-a rápido, havia ali um sepulcro fundo com um único caixão apodrecido.
Entrei com ela no sepulcro e recoloquei a laje no lugar.
Escuridão total e o caixão se desfazendo debaixo de mim, de modo que minha mão direita tocou num crânio esmigalhado. Eu sentia a ponta de outros ossos debaixo de meu peito. Gabrielle falou como se estivesse em transe:
— Sim. Longe da luz.
— Estamos a salvo — eu sussurrei.
Empurrei os ossos para o lado, fazendo um ninho com a madeira apodrecida e o pó, que era velho demais para conter qualquer cheiro de decomposição humana.
Mas ainda demorei uma hora ou mais para cair no sono.
Fiquei pensando muito no cavalariço, mutilado e jogado lá, com aquele elegante casaco de veludo vermelho. Eu já havia visto aquele casaco antes mas não conseguia recordar onde. Seria um de meus próprios casacos? Teriam eles entrado na torre? Não, não era possível, eles não podiam ter entrado. Teriam eles mandado fazer um idêntico ao meu? Teriam ido a tais extremos para me ridicularizar? Não. Como tais criaturas poderiam fazer uma coisa como essa? Mas, mesmo assim... aquele casaco em especial. Alguma coisa nele...


7

Quando abri os olhos, ouvi o cântico mais suave e adorável. E, como só a música consegue fazer, ele me levou de volta à infância, para alguma noite de inverno quando toda a minha família havia ido à igreja de nossa aldeia e ficara durante horas entre as velas ardentes, respirando o cheiro forte e sensual do incenso enquanto o padre andava em procissão com o ostensório erguido no alto.
Lembrei-me da imagem da Hóstia consagrada, branca e redonda, por detrás do vidro espesso, a explosão estelar de ouro e pedras preciosas em seu redor e, no alto, o dossel bordado balançando perigosamente enquanto os acólitos, com suas sobre-pelizes de renda, tentavam equilibrá-lo durante o caminho.
Milhares de ações de graças depois, as palavras do velho hino estavam gravadas em minha lembrança:
O Salutar is Hóstia
Quae caelipandis ostium
Bella premunt bostilia,
Da robur,fer auxilium...
E enquanto eu jazia nos restos daquele caixão podre, debaixo da laje de mármore do altar lateral daquela imensa igreja do vilarejo, com Gabrielle agarrada em mim, ainda desmaiada de sono, fui percebendo aos poucos que lá em cima de nós centenas e centenas de mortais estavam cantando agora esse mesmo hino.
A igreja estava cheia de gente! E nós não poderíamos sair daquele maldito ninho de ossos até que todos fossem embora.
Eu podia sentir as pessoas movendo-se ao meu redor, na escuridão. Podia sentir o cheiro do esqueleto quebrado e esmigalhado no qual eu estava deitado. Podia sentir o cheiro da terra, também, e sentir a umidade e o rigor do frio.
As mãos de Gabrielle eram mãos mortas que me seguravam. Seu rosto estava tão inflexível quanto um osso.
Tentei não ficar ruminando isso, mas permanecer deitado perfeitamente quieto.
Centenas de humanos respiravam e suspiravam lá em cima. Talvez mil deles. E agora passavam para o segundo hino.
O que virá agora, pensei com tristeza. A ladainha, as bênçãos? Nessa noite mais do que em qualquer outra, eu não tinha tempo para ficar ali meditando. Eu precisava sair. A imagem daquele casaco de veludo vermelho ocorreu-me de novo com uma sensação irracional de urgência, e um lampejo de dor também inexplicável.
E, de repente, me pareceu que Gabrielle abriu os olhos. Claro que não vi isso. Estava muitíssimo escuro ali. Eu senti. Senti seus membros voltarem à vida.
E, depois que se mexeu, seu corpo ficou tenso. Coloquei minha mão sobre sua boca.
— Fique quieta — sussurrei, mas podia sentir seu pânico.
Devia estar se recordando de todos os horrores da noite anterior, de que estava agora num sepulcro com um esqueleto quebrado, de que estava deitada debaixo de uma pedra que mal conseguiria levantar.
— Estamos na igreja! — sussurrei. — E estamos seguros.
O canto aumentou de volume.
Tantum ergo Sacramentum,
Veneremur cernui.
— Não, é uma ação de graças — Gabrielle disse com voz entrecortada. Estava tentando ficar quieta, mas de repente perdeu o controle e tive que agarrá-la firmemente por ambos os braços.
— Nós precisamos sair — ela sussurrou. — Lestat, o Sagrado Sacramento está no altar, pelo amor de Deus.
Os restos do caixão de madeira chocaram-se e rangeram numa pedra por baixo deles, fazendo com que eu rolasse para cima dela para forçá-la a ficar deitada com meu peso.
— Agora fique quieta, você me ouviu? — eu disse. — Não temos opção a não ser esperar.
Mas seu pânico estava me contagiando. Eu sentia os fragmentos dos ossos rangendo debaixo de meus joelhos e o cheiro de roupa apodrecida. Parecia que o fedor da morte estava penetrando as paredes do sepulcro, e eu sabia que não poderia suportar ficar confinado com aquele cheiro.
— Não podemos — ela disse ofegante. — Não podemos permanecer aqui, eu tenho de sair.
Ela estava quase choramingando.
— Lestat, eu não posso.
Estava apalpando as paredes com ambas as mãos e depois a pedra em cima de nós. Eu ouvi um som puro de terror sair de seus lábios.
O hino terminara lá em cima. O padre iria subir os degraus do altar, levantaria o ostensório com ambas as mãos. Iria virar-se para a congregação e ergueria a Hóstia Sagrada na bênção. Gabrielle sabia disso, é claro, e de repente enlouqueceu, contorcendo-se debaixo de mim, quase empurrando-me para o lado.
— Está bem, ouça-me! — eu disse sibilando; não poderia controlar aquilo por mais tempo. — Nós vamos sair. Mas faremos isso como verdadeiros vampiros, está ouvindo? Há mil pessoas na igreja e nós vamos matá-los de medo. Erguerei a pedra e vamos levantar juntos e, quando fizermos isso, levante os braços e faça a cara mais horrível que puder e grite, se conseguir. Isso fará com que eles recuem, em vez de se precipitarem sobre nós e nos arrastarem para a prisão, aí então correremos para a porta.
Ela nem conseguiu parar para responder, já estava lutando, batendo nas tábuas apodrecidas com os calcanhares.
Eu me levantei, dando um grande empurrão com ambas as mãos na laje de mármore, e pulei para fora da câmara mortuária tal como havia dito que faria, erguendo a capa para formar um gigantesco arco.
Aterrissei no chão do coro, sob a luz das velas, soltando o grito mais vigoroso que pude.
Centenas de pessoas puseram-se de pé diante de mim, centenas de bocas se abriram para gritar.
Dando um outro berro, agarrei a mão de Gabrielle e investi contra eles, saltando por cima da mesa de comunhão. Ela soltou um adorável queixume agudo, a mão esquerda erguida como uma garra enquanto eu a puxava pela nave lateral. Havia pânico em toda parte, homens e mulheres agarrando crianças, gritando e desmaiando.
As portas pesadas davam para o céu escuro, sentimos uma lufada de vento. Empurrei Gabrielle na minha frente e, virando-me, soltei o grito mais alto que pude. Mostrei meus dentes caninos para a congregação que se contorcia e gritava, e incapaz de dizer se alguns deles me perseguiam ou apenas caíam na minha direção em pânico, enfiei a mão no bolso e reguei o chão de mármore com moedas de ouro.
— O demônio está jogando dinheiro! — alguém gritou.
Atravessamos o cemitério e os campos correndo.
Em segundos estávamos no bosque e eu pude sentir o cheiro dos estábulos de uma enorme casa que havia à nossa frente, logo depois das árvores.
Fiquei parado, quase curvado para me concentrar, e convoquei os cavalos. Corremos na direção deles, ouvindo o estrondo surdo de seus cascos nas baias.
Saltando por sobre a sebe baixa com Gabrielle ao meu lado, arranquei a porta de suas dobradiças no exato momento em que um belo cavalo castrado saía correndo de sua baia quebrada. Saltamos em sua garupa, com Gabrielle montando antes de mim, depois passei meus braços em torno dela.
Enterrei meus calcanhares no animal e cavalgamos para o sul através dos bosques, em direção a Paris.


8

Tentei bolar um plano enquanto nos aproximávamos da cidade, mas na verdade não sabia ao certo como proceder.
Não havia como evitar aqueles monstrinhos imundos. Nós estávamos cavalgando para uma batalha. E havia pouca diferença da manhã em que saí para matar os lobos e contava apenas com minha raiva e minha vontade para me amparar.
Nós mal tínhamos entrado em Montmartre, com suas casas de fazenda distantes umas das outras, quando ouvimos, durante uma fração de segundo, seu murmúrio indistinto. Nocivo como um gás.
Gabrielle e eu sabíamos que tínhamos de beber sem demora, a fim de estarmos preparados para eles.
Paramos numa das pequenas fazendas, rastejamos através do pomar até a porta dos fundos, e lá dentro encontramos um homem e sua mulher cochilando junto a uma lareira vazia.
Quando terminou, nós saímos da casa juntos e fomos até o pequeno pomar onde ficamos parados por um momento, olhando para o céu cinza-pérola. Nenhum som dos outros. Apenas o silêncio, a lucidez do sangue fresco e a ameaça de chuva enquanto as nuvens se juntavam no céu.
Virei-me e em silêncio ordenei ao cavalo que fosse a mim. E juntando as rédeas, virei-me para Gabrielle.
— Não vejo outra saída a não ser irmos para Paris — eu lhe disse — para enfrentarmos aquelas pequenas bestas de frente. E até que eles se mostrem e comecem a guerra de novo, há coisas que devo fazer. Tenho que pensar em Nicki. Tenho que conversar com Roget.
— Não é hora para essa tolice mortal — ela disse.
A sujeira do sepulcro da igreja ainda estava grudada no pano de seu casaco e em seus cabelos louros, e ela parecia um anjo arrastado na poeira.
— Não quero que eles fiquem entre mim e aquilo que tenciono fazer — eu disse.
Ela respirou fundo.
— Você quer levar essas criaturas para seu querido monsieur Roget? — ela perguntou.
Aquilo era terrível demais para ser levado a sério.
Estavam caindo as primeiras gotas de chuva e, apesar do sangue, eu sentia frio. Dentro de momentos estaria caindo uma chuva pesada.
— Está bem — eu disse. — Nada pode ser feito até isso terminar! Montei no cavalo e estendi a mão para ela.
— O sofrimento só serve para estimulá-lo, não? — ela perguntou, enquanto me examinava. — Deveria apenas fortalecê-lo, não importa o que eles façam ou tentem fazer.
— Ora, isto é o que eu chamo de tolice mortal! — eu disse. — Vamos embora!
— Lestat — ela disse séria. — Eles puseram o casaco de um cavalheiro em seu cavalariço depois de matá-lo. Você viu o casaco? Já não o tinha visto antes?
— Aquele maldito casaco de veludo vermelho...
— Eu já vi — ela disse. — Olhei para ele durante horas ao lado de minha cama em Paris. Era o casaco de Nicolas de Lenfent.
Olhei para ela durante um longo momento. Mas não creio que a estivesse vendo, em absoluto. A raiva que crescia dentro de mim era absolutamente silenciosa. Ia continuar sendo raiva até eu provar que deveria ser dor, pensei. Então não estaria pensando mais.
Eu tinha a vaga idéia de que ela ainda não tinha noção do quanto nossas paixões podiam ser fortes, de como podiam paralisar-nos. Acho que movi meus lábios, mas nada saiu deles.
— Não creio que eles o tenham matado, Lestat — ela disse.
Mais uma vez, tentei falar. Eu queria perguntar-lhe por que ela estava dizendo aquilo; mas não conseguia. Eu estava olhando para o pomar à frente.
— Creio que ele está vivo — ela disse. — E que é prisioneiro deles. Caso contrário, teriam deixado seu corpo lá e jamais se incomodariam com o cavalariço.
— Talvez sim, talvez não. — Tive que forçar minha boca a formar as palavras.
— O casaco foi uma mensagem.
Eu não podia suportar aquilo por mais tempo.
— Vou atrás deles — eu disse. — Você quer voltar para a torre? Se eu falhar nisso...
— Não tenho nenhuma intenção de deixá-lo — ela disse.
A chuva caía forte no momento em que chegamos no bulevar du Temple, e as pedras molhadas do pavimento ampliavam milhares de lampiões.
Meus pensamentos se consolidaram em estratégias que eram mais instinto do que razão. E eu estava tão preparado para a luta como jamais estive. Mas tínhamos de descobrir onde estávamos. Quantos deles estavam lá? E o que realmente queriam? Capturar-nos ou destruir-nos? Assustar-nos e tirar-nos do caminho? Eu precisava dominar minha raiva, tinha de lembrar que eles eram infantis, supersticiosos, fáceis de afugentar ou de assustar.
Tão logo chegamos nos altos e antigos prédios de moradia perto de Notre Dame, eu os ouvi em nossas proximidades, com a vibração chegando como num raio prateado e desaparecendo rápido de novo.
Gabrielle retesou-se e eu senti sua mão esquerda em meu punho. Vi sua mão direita sobre o cabo de sua espada.
Havíamos entrado numa ruela sinuosa que virava às cegas na escuridão à nossa frente, enquanto o barulho das ferraduras do cavalo quebravam o silêncio, e eu me esforçava para não me irritar com o próprio som.
Parece que os vimos ao mesmo tempo.
Gabrielle encostou-se em mim e eu sufoquei o grito que lhes teria dado a impressão de que eu estava com medo.
Bem acima de nós, em ambos os lados da via pública, estavam seus rostos brancos logo acima dos beirais dos prédios de moradia, um tênue brilho tendo como pano de fundo o céu ameaçador e o turbilhão silencioso da chuva prateada.
Conduzi o cavalo à frente numa investida de rangidos e estrépitos. Lá em cima, eles corriam como ratos no telhado. Suas vozes elevaram-se num leve uivo que os mortais jamais poderiam ouvir.
Gabrielle soltou um gritinho abafado quando vimos suas pernas e braços brancos descendo as paredes à nossa frente, e eu ouvi mais atrás o baque suave de seus pés nas pedras.
— Em frente — eu gritei e, desembainhando a espada, cavalguei direto para as duas figuras esfarrapadas que haviam caído em nosso caminho. — Criaturas abomináveis, saiam de meu caminho — gritei, ouvindo seus berros horripilantes.
Vislumbrei rostos angustiados por um momento. Aqueles que estavam nos telhados desapareceram e os que estavam atrás de nós pareceram fraquejar. Avançamos, aumentando a distância entre nós e nossos perseguidores, até que chegamos na deserta Place de Greve.
Mas eles estavam se agrupando de novo nas margens da praça e, dessa vez, eu ouvia seus pensamentos com clareza, um deles perguntava que poder tínhamos nós e por que deviam ter medo, enquanto um outro insistia para se aproximarem.
Alguma força saiu de Gabrielle nesse momento, sem dúvida, porque pude vê-los recuar visivelmente quando ela lançou um olhar em sua direção e apertou mais a mão na espada.
— Pare, fique longe deles! — ela disse a meia-voz. — Eles estão aterrorizados. Em seguida, eu a ouvi praguejar, porque, voando das sombras do Hôtel-Dieu em nossa direção, vieram pelos menos mais seis dos pequenos demônios, com seus membros finos e brancos envoltos em farrapos, os cabelos esvoaçantes e os gemidos terríveis saindo de suas bocas. Estavam reorganizando os outros. O rancor que nos cercava ganhava forças.
O cavalo empinou e quase nos derrubou. Eles estavam dando ordens para o animal parar, com a mesma certeza com que eu ordenava que ele prosseguisse.
Agarrei Gabrielle pela cintura, pulamos do cavalo e corremos em alta velocidade para as portas de Notre Dame.
Um horrendo balbucio de escárnio elevou-se silenciosamente em meus ouvidos, gemidos, gritos e ameaças:
— Vocês não ousarão, não ousarão!
Um rancor que parecia o calor de vapor de uma fornalha abriu-se para nós, enquanto seus pés chegavam batendo e chapinhando no chão em redor de nós, e eu senti suas mãos lutando para agarrar minha espada e meu casaco.
Mas eu estava certo do que aconteceria quando chegássemos na igreja. Fiz um derradeiro esforço supremo, erguendo Gabrielle diante de mim, de modo que deslizamos juntos através das portas, passamos pela soleira da catedral e caímos estatelados lá dentro, sobre as pedras.
Gritos. Gritos ríspidos e medonhos subiram pelos ares e depois uma convulsão, como se toda a turba tivesse sido dispersada por uma explosão de canhão.
Eu me pus de pé com dificuldade, rindo bem alto deles. Mas já não me encontrava tão próximo assim da porta para ouvir mais. Gabrielle estava de pé e me puxava atrás dela. Juntos entramos apressados na nave escura, passando por imensas arcadas até chegarmos perto das pálidas velas do santuário. Então procuramos um canto escuro e vazio ao lado do altar lateral e desabamos juntos sobre nossos joelhos.
— Parecem aqueles malditos lobos! — eu disse. — Uma maldita emboscada.
— Shhh, fique quieto um instante — Gabrielle disse agarrando-se em mim. — Se não meu coração imortal vai explodir.


9

Após um longo momento, senti que ela se enrijeceu. Ela estava olhando na direção da praça.
— Não pense em Nicolas — ela disse. — Eles estão esperando e prestando atenção. Estão ouvindo tudo que se passa em nossas mentes. — Mas em que eles estão pensando? — eu sussurrei. — O que se passa na cabeça deles?
Eu podia sentir a concentração dela.
Puxei-a para perto de mim e olhei direto para a luz prateada que entrava pelas portas abertas ao longe. Agora, eu também podia ouvi-los, mas apenas aquele som baixo que vinha de todos eles ali reunidos.
Mas quando olhei para a chuva, fui possuído pela mais forte sensação de paz. Era quase sensual. Pareceu-me que devíamos render-nos a eles, que era uma tolice continuar resistindo. Tudo se resolveria se apenas fôssemos lá fora e nos entregássemos. Eles não torturariam Nicolas, a quem tinham em seu poder, não o dilacerariam membro por membro.
Vi Nicolas em suas mãos. Estava usando apenas a camisa de renda e os culotes, posto que lhe haviam tirado o casaco. E ouvi seus gritos quando eles puxaram seus braços. Gritei não, colocando a mão sobre minha boca de modo a não assustar os mortais na igreja.
Gabrielle estendeu a mão e tocou meus lábios com seus dedos.
— Não estão fazendo nada com ele — ela disse num sussurro. — É apenas uma ameaça. Não pense nele.
— Então, ele ainda está vivo — eu sussurrei.
— É o que querem que acreditemos. Ouça!
Veio de novo aquela sensação de paz, as convocações, era isso que era, para nos juntarmos a eles, a voz dizendo saiam da igreja. Rendam-se a nós, nós os acolheremos com prazer e não lhes faremos nenhum mal se vierem.
Eu me virei na direção da porta e me pus de pé. Gabrielle levantou-se atrás de mim, apreensiva, prevenindo-me de novo com a mão. Parecia ter medo até de falar comigo enquanto ambos olhávamos para a grande arcada de luz prateada.
Vocês estão mentindo para nós, eu disse. Vocês não têm nenhum poder sobre nós! Era uma corrente de desafios que se movia através da porta distante. Render-nos a vocês. Se fizermos isso então o que os impedirá de nos prender os três? Por que deveríamos sair? Estamos a salvo dentro desta igreja; podemos esconder-nos nas mais profundas câmaras mortuárias. Podemos caçar entre os fiéis, beber seu sangue nas capelas e nichos com tanta habilidade que jamais seremos descobertos, mandando nossas vítimas desconcertadas para morrer depois nas ruas. E o que vocês fariam, vocês que nem ao menos podem atravessar a porta! Além disso, não acreditamos que vocês estejam com Nicolas. Mostrem-no para nós. Deixem que ele chegue na porta e fale.
Gabrielle estava agitada e confusa. Ela me perscrutava, desesperada para saber o que eu disse. E era claro que ela os escutava, coisa que eu não podia fazer quando enviava aqueles impulsos.
Parecia que a pulsação deles enfraquecera, mas não cessara.
Continuava como antes, como se eu não houvesse respondido, como se alguém estivesse cantarolando. Prometia uma trégua de novo e agora parecia falar do êxtase, que todo o conflito seria resolvido no grande prazer que seria juntar-se a eles. Era sensual de novo, era lindo.
— Covardes miseráveis, todos vocês — eu suspirei.
Dessa vez, eu disse as palavras em voz alta, de modo que Gabrielle também pudesse ouvir.
— Mandem Nicolas para a igreja.
O zumbido das vozes tornou-se fraco. Ele continuou, mas além dele havia um silêncio oco, como se outras vozes tivessem sido retiradas e continuassem apenas uma ou duas. Então ouvi a melodia fraca e caótica de discussão e rebelião.
Os olhos de Gabrielle se estreitaram.
Silêncio. Agora só havia mortais lá fora, seguindo seu caminho contra o vento para o outro lado da Place de Greve. Não acreditei que eles fossem embora. Pois bem, o que faríamos para salvar Nicolas?
Pisquei os olhos. De repente, me sentia cansado; era quase uma sensação de desespero. E pensei desnorteado: isto é ridículo, eu jamais me desespero! Outros se desesperam, não eu. Eu continuo lutando, não importa o que aconteça. Sempre. E, em minha exaustão e raiva, vi Magnus pulando e saltando no fogo, vi o esgar em seu rosto antes que as chamas o consumissem e ele desaparecesse. Seria aquilo desespero?
O pensamento me paralisou. Horrorizou-me tanto quanto a realidade da cena na ocasião. E tive a mais estranha sensação, de que uma outra pessoa me falava de Magnus. Foi por isso que eu estava pensando em Magnus!
— Muito astucioso... — Gabrielle sussurrou.
— Não dê ouvidos. Estão fazendo truques com nossos próprios pensamentos — eu disse.
Mas quando olhei para a porta aberta atrás dela, vi surgir uma figura pequena. Era compacta, a figura de um jovem rapaz, não de um homem.
Desejei ansiosamente que fosse Nicolas, mas no mesmo instante soube que não era. Era mais baixo do que Nicolas, embora de compleição mais pesada. E a criatura não era humana.
Gabrielle emitiu um suave som de admiração. Mais pareceu uma oração em sua reverência.
A criatura não se vestia como os homens da época. Ao contrário, usava uma túnica cintada, muito graciosa, e meias nas pernas bem torneadas. As mangas eram compridas, caindo dos lados. Estava vestido como Magnus, na verdade, e por um momento pensei loucamente que Magnus houvesse retornado por alguma mágica.
Pensamento estúpido. Aquele era um rapaz, como eu já disse, e tinha longos cabelos cacheados, caminhava determinadamente através da luz prateada dentro da igreja. Hesitou por um momento. E, pela inclinação da cabeça, parecia estar olhando para cima. Em seguida avançou através da nave em nossa direção, sem que seus pés produzissem o mais leve som nas pedras.
Aproximou-se do brilho das velas no altar lateral. Suas roupas eram de veludo preto, que um dia foram bonitas e agora estavam desgastadas pelo tempo, com uma crosta de sujeira. Mas seu rosto tinha um brilho pálido, perfeito, parecia o semblante de um deus, um Cupido saído do pincel de Caravaggio, sedutor embora diáfano, com cabelos castanho-avermelhados e olhos castanho-escuros.
Puxei Gabrielle para mais perto enquanto olhava para ele e nada nele, naquela criatura inumana, me sobressaltou tanto como a maneira com que nos encarava. Ele estava inspecionando cada detalhe de nossas pessoas; em seguida, estendeu a mão com muita suavidade e tocou a pedra do altar a seu lado. Olhou para o altar, para seu crucifixo e seus santos, em seguida tornou a olhar para nós.
Estava a poucos metros de distância, e a suave inspeção que nos fez produziu uma expressão que era quase sublime. E a voz que eu ouvira antes saiu daquela criatura, convocando-nos de novo, exortando-nos a nos render, dizendo com uma delicadeza indescritível que devíamos amar um ao outro, ele e Gabrielle, a quem não chamava pelo nome, e eu.
Havia algo de ingênuo na transmissão de suas mensagens enquanto ficava parado ali.
Opus resistência a ele. Por instinto. Senti meus olhos ficarem opacos, como se uma parede tivesse sido erguida para bloquear as janelas de meus pensamentos. E mesmo assim senti tamanha ânsia por ele, um desejo imenso de concordar com ele, de segui-lo e ser conduzido por ele, que todos os meus desejos do passado pareciam não ser nada. Ele era tão misterioso para mim quanto Magnus fora. Só que era belo, de uma beleza indescritível, e parecia haver nele uma complexidade infinita e profundeza que Magnus não possuía.
A angústia de minha vida imortal pesou em mim. Ele disse: Venha a mim. Venha a mim porque só eu e meus semelhantes podemos acabar com sua solidão. Essas palavras provocaram uma inexprimível tristeza. Tocaram fundo na minha dor, e minha garganta ficou seca com um pequeno e poderoso nó onde devia estar minha voz, mesmo assim resisti.
Nós dois estamos juntos, eu insisti apertando Gabrielle mais ainda. Em seguida perguntei a ele: Onde está Nicolas? Fiz esta pergunta e me aferrei a ela, não me entregando a nada que tinha visto ou ouvido.
Ele umedeceu os lábios; um gesto demasiado humano. E, em silêncio, aproximou-se de nós até ficar a menos de meio metro de distância, enquanto olhava alternadamente para nós. E com uma voz bem diferente da humana falou:
— Magnus — ele disse em tom discreto, acariciante. — Ele se jogou na fogueira como você disse?
— Eu nunca disse isso — respondi.
O som humano de minha própria voz me sobressaltou. Mas agora eu sabia que ele estava se referindo a meus pensamentos de poucos momentos antes.
— É verdade — respondi. — Ele se jogou na fogueira. Por que deveria enganar alguém com isso?
Tentei penetrar em sua mente. Ele percebeu que eu estava fazendo isso e lançou contra mim imagens tão estranhas que eu fiquei boquiaberto.
O que foi que vi por um instante? Eu nem mesmo sabia. Inferno e céu, ou ambas as coisas numa só, vampiros num paraíso bebendo sangue nas próprias flores, das árvores.
Senti uma onda de náusea. Era como se ele tivesse entrado em meus sonhos secretos como um súcubo.
Mas ele havia parado. Franziu os lábios de leve e olhou para o chão em sinal de respeito. Minha repulsa o intimidara. Ele não havia previsto minha resposta. Não esperara... o quê? Tamanha força?
Sim, e deixava que eu soubesse disso de uma maneira quase cortês.
Devolvi a cortesia. Deixei que me visse no quarto da torre com Magnus; recordei as palavras de Magnus antes de entrar no fogo. Deixei que ele soubesse de tudo sobre isso.
Ele inclinou a cabeça e quando eu disse as palavras que Magnus dissera, houve uma leve mudança em seu rosto como se sua testa tivesse ficado lisa, ou toda sua pele se retesasse. Ele não me deu nenhuma informação parecida sobre si mesmo como resposta.
Pelo contrário, para minha grande surpresa, desviou o olhar de nós e fitou o altar principal da igreja. Passou furtivamente por nós, dando-nos as costas como se nada tivesse a temer de nossa parte, e se esqueceu de nós por um tempo.
Moveu-se em direção à grande nave e subiu-a devagar, mas não parecia andar como os mortais. Movia-se com tanta rapidez de uma sombra para outra que parecia sumir e reaparecer. Nunca era visível à luz. E as muitas almas que se moviam em círculos na igreja só precisavam olhar de soslaio para ele que ele desaparecia no mesmo instante.
Fiquei maravilhado com sua habilidade, porque não era outra coisa a não ser isso. E curioso para saber se eu poderia mover-me daquele jeito, eu o segui até o coro. Gabrielle veio atrás sem emitir nenhum som.
Creio que ambos achamos isso mais fácil do que imaginávamos. Mas ele ficou claramente sobressaltado quando nos viu ao seu lado.
E, no próprio ato de se sobressaltar, me deu um vislumbre de sua grande fraqueza, o orgulho. Estava humilhado porque nos acercamos dele sem sermos vistos, movendo-nos com tanta leveza e ao mesmo tempo conseguindo ocultar nossos pensamentos.
Mas o pior estava por vir. Quando notou que eu havia percebido isso... foi revelado numa fração de segundo... ficou duplamente enfurecido. Um calor debilitante emanava dele, mas não era um calor que aquecia.
Gabrielle soltou um pequeno som de escárnio. Seus olhos chisparam sobre ele por um segundo, produzindo uma breve comunicação entre eles que me excluía. Ele pareceu intrigado.
Mas ele estava no corpo-a-corpo de alguma batalha maior que eu me esforçava para compreender. Olhava para os fiéis a seu redor, para o altar e todos os emblemas do Todo-poderoso e da Virgem Maria, que havia em todas as partes que se virasse. Era um perfeito deus saído do pincel de Caravaggio, com a luz tocando de leve a brancura forte de seu rosto de aparência inocente.
Então, ele colocou o braço em torno da minha cintura, deslizando-o por baixo de minha capa. Seu toque era tão estranho, tão suave e sedutor, e a beleza de seu rosto tão fascinante que eu não me afastei. Ele colocou o outro braço em volta da cintura de Gabrielle e a visão dos dois juntos, anjo com anjo, me distraiu.
Ele disse: Vocês devem vir.
— Por que, para onde? — Gabrielle perguntou.
Eu senti uma enorme pressão. Ele estava tentando mover-me contra minha vontade, mas não conseguia. Finquei-me no chão de pedra. Vi o rosto de Gabrielle se endurecer quando olhou para ele. E, de novo, ele ficou pasmo. Estava enfurecido e não conseguia esconder isso de nós.
Ele havia subestimado nossa força física, bem como a mental. Interessante.
— Vocês devem vir agora — ele disse, transmitindo-me sua grande força de vontade que eu podia ver com bastante clareza para me enganar. — Saiam e meus seguidores não lhes farão mal.
— Você está mentindo — eu disse. — Você mandou seus seguidores embora e quer que saiamos antes que eles retornem, porque não quer que eles o vejam sair da igreja. Você não quer que eles saibam que você entrou nela.
Mais uma vez, Gabrielle deu uma risadinha de escárnio.
Coloquei minha mão em seu peito e tentei afastá-lo. Ele podia ser tão forte quanto Magnus. Mas me recusei a ter medo.
— Por que você não quer que eles vejam? — sussurrei, perscrutando seu rosto. A mudança nele foi tão surpreendente e medonha que me descobri prendendo a respiração. Seu semblante angelical pareceu murchar, enquanto os olhos se arregalavam e a boca se contorcia para baixo em consternação. Todo seu corpo ficou deformado, como se ele estivesse tentando não cerrar os dentes e os punhos.
Gabrielle se afastou. Eu dei uma risada. Na verdade, eu não quis rir, mas não pude evitar. Era aterrorizador. Mas também muito engraçado.
Com surpreendente brusquidão, aquela terrível ilusão, se é que era isso, desapareceu e ele voltou a si. Até mesmo a expressão sublime retornou. Ele me contou num fluxo contínuo de pensamento que eu era infinitamente mais forte do que ele supunha. Mas que os outros se assustariam se o vissem saindo da igreja, de modo que devíamos ir de imediato.
— Mentiras de novo — Gabrielle sussurrou.
E eu sabia que aquele imenso orgulho não perdoaria coisa alguma. Que Deus ajudasse Nicolas se não conseguíssemos enganá-lo!
Virando-me, peguei a mão de Gabrielle e começamos a descer a nave em direção às portas da frente, com Gabrielle olhando de soslaio para ele e para mim, com uma expressão inquisidora, o rosto lívido e tenso.
— Paciência — eu sussurrei.
Virei-me para vê-lo bem distante de nós, de costas para o altar principal, com os olhos tão arregalados que me pareceu horrível, repulsivo, como um fantasma.
Quando alcançamos o Vestíbulo, enviei um chamado para os outros com todo meu poder. E sussurrei para Gabrielle enquanto o fazia. Eu disse para eles retornarem e entrarem na igreja, se quisessem, que nada poderia fazer-lhes mal, que seu líder estava no interior da igreja, parado diante do próprio altar, ileso.
Pronunciei as palavras bem alto, enfatizando meus apelos, e Gabrielle juntou-se a mim, repetindo as frases em uníssono comigo.
Eu senti que ele estava vindo em nossa direção, saindo do altar principal, e então, de repente, o perdi. Eu não sabia em que lugar atrás de nós ele estava.
Ele me agarrou subitamente, materializando-se ao meu lado, e Gabrielle foi atirada no chão. Ele estava tentando erguer-me e me arremessar através da porta.
Mas lutei contra ele. E juntando desesperado tudo de que me recordava de Magnus — sua maneira estranha de andar e o estranho modo daquela criatura se mover —, eu atirei-o para o alto, não para que perdesse o equilíbrio, como se poderia fazer com um mortal, mas direto no ar.
Tai como eu suspeitava, ele girou num salto mortal e colidiu com a parede.
Os mortais se agitaram. Viram movimentos, ouviram ruídos. Mas ele havia desaparecido de novo. E Gabrielle e eu não parecíamos diferentes de outros jovens cavalheiros nas sombras.
Fiz um sinal para Gabrielle sair do caminho. Então, ele apareceu correndo em minha direção, mas eu percebi o que estava por acontecer e dei um passo para o lado.
Eu o vi estatelar-se nas pedras a cerca de seis metros de mim, encarando-me com verdadeira estupefação, como se eu fosse um deus. Seus longos cabelos castanho-avermelhados estavam desgrenhados, e seus olhos castanhos, arregalados enquanto me fitavam. E com toda a dócil inocência de seu rosto, sua vontade estava me derrubando, uma quente torrente de ordens, dizendo-me que eu era fraco, imperfeito e tolo, que seus seguidores me dilacerariam membro por membro assim que aparecessem. Eles iriam queimar meu amante mortal bem devagar até a morte.
Ri em silêncio. Aquilo era tão ridículo quanto as cenas de luta nas velhas comédias.
Gabrielle nos olhava fixamente, ora para mim, ora para ele.
Tornei a convocar os outros e dessa vez, enquanto eu ordenava, ouvi que respondiam, perguntavam.
“Entrem na igreja.” Repeti várias e várias vezes, até mesmo quando ele levantou-se e correu para mim de novo, com raiva cega e desajeitada. Gabrielle pegou-o no mesmo momento em que o peguei, e nós dois o ficamos segurando, sem que ele pudesse mover-se.
Num momento de horror absoluto para mim, ele tentou afundar seus dentes caninos em meu pescoço. Vi seus olhos redondos e vazios enquanto seus colmilhos desciam por sobre o lábio puxado. Atirei-o para trás e ele desapareceu de novo.
Eles estavam chegando mais perto, os outros.
— Ele está na igreja, seu líder, olhem para ele! — eu repetia. — E qualquer um de vocês pode entrar na igreja. Não serão machucados.
Ouvi Gabrielle dar um grito de alerta. Tarde demais. Ele tomou forma bem em minha frente, como se tivesse saído do próprio chão, e bateu em meu queixo, jogando minha cabeça para trás de modo que vi o teto da igreja. E, antes que eu pudesse recuperar-me, ele me aplicou um tremendo soco no meio das costas que me fez sair voando pela porta e cair nas pedras da praça.